Das saudades de Paranhos da Beira às exposições nos EUA: o talento de Olga Alexandre

“Sinto falta de tudo um pouco — da gastronomia, das pessoas, da simplicidade e, claro, daquele ar puro da nossa serra, impossível de encontrar noutro lugar”

Natural de Paranhos da Beira, Olga Alexandre Amaro, a artista autodidata trocou as paisagens de Seia pelos Estados Unidos há mais de 25 anos. Entre a pintura, a filigrana e o restauro, Olga Alexandre encontrou na criatividade uma forma de unir os dois mundos, transformando a saudade em exposições que celebram a identidade portuguesa no Sport Club Português de Newark. Em entrevista ao Jornal de Santa Marinha, Olga recorda o desafio da emigração e celebra a concretização de sonhos na comunidade portuguesa de Newark.

Jornal de Santa Marinha (JSM): Olga, recuando no tempo, em que ano decidiu trocar as paisagens da Serra da Estrela pelos Estados Unidos e qual foi o principal motivo que a levou a emigrar? Já lá tinha família ou amigos? Com quem foi?

Olga Alexandre (OA): Emigrei para os Estados Unidos a 5 de março de 1995, numa fase em que senti necessidade de procurar novas oportunidades, tanto a nível pessoal como profissional. Não foi uma decisão fácil, porque deixar a nossa terra nunca é. O meu marido tinha uma irmã nos Estados Unidos e, com o tempo, acabámos por reencontrar pessoas conhecidas e fazer novas amizades, o que nos trouxe alguma segurança. Vim acompanhada pela minha família mais próxima — o meu marido e o meu filho mais velho — e isso fez toda a diferença nesse grande passo.

“Senti também a falta da proximidade humana a que estamos habituados em Portugal”

JSM: Chegar a um país com uma cultura tão diferente como são os EUA é sempre um desafio. O que é que lhe custou mais no processo de adaptação em Newark/Linden?

OA: O mais difícil foi, sem dúvida, a adaptação ao ritmo de vida. Tudo é mais rápido e exigente. Senti também a falta da proximidade humana a que estamos habituados em Portugal. No início, há sempre um sentimento de desenraizamento, mas, com o tempo, vamos encontrando o nosso lugar.

JSM: Apesar da distância física, de que forma é que Seia continua presente no seu dia a dia? Costuma visitar a sua terra natal com que frequência?

OA: Seia está sempre presente no meu dia a dia, quer nas memórias, quer nas tradições que mantenho. Tento visitar sempre que possível, embora nem sempre com a frequência que gostaria, devido aos compromissos profissionais e ao custo das viagens. Ainda assim, cada regresso é muito especial — é como recarregar energias.

JSM: O que é que sente mais falta em Portugal e da sua terra natal (Paranhos da Beira)? É a gastronomia, as gentes, ou aquele ar puro que só se respira na nossa região? Costuma acompanhar as notícias do concelho de Seia?

OA: Sinto falta de tudo um pouco — da gastronomia, das pessoas, da simplicidade e, claro, daquele ar puro da nossa serra, impossível de encontrar noutro lugar. Existe uma ligação muito forte às nossas raízes que nunca se perde e que, na minha opinião, os emigrantes sentem de forma ainda mais intensa.

Procuro manter-me informada sobre o que se passa em Seia e arredores; é uma forma de me sentir mais próxima. Acompanho algumas páginas nas redes sociais que me permitem seguir a atualidade local.

JSM: Muitos emigrantes vivem com a “mala pronta”. Pensa num regresso definitivo a Portugal num futuro próximo?

OA: É uma questão difícil. Ainda não tomámos uma decisão. Por um lado, não fazemos planos a muito longo prazo — preferimos viver um dia de cada vez. Por outro, os nossos filhos estão a construir as suas próprias famílias, e seria muito difícil deixá-los. Seria quase como emigrar novamente. No fundo, vivemos com o coração dividido.

“A arte sempre fez parte da minha vida. Cresci rodeada de criatividade: o meu pai, um artista multifacetado, e a minha mãe, costureira, tiveram ambos uma grande influência no meu percurso.”

JSM: Sabemos que vem de uma família de artistas. Como surgiu essa paixão pelas artes e qual a sua memória mais antiga ligada à criação?

OA: A arte sempre fez parte da minha vida. Cresci rodeada de criatividade: o meu pai, um artista multifacetado, e a minha mãe, costureira, tiveram ambos uma grande influência no meu percurso. As minhas memórias mais antigas passam por observar e participar em pequenos trabalhos manuais, experimentar materiais e criar sem receios — era algo muito natural.

JSM: Sendo uma artista autodidata, como foi o processo de aprendizagem das suas técnicas? Frequentou algum curso ou foi sobretudo um percurso de experimentação?

OA: Foi, acima de tudo, um processo de experimentação e curiosidade. Sempre tive vontade de aprender e de explorar novas ideias — essa foi a minha principal motivação. Naturalmente, fui pesquisando e acompanhando o trabalho de outros artistas, mas a maior parte do meu percurso construiu-se com prática, tentativa e erro.

JSM: Sabemos que domina a filigrana e trabalha com óleos sobre tela. Que outras técnicas utiliza e como integra o reaproveitamento de materiais nas suas obras?

OA: Gosto de explorar diversas técnicas, desde a criação de texturas com materiais reciclados até à combinação de pintura com elementos tridimensionais. No caso da filigrana, utilizo peças de joalharia tradicional portuguesa — como o coração de Viana ou crucifixos — que incorporo nas minhas obras. O reaproveitamento é uma componente essencial do meu trabalho: interessa-me dar uma nova vida a materiais que, à partida, não teriam utilidade. Cada peça acaba por contar uma história única.

JSM: Entre esculturas, pintura e joalharia, qual é o tipo de peça que mais gosta de criar?

OA: É difícil escolher, porque cada área tem o seu encanto. Em todos os projetos procuro dar o melhor de mim, de forma a alcançar um resultado que me satisfaça plenamente. Ainda assim, o restauro de móveis é, talvez, uma das áreas que mais prazer me proporciona. Transformar completamente uma peça é um processo muito gratificante.

JSM: Como se sentiu ao inaugurar a sua primeira exposição individual no Sport Club Português de Newark? Foi a concretização de um sonho?

OA: Foi um momento muito especial e emocionante. Ver o meu trabalho reconhecido e partilhado com a comunidade representou, sem dúvida, a concretização de um sonho. Foi também uma forma de celebrar todo o percurso até esse momento.

JSM: Sente que as suas origens em Seia influenciam os temas ou as cores das suas obras? Existe um “toque serrano” na sua arte?

OA: A minha arte está muito ligada ao meu estado de espírito. Muitas vezes, se interrompo um trabalho, quando regresso a ele sinto necessidade de alterar algo. Mais do que a origem geográfica, é o momento emocional que influencia o resultado final.

JSM: Qual a importância de instituições como a ProVerbo e o Sport Club Português no apoio aos artistas emigrantes?

OA: São extremamente importantes. Estas instituições criam oportunidades, dão visibilidade e ajudam a preservar a cultura portuguesa no estrangeiro. A ProVerbo, enquanto secção cultural do Sport Club Português, tem desempenhado um papel relevante ao abrir portas a artistas, escritores e poetas, tanto emigrantes como residentes em Portugal. Com o empenho de todos os envolvidos, acredito que continuará a cumprir essa missão.

JSM: Que mensagem gostaria de deixar aos senenses espalhados pelo mundo e àqueles que permanecem na sua terra natal?

OA: Que nunca esqueçam as suas raízes e que tenham orgulho na sua origem. Aos que vivem fora, que continuem a levar consigo um pouco de Portugal. E, se não existir uma comunidade organizada no local onde vivem, que tomem a iniciativa de a criar. Manter a nossa cultura viva é fundamental — a nossa identidade é uma grande força.

» Onde comprar o Jornal de Santa Marinha «

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Feira do Queijo Serra da Estrela e Praia Fluvial de Loriga distinguidas com Prémio Cinco Estrelas Regiões 2026

A Feira do Queijo Serra da Estrela e a Praia Fluvial de Loriga foram distinguidas na 9.ª edição do Prémio Cinco Estrelas Regiões 2026,...

Falso inspetor que burlava proprietários de restaurantes constituído arguido

O Comando Territorial da Guarda, através do Núcleo de Investigação Criminal (NIC) de Pinhel, constituiu arguido um homem de 58 anos, por burla, no...

Guarda Racing Days decorre na Guarda nos dias 4 e 5 de julho

A oitava edição do Guarda Racing Days, organização do Clube Escape Livre e da Guarda Unida Desportiva em parceria com a Câmara Municipal da...

GNR detém dois homens em Abrantes por furtos e roubos nos distritos da Guarda e Santarém

O Comando Territorial da Guarda, através do Núcleo de Investigação Criminal (NIC) de Gouveia, deteve, no dia 15 de junho, dois homens, de 43...

BTT Seia brilha no Campeonato Nacional de XCM que decorreu este domingo em Seia

O concelho de Seia afirmou-se, no passado domingo, 14 de junho, como o epicentro do ciclismo de montanha nacional. O concelho de Seia serviu...

Os Quatro e Meia atuam em Seia a 3 de julho em concerto solidário a favor do Solar do Mimo. A receita do espetáculo...

https://youtube.com/shorts/FETmmhZSPOs?is=ijg5yQMzv4Je4Auz O Anfiteatro Municipal de Seia vai ser o palco, no próximo dia 3 de julho, do evento “Notas de Mimo”. O espetáculo, agendado para...

Romaria dos Rebanhos volta a cumprir a tradição na Folgosa da Madalena

A aldeia da Folgosa da Madalena (Seia) acolhe, no próximo dia 21 de junho, a tradicional Romaria dos Rebanhos, uma das mais singulares manifestações...

TAC de última geração chega à ULS da Guarda

A Unidade Local de Saúde da Guarda passa a dispor de um novo equipamento de Tomografia Computorizada (TAC) de última geração, um investimento de...