Paranhos da Beira viu-o crescer e preparou-o para o mundo, mas foi do outro lado do Atlântico que Ângelo Pereira desafiou as probabilidades e transformou o antigo medo de voar numa carreira de elite. Em entrevista exclusiva ao Jornal de Santa Marinha, o agora Comandante de Airbus da American Airlines recorda os sacrifícios da emigração, o momento em que uma visita ao cockpit mudou a sua vida e a estreia na emblemática rota transcontinental Nova Iorque–São Francisco. Uma história inspiradora onde a determinação venceu as barreiras geográficas, sem nunca apagar a saudade das raízes serranas.



Jornal de Santa Marinha (JSM): Ângelo, a sua jornada começou em Paranhos da Beira, onde nasceu e cresceu. Que memórias guarda da sua infância e juventude em Seia e como é que um rapaz do interior começa a sonhar com os céus e com a aviação comercial nos EUA?
Ângelo Pereira (AP): Nasci em Paranhos da Beira e vivi na região até aos 19 anos, antes de emigrar. As memórias que guardo da minha infância e juventude são de liberdade, segurança, diversão, amizades, aprendizagem e, acima de tudo, da simplicidade de um tempo sem redes sociais, em que a interação humana e o convívio presencial faziam parte do dia a dia.
A nossa região era — e continua a ser, em muitos aspetos — um refúgio do ritmo acelerado do resto do mundo. Crescer ali permitiu-me desfrutar de uma qualidade de vida muito especial e de valores que ainda hoje levo comigo. Decidi emigrar depois de concluir o ensino secundário, em Seia. Em 2005, comecei a perceber que as oportunidades profissionais em Portugal poderiam ser limitadas e que o mercado de trabalho seria desafiante. Perante a escolha entre seguir para a universidade e enfrentar essas incertezas mais tarde, ou arriscar uma mudança radical, optei pela emigração. Era uma decisão com um risco elevado, mas também com um potencial muito superior àquele que eu acreditava poder encontrar em Portugal na altura.
Escolhi os Estados Unidos porque tinha familiares que me puderam apoiar nos primeiros anos e porque a cultura americana sempre despertou a minha curiosidade. Havia — e continua a haver — um enorme dinamismo económico, oportunidades de inovação e possibilidades de progressão em praticamente qualquer setor, o que cria, constantemente, novas oportunidades de carreira.
Quando cheguei, o meu objetivo era simples: construir uma vida estável, encontrar uma profissão que me realizasse e alcançar a independência financeira o mais cedo possível. Comecei por trabalhar numa oficina de reparação automóvel. Cerca de um ano depois, com os primeiros sinais da recessão económica de 2007/2008, tive de procurar uma alternativa e passei a trabalhar numa empresa especializada na venda e exportação internacional de eletrodomésticos e contentores, sobretudo para Portugal. Trabalhei nessa empresa entre 2006 e 2010. Foi aí que conheci uma das pessoas mais importantes na minha trajetória profissional: Pedro André, hoje comandante da TAP. Era cliente da empresa e, ao longo do tempo, desenvolvemos uma amizade que se mantém até hoje. Em 2010, durante a minha primeira viagem de regresso a Portugal após emigrar, o Pedro era o piloto do voo. Nesse dia, proporcionou-me uma visita ao cockpit. Sem qualquer dúvida, foi esse o momento que mudou a minha vida. Foi ali, pela primeira vez, que percebi aquilo que realmente queria fazer e que nasceu o objetivo de seguir uma carreira na aviação.
Quando partiu de Portugal, trazia já o objetivo claro de se tornar piloto ou a oportunidade surgiu na diáspora?
AP: Não tinha qualquer plano de me tornar piloto. Vim para os Estados Unidos à procura de uma vida melhor, como tantos outros emigrantes. Aliás, durante muitos anos tinha até algum receio de voar. A aviação entrou na minha vida de forma completamente inesperada. Em 2010, durante uma viagem a Portugal, tive a oportunidade de assistir a uma aterragem em Lisboa a partir do cockpit de um Airbus A330, graças ao meu amigo Pedro André, hoje comandante da TAP. Aquela experiência mudou a minha forma de ver a aviação. O que antes era medo transformou-se em curiosidade e, pouco depois, em ambição profissional.
Nos dois a três anos seguintes dediquei-me a estudar o setor e a perceber quais os passos necessários para seguir esta carreira. Ao mesmo tempo, preparei-me financeiramente para um desafio que implicava um investimento muito elevado. Na altura, os custos da formação rondavam os 100 mil dólares, não existiam garantias de sucesso e os salários de entrada na profissão eram relativamente baixos, ainda muito afetados pelas consequências dos atentados de 11 de setembro de 2001 e da crise financeira de 2008.
Em abril de 2013 iniciei a minha formação na ATP Flight School, em Bowling Green, Kentucky, uma das escolas de voo mais reconhecidas dos Estados Unidos. O curso tinha uma duração prevista de cerca de seis meses e concluí-o em outubro do mesmo ano, obtendo todas as licenças e certificações necessárias para iniciar uma carreira profissional na aviação.
Após a formação, trabalhei cerca de 18 meses como instrutor de voo em New Jersey, uma etapa fundamental para acumular experiência e horas de voo. Nos Estados Unidos, os pilotos necessitam de atingir aproximadamente 1.500 horas de voo para poderem candidatar-se às companhias aéreas regionais, pelo que esta fase é essencial para a maioria dos profissionais.
Em 2015 surgiu uma oportunidade que acabou por alterar o meu percurso inicial: fui contratado como copiloto de um jato privado Embraer Phenom 300. Apesar de o meu objetivo ser chegar a uma grande companhia aérea, a aviação executiva oferecia melhores condições financeiras e uma experiência operacional muito diversificada. Durante os oito anos seguintes voei na aviação privada, primeiro como copiloto e mais tarde comandante em aeronaves de maior dimensão, acumulando experiência em operações nacionais e internacionais.
Foi uma fase extraordinária da minha carreira, que me permitiu conhecer destinos únicos, 48 dos 50 estados que constituem os EUA, contactar com pessoas de diferentes áreas e desenvolver competências profissionais muito exigentes.
No final de 2022, com a minha segunda filha a caminho, comecei a valorizar cada vez mais o equilíbrio entre a vida profissional e familiar. Foi então que decidi candidatar-me às grandes companhias aéreas norte-americanas. Embora isso implicasse uma redução salarial inicial significativa, acreditava que seria a melhor decisão a longo prazo.
No dia 11 de janeiro de 2023 fui contratado pela American Airlines, concretizando um objetivo que tinha começado a construir treze anos antes, quando entrei pela primeira vez num cockpit e percebi que aquela poderia ser a minha profissão.
JSM: O que sente mais falta da sua terra natal?
AP: Sinto falta de muitas coisas da minha terra natal. Acima de tudo, da paz, do sossego e da sensação de segurança que sempre fizeram parte da vida naquela região.
Tenho saudades das amizades, da simplicidade com que vivíamos e de uma época em que as pessoas conviviam mais umas com as outras. Sinto falta dos tempos em que as ruas estavam cheias de vida, com muitos jovens a conviver, a brincar e a criar memórias em conjunto. Era uma realidade diferente, mais próxima e mais humana.
Também sinto falta da boa gastronomia, das tradições e, sobretudo, das pessoas. Apesar de já viver nos Estados Unidos há muitos anos e de ter construído aqui a minha vida e a minha carreira, continuo a ter um carinho muito especial pelas minhas raízes e pelo lugar onde cresci.
Há coisas que o tempo e a distância nunca conseguem substituir, e a ligação à nossa terra é uma delas.


JSM: Como é que se lida com a saudade da sua terra estando do outro lado do Atlântico e a cruzar fusos horários constantemente?
AP: Hoje em dia é muito mais fácil lidar com a saudade e com a distância do que era quando emigrei. As novas tecnologias permitem-nos estar em contacto quase diariamente com a família e os amigos através de videochamadas, mensagens e redes sociais, o que ajuda a encurtar os milhares de quilómetros que nos separam.
Ainda assim, há coisas que a tecnologia nunca consegue substituir. Nada substitui um abraço, um almoço em família ou uma conversa entre amigos à mesma mesa. Sempre que tenho oportunidade, tento dar um saltinho a Portugal, nem que seja numa autêntica “visita de médico”. Aproveito para estar com a família, rever amigos, matar saudades da nossa gastronomia e, sempre que possível, assistir a um jogo do Benfica, que continua a ser uma das minhas grandes paixões.
A verdade é que a saudade nunca desaparece completamente. Aprende-se a viver com ela. Com o passar dos anos, vamos construindo uma vida noutro país, mas as nossas raízes continuam onde crescemos, e há sempre uma parte de nós que permanece ligada à nossa terra.
JSM: A sua jornada começou em 2013 e sabemos que o caminho não foi imediato. Olhando para trás, quais foram os maiores sacrifícios e desafios que teve de superar ao longo destes anos de dedicação?
AP: Durante os anos em que trabalhei na aviação executiva, essa realidade era ainda mais evidente. Muitas vezes era praticamente impossível fazer planos com mais de dois dias de antecedência. Nunca sabia exatamente onde iria estar na semana seguinte, o que dificultava encontros com amigos, eventos familiares e até momentos simples do dia a dia. A solidão também faz parte desta profissão e é algo com que muitos pilotos aprendem a lidar ao longo da carreira.
Em relação aos desafios, o maior talvez tenha sido acreditar em mim próprio e confiar na minha capacidade para ultrapassar os obstáculos que foram surgindo. Houve momentos de grande incerteza, tanto a nível financeiro como profissional, e foi preciso coragem para enfrentar o medo da rejeição, o medo de falhar e até o receio de desiludir as pessoas que acreditaram em mim e me apoiaram ao longo do caminho.
Aprendi que o sucesso raramente acontece de forma linear. É construído através de persistência, trabalho diário e da capacidade de continuar a avançar mesmo quando não temos a certeza de como tudo vai terminar. Olhando para trás, sinto que os maiores desafios não foram os exames, as horas de voo ou as mudanças de emprego, mas sim a capacidade de manter a confiança e a determinação nos momentos em que teria sido mais fácil desistir.
JSM: Há uns anos celebrou a promoção a Capitão na aviação privada e agora alcançou o mesmo posto na aviação comercial. Quais são as grandes diferenças (além do tamanho do avião) no nível de responsabilidade entre estes dois mundos?
AP: Antes de mais, é importante esclarecer que a maior mudança de responsabilidade acontece na passagem de copiloto para comandante, e não necessariamente na transição da aviação privada para a aviação comercial.



Na prática, tanto o copiloto como o comandante possuem as qualificações necessárias para operar a aeronave em segurança. Ambos são treinados para voar o avião e para lidar com situações normais e de emergência. A principal diferença está na responsabilidade da decisão final. Quando surge uma situação complexa ou uma decisão difícil, cabe ao comandante assumir a responsabilidade e tomar a decisão definitiva.
Relativamente às diferenças entre a aviação privada e a aviação comercial, aquilo que mais se destaca não é o tamanho da aeronave, mas sim o nível de suporte disponível.
Na aviação privada, especialmente em operações mais pequenas, o comandante trabalha de forma muito mais autónoma. É necessário ter um conhecimento abrangente não só da operação de voo, mas também de muitos aspetos logísticos e operacionais que acontecem à sua volta.
Muitas vezes, as equipas de apoio são reduzidas e as decisões têm de ser tomadas com menos recursos e menos apoio externo.
Na aviação comercial, pelo contrário, existe uma estrutura de suporte extremamente robusta. Temos equipas especializadas em operações de voo, meteorologia, manutenção, despacho operacional, planeamento de rotas, apoio ao passageiro e gestão de irregularidades. Isso não significa que a responsabilidade seja menor, mas permite que as decisões sejam tomadas com mais informação e apoio.
Por exemplo, perante uma alteração meteorológica, um problema mecânico ou a necessidade de desviar um voo para outro aeroporto, o comandante continua a ser a autoridade final a bordo. No entanto, pode contar com o apoio de diversas equipas em terra que ajudam a avaliar cenários, apresentar alternativas e encontrar a melhor solução possível.
Diria que, na aviação privada, o comandante precisa de ser mais generalista e mais autónomo. Na aviação comercial, continua a existir uma enorme responsabilidade, mas integrada num sistema muito mais estruturado e colaborativo.
Em ambos os casos, o objetivo é exatamente o mesmo: garantir a segurança da operação e tomar as melhores decisões para os passageiros, a tripulação e a aeronave.
JSM: O processo de treino na American Airlines é conhecido por ser extremamente rigoroso. Pode partilhar connosco como foi esse “longo mês e meio” de simulações noturnas, estudo intensivo e avaliações de linha? O que é que o manteve focado quando o cansaço apertava?
AP: O treino na American Airlines é bastante rigoroso, como seria de esperar numa empresa desta dimensão. Estamos a falar da maior companhia aérea do mundo, com cerca de mil aeronaves, mais de 125 mil colaboradores, incluindo aproximadamente 17 mil pilotos e 30 mil assistentes de bordo.
Numa operação desta escala, a segurança e o conforto dos passageiros são prioridades absolutas. A única forma de garantir esses padrões de forma consistente é através de um programa de formação extremamente exigente, estruturado e padronizado.
O processo de treino é cuidadosamente planeado para ser eficiente no tempo e eficaz na aprendizagem. Durante cerca de mês e meio, os dias eram dedicados quase exclusivamente à formação. Cada sessão incluía aproximadamente seis horas de treino, divididas entre duas horas de componente teórica e quatro horas de simulador, normalmente após uma breve pausa.
Ao longo desse período estudamos em profundidade todos os sistemas da aeronave, as suas limitações, procedimentos normais e de emergência, além de praticarmos repetidamente cenários que esperamos nunca encontrar na vida real. O simulador permite recriar falhas mecânicas, condições meteorológicas extremas e outras situações de emergência, preparando-nos para tomar decisões rápidas e corretas sob pressão.
O ritmo é intenso. Normalmente treinamos cinco dias consecutivos, seguidos de dois dias de descanso. E essa componente do descanso é muitas vezes subestimada. Aprendi que o treino é tão importante quanto a recuperação. No final do dia, somos todos humanos e a capacidade de aprender, processar e reter informação depende muito de estarmos física e mentalmente descansados.
Quanto ao que me manteve focado, penso que foi sobretudo a consciência da oportunidade que tinha pela frente. Trabalhei muitos anos para chegar àquele momento e sabia que estava perante uma das etapas mais importantes da minha carreira. Havia naturalmente cansaço, pressão e momentos de dúvida, mas também existia uma enorme motivação para provar a mim próprio que estava preparado para aquele desafio.
Além disso, a aviação ensina-nos desde cedo uma regra fundamental: a disciplina vence quase sempre a motivação. Há dias em que nos sentimos mais cansados ou menos inspirados, mas o segredo está em continuar a estudar, continuar a preparar-se e confiar no processo. Foi essa mentalidade que me acompanhou durante todo o treino e que continua a acompanhar-me hoje como comandante.
JSM: O voo AAL76, de Nova Iorque (JFK) para São Francisco (SFO), marcou a sua estreia oficial como Capitão de Airbus na American Airlines. O que sentiu no momento em que assumiu os comandos sabendo que a responsabilidade final daquela aeronave e de todas as vidas a bordo era sua?
AP: O voo AA76 foi, sem dúvida, um momento muito especial e memorável, porque assinalou o meu primeiro voo oficial como comandante de Airbus na American Airlines. No entanto, a verdade é que, do ponto de vista operacional, decorreu de forma perfeitamente normal, exatamente como se pretende que aconteça na aviação. Naturalmente existia algum nervosismo. Seria estranho se não existisse. Afinal, era o culminar de muitos anos de trabalho, formação e dedicação. Mas uma coisa que a aviação nos ensina é que, quando as portas se fecham e chega a hora de começar a operação, as emoções ficam em segundo plano e o foco passa a estar exclusivamente na missão.
Assumi os controlos de forma bastante natural. A partir desse momento, toda a minha atenção estava concentrada em garantir que o voo decorresse da forma mais segura, eficiente e profissional possível. Entre verificações, procedimentos, comunicações e tomada de decisões, o trabalho exige um nível de concentração tão elevado que praticamente não sobra espaço para pensar no significado pessoal do momento. Curiosamente, só mais tarde é que comecei verdadeiramente a processar o que tinha acontecido.
Durante o voo, estava tão focado na responsabilidade da função que nem tive tempo para refletir sobre o percurso que me tinha levado até ali. Foi apenas depois de chegarmos a São Francisco, já com a operação concluída, que tive oportunidade de parar por um instante e pensar que aquele rapaz que saiu de Paranhos da Beira, sem qualquer ligação à aviação e até com receio de voar, tinha acabado de comandar um Airbus numa das maiores companhias aéreas do mundo. Foi um momento de enorme satisfação pessoal, não apenas pelo cargo em si, mas por tudo aquilo que representava: anos de sacrifício, persistência, aprendizagem e confiança num objetivo que, durante muito tempo, parecia bastante distante.
JSM: Fazer uma rota transcontinental tão emblemática (Costa Este para a Costa Oeste) logo no voo inaugural tem um sabor especial? Como reagiram a tripulação e os passageiros?
AP: Sem dúvida que teve um significado especial. As rotas transcontinentais são, aliás, algumas das minhas favoritas, não só pelo percurso em si, mas também pelo tipo de operação que envolvem.
Neste caso, voávamos um Airbus A321 numa configuração mais premium, com 10 lugares em classe executiva com camas totalmente reclináveis (*lie-flat*), 24 lugares de classe executiva e cerca de 70 lugares em económica. Esta configuração permite oferecer um nível de conforto bastante superior aos passageiros, com um serviço de bordo mais cuidado durante as aproximadamente 5 horas e 45 minutos de voo. Além disso, a tripulação de cabine é reforçada, com cinco assistentes de bordo, enquanto numa configuração normal de um Airbus A320/A321 são geralmente quatro.
Para mim, foi uma excelente forma de começar esta nova etapa. A tripulação de voo foi fantástica. Receberam-me muito bem, deram-me os parabéns pela promoção e ajudaram a tornar aquele momento mais tranquilo. Numa profissão como esta, o trabalho de equipa é fundamental, e ter pessoas experientes ao nosso lado faz toda a diferença.
Quanto aos passageiros, a maioria não fazia ideia de que aquele era o meu primeiro voo como comandante. Decidi não fazer qualquer anúncio sobre isso, principalmente porque não queria acrescentar uma pressão desnecessária ao momento. A responsabilidade já era suficientemente grande e preferi manter o foco na operação e na segurança do voo.
No final, o mais importante é que para os passageiros fosse apenas mais um voo confortável e seguro.
JSM: Quando o avião aterrou em São Francisco e o voo foi formalmente concluído com sucesso, qual foi o primeiro pensamento que lhe veio à cabeça? Lembrou-se do ponto de partida em Seia?
AP: Quando o avião aterrou em São Francisco e o voo foi concluído, houve um momento de realização do percurso feito até ali. Durante o voo, o foco esteve totalmente na operação e na segurança, pelo que só no final tive tempo para refletir sobre o significado daquele momento.
Tinham passado cerca de 13 anos desde a minha primeira aula de voo e acabava de completar o meu primeiro voo como comandante da American Airlines. Foi uma satisfação profissional muito grande, sobretudo por representar o culminar de anos de formação, experiência, dedicação e trabalho. Mais do que um momento de celebração, foi a confirmação de que todo o esforço investido ao longo do percurso tinha valido a pena.
JSM: A sua história é uma prova viva de que “o trabalho árduo e a determinação compensam”. Que conselho daria a um jovem de Seia que, tal como o Ângelo em 2013, tem um grande sonho, mas pode achar que as origens ou as dificuldades financeiras e geográficas são uma barreira intransponível?
AP: O meu conselho é simples: sonhem. Se conseguem sonhar com algo, então já deram o primeiro passo para poderem lá chegar. Não deixem que o mundo à vossa volta decida aquilo que é ou não é possível para vocês. Muitas vezes, as maiores limitações não estão nas nossas capacidades, mas nas barreiras que aceitamos antes sequer de tentar.
Não se acomodem demasiado ao que têm neste momento, mesmo que seja confortável. Devem procurar sempre evoluir, aprender e crescer. Sejam ambiciosos, mas mantenham-se realistas sobre as vossas capacidades e sobre o trabalho necessário para atingir os objetivos.
Também diria para não deixarem que outras pessoas — sejam amigos, família ou quem quer que seja — definam aquilo que vocês conseguem ou não conseguem fazer. As opiniões dos outros podem ser importantes, mas no final cabe a cada um provar através das suas ações aquilo de que é capaz.
Eu próprio nunca imaginei, quando saí de Seia, que um dia estaria a comandar um Airbus numa das maiores companhias aéreas do mundo. O caminho não foi fácil, houve riscos, dúvidas e muitos sacrifícios, mas cada passo foi construído com dedicação e persistência.
Acredito que o conforto excessivo pode ser um inimigo maior do sucesso e da evolução do que as próprias dificuldades. Muitas vezes, são os desafios que nos obrigam a crescer e a descobrir capacidades que nem sabíamos que tínhamos.
Por isso, sonhem, trabalhem para isso e não deixem que as circunstâncias onde nasceram definam até onde podem chegar.
JSM: Sendo agora totalmente qualificado como Capitão de Airbus na American Airlines, quais são os próximos objetivos? O céu continua a ser o limite ou já há novas metas no horizonte?
AP: Neste momento, os meus objetivos passam muito mais por uma vertente familiar e pessoal do que propriamente profissional.
Quando fui contratado pela American Airlines, a 11 de janeiro de 2023, senti que tinha atingido todos os grandes objetivos profissionais que tinha traçado. A chegada a uma companhia desta dimensão já era, por si só, a concretização de um sonho. A promoção a comandante acabou por ser, como costumo dizer, a “cereja no topo do bolo”.
Muitas pessoas perguntam-me se o próximo passo será voar longo curso, em aviões como o Boeing 787 Dreamliner ou o Boeing 777. É uma possibilidade, naturalmente, mas neste momento não é algo que me atraia particularmente. Aliás, poderia ter seguido esse caminho antes de me candidatar a comandante no Airbus A321, mas fiz uma escolha diferente.
Nesta fase da minha vida, com as minhas filhas ainda pequenas, valorizo mais ter tempo de qualidade com elas. A carreira é importante, mas percebi que existem momentos que não voltam atrás. Quero acompanhar o crescimento delas, estar presente e conseguir um equilíbrio saudável entre a profissão e a família.
Daqui a alguns anos, quando elas forem mais velhas, talvez as minhas prioridades mudem e talvez volte a olhar para outras possibilidades dentro da aviação. A aviação é uma área onde nunca deixamos de aprender e há sempre novos desafios.
Por agora, sinto-me exatamente onde quero estar: numa posição que me permite continuar a fazer aquilo que gosto, numa das melhores companhias aéreas do mundo, mas também estar presente para aquilo que é mais importante fora do cockpit.
JSM: Quando é que os senenses podem esperar uma visita do Capitão Ângelo à sua terra natal para celebrar esta grande vitória com os seus?
AP: Essa é provavelmente a pergunta que mais me fazem!
A verdade é que a vontade de voltar e visitar a família existe sempre. A distância faz com que cada regresso a Portugal seja ainda mais especial, não apenas pela família, mas também por rever amigos, voltar aos lugares onde cresci e matar saudades das pequenas coisas que fazem parte das nossas raízes.
Quando tiver um “buraquinho” no meu planeamento que permita fazer uma visita como deve ser, vou tentar passar por aí. Idealmente, juntar uma visita à família com uma ida ver um jogo do meu Benfica, que é sempre uma boa desculpa para regressar.
A minha terra continua a ser parte importante da minha história. Por isso, mesmo estando do outro lado do Atlântico, Seia continua sempre no mapa da minha vida.
JSM: Pensa regressar definitivamente às suas origens?
AP: Sinceramente, não acredito que o meu futuro passe por regressar definitivamente às minhas origens, pelo menos não no sentido de voltar a viver em Portugal a tempo inteiro.
A minha ligação a Seia e às minhas raízes continuará sempre a existir. É o lugar onde cresci, onde estão muitas das minhas memórias e onde tenho pessoas que são muito importantes para mim. Mas, depois de tantos anos nos Estados Unidos, a minha vida acabou por ser construída aqui.
Uma das principais razões prende-se com a minha família. As minhas filhas estão a crescer nos Estados Unidos e, quando forem adultas, é muito provável que construam as suas próprias vidas por aqui. Quero estar presente, acompanhar o caminho delas e estar próximo para ajudar no que for necessário.
A vida de emigrante também nos transforma. Criamos novas raízes sem perder as antigas. Hoje sinto que tenho duas casas: a terra onde nasci e cresci, que fará sempre parte de mim, e o país que me deu a oportunidade de construir a minha carreira e a minha família.
Não vejo isto como uma escolha entre Portugal e os Estados Unidos. São duas partes da minha história. Continuarei sempre ligado às minhas origens e espero continuar a visitar Seia muitas vezes, mas neste momento o meu futuro está sobretudo ligado à vida que construí aqui.



