Em entrevista ao Jornal de Santa Marinha, o reitor Joaquim Brigas faz o balanço da conversão do Instituto Politécnico da Guarda em Universidade Politécnica, destaca o reforço da investigação e da oferta formativa e aborda o impacto da instituição no desenvolvimento da região, com particular atenção à Escola Superior de Turismo e Hotelaria, em Seia.


A conversão de 13 institutos politécnicos em universidades politécnicas marcou o início de uma nova etapa no ensino superior português. Para o reitor da Universidade Politécnica da Guarda (UPG), Joaquim Brigas, a nova designação reconhece um percurso de rigor, qualidade e afirmação científica que a instituição vinha consolidando.
A evolução do subsistema politécnico começou também por responder a uma necessidade de afirmação e de maior clareza no plano internacional, onde a designação Polytechnic University facilita a integração em consórcios europeus, projetos de investigação e programas de mobilidade.
A conversão em Universidade Politécnica pressupôs a acreditação institucional sem condições pela Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES). A este reconhecimento juntam-se os resultados alcançados na avaliação das unidades de investigação pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). Como sintetiza Joaquim Brigas, «a lei não criou esta realidade, reconheceu-a».
A instituição apresentou cinco unidades de investigação à avaliação da FCT, tendo três obtido a classificação de Muito Bom e duas a classificação de Bom. Foram igualmente acreditados três doutoramentos, desenvolvidos em parceria com instituições nacionais e internacionais: Ciências do Desporto, em consórcio nacional; Ciências Biomédicas e Biotecnológicas, com a Universidade de Saragoça; e Media, Património, Sociedade e Espaços de Fronteira, com a Universidade Pública de Navarra.
«Foi um resultado muito importante para nós. Na primeira vez em que submetemos um número significativo de unidades de investigação a avaliação, três obtiveram a classificação de Muito Bom. Isso demonstra que a instituição possui capacidade científica e condições para assegurar a qualidade exigida na formação avançada, designadamente nos mestrados e doutoramentos.»
Oferta formativa renovada e ajustada às necessidades
Desde 2019, a UPG alargou e renovou de forma significativa a sua oferta formativa. O número de mestrados cresceu 47%, com oito novos cursos em áreas como Design de Interiores e Produto, Tecnologia Industrial e Inovação, Comunicação Visual — Design Gráfico, Sistemas de Informação Geográfica, Biotecnologia Medicinal e Farmacêutica, Tecnologias para a Logística, Gestão Industrial e Cibersegurança.
Nas licenciaturas, o crescimento foi de 30%, com novas formações em Gestão do Turismo e da Hospitalidade, Ciência de Dados e Inteligência Artificial, Desporto, Condição Física e Saúde, Biotecnologia Medicinal, Mecânica e Informática Industrial, Ciências Biomédicas e Laboratoriais e Marketing e Inovação no Turismo. A oferta de cursos técnicos superiores profissionais aumentou 46%, com mais de 21 cursos novos ou reformulados, orientados para as necessidades de qualificação das empresas, das autarquias e das instituições da região.
A Universidade está agora a preparar novas formações e unidades de investigação para 2027, procurando responder à evolução da sociedade, da economia e do mercado de trabalho, sem perder de vista a qualidade, a empregabilidade e a função do ensino superior enquanto elevador social.
Investigação, inovação e ligação ao território
A atividade científica da UPG tem vindo a concentrar-se em áreas com impacto direto na sociedade e na economia regional, entre as quais o envelhecimento ativo e saudável, a logística associada ao Porto Seco da Guarda e o jornalismo de dados.
«O envelhecimento ativo e saudável é uma das áreas em que dispomos de mais recursos e investigadores, trabalhando em parceria com instituições como as universidades de Aveiro e de Coimbra e com universidades espanholas, designadamente através de projetos Interreg. É uma área em que temos apostado seriamente, tal como na logística, em estreita relação com o Porto Seco da Guarda.»
A UPG tem igualmente reforçado a investigação aplicada e a cooperação internacional. Participa em consórcios nacionais e internacionais e assumiu já a coordenação de cerca de meia dúzia de projetos internacionais. Entre eles encontra-se o ADT4Blue — Advanced Digital Technologies for the Blue Economy, dedicado à aplicação de tecnologias digitais avançadas aos desafios da economia azul.
A transferência de conhecimento e o empreendedorismo são também promovidos através de uma incubadora de base tecnológica com polos distribuídos pelo território e de projetos de transição digital dirigidos às pequenas e médias empresas, desenvolvidos em colaboração com associações empresariais.
«Criámos uma incubadora de base tecnológica com a particularidade de não estar centralizada apenas na Guarda, dispondo de polos distribuídos pelo território. Envolvemos também associações empresariais, para que, em conjunto, possamos desenvolver um trabalho mais eficaz na inovação, na transferência de conhecimento e na qualificação dos recursos humanos.»
A Escola Superior de Turismo e Hotelaria e a cooperação com Seia
No caso da Escola Superior de Turismo e Hotelaria (ESTH), sediada em Seia, Joaquim Brigas destaca a cooperação com a autarquia e a necessidade de adequar a oferta formativa às necessidades daquele território. A nova licenciatura em Marketing e Inovação no Turismo e o funcionamento, nas instalações da ESTH, de formações de outras escolas da UPG procuram ampliar a capacidade de resposta da Universidade às necessidades do concelho e da região. Esse trabalho beneficia do empenho da direção da Escola e da qualidade e dedicação do seu corpo docente.
«Deslocalizámos para Seia formações de outras escolas da UPG, designadamente das áreas da Saúde e da Educação, para dar melhor resposta às necessidades identificadas naquele território. Embora não integrem a oferta própria da ESTH, complementam-na e reforçam a capacidade da Universidade para servir o concelho e a região. A UPG está naturalmente aberta a estudar novas ofertas formativas para Seia, sempre em articulação com o Município, desde que correspondam a necessidades reais, tenham procura sustentável e empregabilidade e reúnam as condições académicas adequadas. Não basta escolher cursos que, à partida, possam parecer mais atrativos.
A própria ESTH alargou a sua atuação a outros concelhos, aproximando a formação das necessidades específicas das comunidades e do tecido empresarial.
«Algumas formações da Escola Superior de Turismo e Hotelaria, pela sua especificidade e pela procura existente, funcionam também noutros concelhos, designadamente em Vila Nova de Foz Côa, Trancoso e Gouveia. É o caso de áreas como a cozinha e produção alimentar e a enogastronomia.»
O reitor considera a cooperação com os municípios indispensável para melhorar o acolhimento, atrair e fixar estudantes e ampliar o impacto económico, social e cultural do ensino superior. Em Seia, essa cooperação concretiza-se numa articulação próxima do Município com a direção da ESTH e também diretamente com a Reitoria. Joaquim Brigas reconhece o apoio prestado pela autarquia, mas identifica a falta de alojamento estudantil a preços acessíveis como o principal constrangimento ao crescimento da Escola.
«O Município de Seia tem prestado um apoio muito relevante, numa articulação próxima com a direção da ESTH e também diretamente com a Reitoria. A Escola dispõe de um corpo docente qualificado e empenhado e de uma direção comprometida com a sua afirmação. Existe, assim, uma base sólida para reforçar a atratividade da ESTH e aumentar o seu contributo para o desenvolvimento do concelho e da região. O alojamento continua, contudo, a ser uma questão essencial para atrair e fixar mais estudantes.»
Uma âncora de conhecimento e desenvolvimento
Para Joaquim Brigas, o papel da Universidade ultrapassa a formação académica e as infraestruturas físicas. A qualificação das pessoas, a produção de conhecimento, a investigação aplicada e a transferência de tecnologia são hoje fatores determinantes da competitividade territorial.
«A Universidade Politécnica da Guarda tem de afirmar-se como uma âncora de conhecimento, inovação e desenvolvimento deste território. Hoje, a competitividade de uma região já não depende apenas das acessibilidades ou das infraestruturas físicas. Depende, sobretudo, da sua capacidade para produzir conhecimento, qualificar pessoas, atrair talento e transformar conhecimento em inovação, empresas, emprego e riqueza.»
A presença de uma instituição de ensino superior constitui também um argumento para a atração de investimento, ao permitir formar e requalificar trabalhadores e responder, no próprio território, às necessidades das empresas.
«Uma universidade próxima permite adaptar a formação às necessidades reais, apoiar a reconversão de competências e oferecer às empresas recursos qualificados, sem obrigar os trabalhadores a deslocarem-se dezenas ou centenas de quilómetros. É esse o papel que queremos aprofundar: colocar o conhecimento ao serviço das pessoas, das empresas e do futuro da região.»





