por: João Coelho, Enfermeiro Área Gestão Integrada Cuidados Paliativos ULS Guarda – Polo Seia
Crisântemos e conversas
Todos os anos, no primeiro dia de novembro, “MARIA” apanha o autocarro com um ramo de crisântemos amarelos no colo. Leva também um pano, um frasco de água e uma escova pequena. Limpa a pedra com cuidado, troca as flores, arruma a jarra. Depois senta-se no banco ao lado e fica ali, uma hora ou mais.
Quem passa pensa que está a rezar. Às vezes está. Mas quase sempre está a conversar. Conta-lhe como vão os netos, que o telhado da casa precisou de arranjo, que a vizinha de cima se mudou. Coisas pequenas, de todos os dias. As mesmas que lhe contava ao jantar durante quarenta anos.
Um dia para lembrar
O Dia de Todos os Santos é dos poucos momentos do ano em que a nossa sociedade, tão apressada, para para lembrar quem já partiu. Os cemitérios enchem-se de flores e de famílias. Pessoas que não se viam há meses cruzam-se nas ruelas entre as campas. Há lágrimas, mas também há histórias, sorrisos, até algumas gargalhadas.
Há algo de profundamente sábio nesta tradição. Dá-nos licença para sentir saudade em público, sem ter de justificar. Lembra-nos que os que partiram continuam a fazer parte de nós, e que não estamos sozinhos nessa perda: à nossa volta, todos estão a lembrar alguém.
As outras datas
Mas há datas que nenhum calendário assinala e que doem mais. O dia de anos de quem já não está. O aniversário de casamento. O primeiro Natal com uma cadeira vazia à mesa. O dia em que tudo aconteceu, que regressa todos os anos sem pedir licença.
Nessas datas, quem está de luto costuma estar sozinho. Para os outros, é um dia como qualquer outro. Para quem perdeu, é o dia em que a ausência pesa o dobro. E, muitas vezes, não há ninguém que se lembre de perguntar.
Atravessar o dia
Não há uma maneira certa de viver estas datas. Há quem precise de ir ao cemitério e quem prefira nunca lá ir, porque sente a pessoa mais perto em casa, num jardim, numa praia de que ela gostava. Há quem queira a família toda junta e quem precise de ficar sozinho. Ambas as escolhas são legítimas.
Ajuda, muitas vezes, criar um pequeno ritual: acender uma vela, cozinhar o prato preferido de quem partiu, ver fotografias, ouvir a música de que gostava, escrever-lhe uma carta. Ritualizar a saudade dá-lhe um lugar e uma forma, em vez de a deixar a ocupar o dia inteiro sem rumo.
Lembrar quem lembra
E há uma coisa simples que todos podemos fazer: lembrar as datas dos outros. Saber que uma amiga perdeu a mãe em março e mandar-lhe uma mensagem nesse dia. Telefonar a um vizinho no dia de anos da mulher que já não está. Dizer, no Natal, o nome de quem falta à mesa.
Não é preciso dizer nada de especial. Um “lembrei-me de ti hoje” ou “lembrei-me dele” chega. Quem está de luto raramente se esquece. O que mais teme é que os outros se esqueçam.
Os nomes que dizemos
Hoje, ou nos próximos dias, talvez vá visitar alguém que já partiu. Ou talvez não vá, mas pense nele na mesma. Aproveite para contar uma história sobre essa pessoa a quem não a conheceu: um neto, um filho, um amigo novo. Enquanto houver quem conte as histórias, ninguém desaparece por completo.
E talvez valha a pena fazer mais uma coisa: pensar em quem, à sua volta, está a viver este dia pela primeira vez sem alguém. Uma mensagem, uma visita, um convite para almoçar podem fazer toda a diferença.
Ao fim da tarde, “MARIA” volta a apanhar o autocarro, já sem as flores. Vem mais leve do que foi. Não porque a saudade tenha passado, que essa não passa. Mas porque passou uma hora com ele, a contar-lhe a vida, como sempre fizeram. E isso, nenhuma data lhe tira.
João Coelho, Enfermeiro Área Gestão Integrada Cuidados Paliativos ULS Guarda – Polo Seia




