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ESTH Seia debateu “sem filtros” os desafios da sustentabilidade no Turismo

O evento, organizado pela Escola Superior de Turismo e Hotelaria (ESTH) do Instituto Politécnico da Guarda, reuniu especialistas, governantes e empresários para uma reflexão sobre os desafios e oportunidades do turismo no interior do país.

A Escola Superior de Turismo e Hotelaria de Seia (ESTH) transformou-se, na passada quarta-feira, 14 de janeiro, no epicentro da discussão sobre o turismo do futuro. O fórum “Sustentabilidade em Turismo – Boas Práticas Sem Filtros”, organizado no âmbito do Mestrado em Gestão e Sustentabilidade no Turismo, promoveu um diálogo aberto entre a escola, entidades públicas e o setor privado, focando-se na aplicação prática de estratégias que respeitem o território e as comunidades locais.

Na sessão de abertura, Ricardo Guerra, diretor da ESTH, congratulou-se com a adesão massiva, reiterando o compromisso da instituição na formação de profissionais capazes de unir a rentabilidade económica à proteção ambiental. “A nossa escola está profundamente ligada ao território e às empresas. Num setor que enfrenta dificuldades na contratação de mão-de-obra qualificada, reforçamos o nosso papel na preparação de profissionais conscientes e críticos”, afirmou, destacando, ainda, o protagonismo dos alunos do Mestrado na organização do evento.

Seia: um laboratório de boas práticas

Representando o Município de Seia, a vereadora Teresa Pereira apresentou o concelho como um exemplo vivo de como o turismo pode crescer em harmonia com a preservação natural e cultural.

Durante a sua intervenção, Teresa Pereira apresentou um roteiro de boas práticas que têm colocado o município no mapa internacional do turismo sustentável.

Entre os casos de sucesso mencionados, destacou alguns exemplos, tais como a vila de Loriga que foi, recentemente, reconhecida internacionalmente como uma das Best Tourism Villages.

Frisou, ainda, numa rede diversificada que une natureza e cultura. A este respeito, destacou o Centro de Interpretação da Serra da Estrela (CISE) e o Festival de Cinema Ambiental CineEco, pilares fundamentais de desenvolvimento do território. Também, a vasta rede de percursos pedestres e os museus municipais que, segundo a vereadora, oferecem uma imersão direta na paisagem e na história local. Também iniciativas como o “Ocupar a Velga” e “Cabeça Aldeia Natal” são “referências de como a comunidade pode ser o motor da atração turística”.

Contudo, Teresa Pereira reconheceu, também, que a pressão excessiva sobre recursos naturais e a sazonalidade continuam a ser desafios reais. “Uma aldeia tem de continuar a ser uma aldeia. Se perde a sua identidade, deixa de ser um destino diferenciado”, alertou, referindo-se aos limites do crescimento e a necessidade de evitar erros de massificação que possam descaracterizar a região. O exemplo dado foi o fenómeno Cabeça Aldeia Natal. Teresa Pereira apelou a uma “discussão aberta sobre o que não correu bem”.

Para além dos destinos físicos, Teresa Pereira salientou a importância vital da valorização dos saberes tradicionais e dos produtos locais como motor económico. O setor agroalimentar e a preservação de modos de vida rurais foram apontados como fatores de diferenciação face a destinos de massas.

Eventos como a Feira do Queijo e a Festa da Transumância e dos Pastores não são apenas momentos de celebração, mas estratégias de preservação do património imaterial que atrai o turismo gastronómico e cultural. A autarca mencionou ainda o papel de destaque do Museu do Pão e de produtos como o mel, os enchidos, os licores e a produção de lã e burel, que aliam a tradição à modernidade.

“O turismo só faz sentido quando gera valor económico, social e ambiental de forma equilibrada”, defendeu a vereadora, sublinhando que a autenticidade é o recurso mais valioso do Interior.

Certificação e estratégia regional

Rui Ventura, recentemente empossado presidente da Turismo Centro de Portugal, aceitou o convite para este fórum, tendo sido a sua primeira visita oficial à escola, trazendo um anúncio importante: a região vai iniciar este ano um processo de certificação de sustentabilidade ao mais alto nível. “O desafio já não é apenas crescer, é crescer com responsabilidade. O turismo do futuro é aquele que deixa o lugar melhor do que o encontrou”, sublinhou Rui Ventura. O dirigente destacou ainda que os fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) são uma “oportunidade histórica” para a transição climática e qualificação dos destinos de baixa densidade.

O risco em ser-se “vítima do próprio sucesso”

O vice-presidente do Instituto Politécnico da Guarda, Carlos Rodrigues, reforçou esta visão, lembrando que a sustentabilidade não é apenas um conceito, mas um desafio de gestão. Relatou, a propósito, o exemplo do evento Cabeça Aldeia Natal, referenciado anteriormente pela vereadora Teresa: “Um destino fantástico que pode tornar-se vítima do seu próprio sucesso se não for gerido sob critérios de sustentabilidade”, alertou, referindo-se à pressão turística sobre as pequenas localidades, sublinhando que o sucesso mediático de um destino pode tornar-se o seu maior inimigo se ultrapassar a capacidade de carga do território.

O programa estendeu-se ao longo do dia com painéis que cruzaram diversas visões. Magda Fernandes (Associação Geopark Estrela) e Sérgio Alves (Cerdeira Home for Creativity) debateram como o território deve liderar os projetos turísticos. No campo empresarial, nomes como Fernando Morais e Fernando Levy, do prestigiado Six Senses Douro Valley, partilharam a experiência de uma operação hoteleira de luxo assente em princípios sustentáveis.

O evento contou ainda com uma vertente prática, incluindo a plantação de árvores no bosque (“Deixa a tua Marca Verde”) e um workshop de “Cozinha Consciente” conduzido pela Chef Carolina Oliveira.

O fórum encerrou com um “Dão de Honra”, celebrando o sucesso de uma iniciativa que provou que, no turismo, o caminho para o sucesso passa, obrigatoriamente, pelo respeito pela origem, pelas pessoas e pelo ambiente.

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