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Amanhã, na Biblioteca Municipal de Seia, Wendy Nazaré apresenta o seu livro “Os Flamejantes Azuis” – “O meu avô era de Paranhos da Beira e, por isso, fazia todo o sentido apresentar o livro aqui em Seia”

Nascida em 1984 em Verviers (Bélgica), Wendy Nazaré é uma artista com raízes portuguesas, inglesas, argelinas e belgas. Em 1995, a descoberta de um segredo de família inspira-lhe as suas primeiras canções. O seu avô, de Paranhos da Beira, foi o mote para que o livro “Os Flamejantes Azuis” tivesse sido escrito. Em 2005, no seu funeral, Wendy recebeu cinco cassetes onde o avô português contava toda a sua vida, a partir desse momento, começou a registar o conteúdo dessas gravações num diário que mais tarde deu origem a este livro.

Em 2009, conhece o seu primeiro sucesso na Bélgica com o single “Mon Pays”. Em 2012, Wendy lança o seu segundo álbum e o single “Lisboa” (https://youtu.be/EoA1mCqdsVM?si=wuvowZodQRfnVWCQ) alcança um sucesso estrondoso junto da comunidade portuguesa internacional. Já em 2019, regressa com um novo projeto musical e volta a escrever no seu diário que se tornará no que ela gosta de definir como “uma biografia familiar subjetivamente recomposta”.

“Onde estás” é uma das músicas que faz parte deste álbum, cujo videoclipe foi filmado em Paranhos da Beira com o seu primo José Dias e a sua filha. Pode ver e ouvir aqui (https://youtu.be/hjva5OGzqU8?si=DSnbkXC9_Xy_HiZZ)

Jornal Santa Marinha (JSM): Como é que surgiu a oportunidade de vir a Seia apresentar o livro “Os Flamejantes Azuis”?

Wendy Nazaré (WN): Há uma equipa fantástica que se encontra à minha volta e que sabia o quão importante era para mim fazer a apresentação do livro em Seia. O meu avô era de Paranhos da Beira e, por isso, fazia todo o sentido apresentar o livro aqui em Seia, apesar de já ter sido lançado há uns anos.

O meu avô sabia que, um dia, eu iria escrever este livro e, por isso, antes de morrer, gravou a história da sua vida em pequenas cassetes. Quando fui ao seu funeral, recebi este material e foi bastante doloroso ouvir este documentário. A partir daqui, decidi transformar esta conversa num diário e, mais tarde, com o confinamento passar para uma crónica familiar, onde incluí, também, histórias do meu pai que foi um homem importante na Bélgica. Este livro conta histórias de resiliência e momentos fantásticas da infância do meu avô, em Paranhos da Beira.

Quem lê o livro percebe que as histórias são, realmente, verdadeiras. É um filho que vai encontrar o seu pai português em Paranhos da Beira, mas não só, é a vida difícil que o meu avô teve no Congo. O meu pai foi um super-herói para a minha mãe e há muitas outras histórias de resiliência no livro.

JSM: Quem são as personagens do livro?

WN: Os Flamejantes azuis são todas as personagens do livro, o meu pai, o meu avô, sendo que os azuis representam a cor dos olhos da minha avó. É uma crónica familiar e não um romance, porque não inventei nada. São passagens do meu avô, que foram um pouco modificadas para ser mais fácil ao leitor entrar neste mundo, com mais diálogos.

Conta a história do Zé de Paranhos da Beira que foi para o Congo onde conheceu o amor da sua vida; conta, também, a história de como o meu pai, que era português, encontrou o seu pai aos 28 anos e que não sabia que era seu pai. Fala, ainda de como o meu pai se tornou um homem importante na Bélgica e como se tornou um super-herói para a minha mãe; de como os meus bisavôs mandaram o meu avô para o Congo e como impediram uma grande história de amor, proibida pelos valores mais antigos. Já mais adulta descobri que esta história de amor ainda estava bem viva até à morte da minha avó belga e do meu avô português.

Foi só aos 11 anos que tomei conhecimento que ele era o meu avô e, pouco a pouco, descobri a existência de várias histórias e segredos da família. O meu avô sempre viveu entre Portugal e o Congo, o meu pai sempre viveu na Bélgica e a minha mãe tem raízes, argelinas e inglesas.

JSM: Quando surge a ligação à música?

WN: Quando eu era ainda pequenina. As músicas encontram-se no livro, mas, no início, não pensava pô-las. A ideia era lançar um álbum em francês.

No confinamento, o mal tornou-se em bem. Dediquei-me mais a ouvir as cassetes do meu avô, transcrevê-las e, depois, fazer este livro. Após terminar o livro, tinha tantas canções ligadas a estas histórias que decidi juntar as músicas e fazer um duplo álbum. Tinha todo o sentido fazer este livro em português e as canções serem ouvidas também em português. Decidi adaptar as canções francesas para português, tendo sido este o motivo por que o projeto demorou anos para surgir.

JSM: É isto que vai trazer a Seia neste sábado?

WN: Em Seia vou contar as minhas histórias. O meu marido faz parte do projeto, é o realizador das músicas e foi ele que fez a cover do livro. É ele que me vai acompanhar na guitarra. Não vou cantar, mas vou contar um bocadinho de histórias passadas em Seia. É muito emocionante para mim, porque Seia faz parte das fábulas do meu avô. Para mim, Seia e Paranhos da Beira sempre fizeram parte deste mundo fantástico.

JSM: Já alguma vez veio a Seia?

WN: Sim, claro que sim. Mantenho contacto ainda com uma parte da família de Paranhos da Beira. O meu avô, mesmo não sabendo quem eu era quando tinha 6, 7 ou 8 anos, já passeava comigo por Portugal inteiro e, nesta altura, já tentava corrigir o passado. Deu-me a conhecer a sua família e o meu primo de Paranhos da Beira e ainda hoje mantenho contacto com ele.

JSM: Vão estar presente na apresentação do livro?

WN: Nem todos poderão vir, porque têm as suas atividades. Mas é este meu primo que vai apresentar o livro, que é o José Dias e que faz parte do Rancho Folclórico de Paranhos da Beira. Pedi-lhe para o fazer, porque fazia todo o sentido ser ele a apresentar as histórias de família, uma vez que me conhece desde pequenina e é sempre à casa dele que volto quando vou a Paranhos. É ele que aparece no videoclip da canção “Onde Estás”. Esta canção foi escrita em francês quando voltei para a minha casa na Bélgica, após o funeral do meu avô. Depois adaptei-a para português e o videoclip foi filmado em Paranhos da Beira, com o José Dias e a minha filha.

Não me esqueço das minhas raízes. Elas são muito importantes para mim. O meu avô transmitiu-me isto… uma identidade portuguesa forte.

JSM: Quais os projetos que tem para o futuro? Talvez um novo videoclip gravado novamente em Seia, em Paranhos ou na região da Serra da Estrela?

WN: Tenho imensos projetos. O meu sonho é fazer um filme, e acho que as minhas ideias surgem espontaneamente. Sempre escrevi canções, porque é uma necessidade minha. Inicialmente o livro era, também, uma necessidade minha e, agora, tenho o sonho de o transformar num filme. Até seria muito giro filmá-lo em Seia, fazer uma parceria entre Seia e a Bélgica. Seria um projeto muito bom de fazer entre a região de Seia e a Bélgica, porque falo, também, das guerras, da Segunda Guerra Mundial e da Primeira Guerra na Bélgica e dos portugueses no Congo.

Neste momento, o objetivo é apresentar “Os Flamejantes Azuis” com canções e eu a contar a história, mas o filme seria uma ideia excelente. Tenho esta ideia fixa de o querer produzir.

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