«…o que mais caracteriza a nossa região [Seia] são as pessoas que lá vivem e que nunca deixaram de lutar. É a sua resiliência. “São as gentes da nossa terra”.»
Tiago Branquinho é senense e está na Alemanha desde 2014. Emigrou numa altura em que os pais se encontravam numa situação financeira difícil. Por isso, o motivo da sua saída foi, precisamente, de os ajudar. A decisão não foi nada fácil. O caminho era incerto, mas a sua coragem e resiliência levaram-no a este país onde começou a trabalhar, como tantos outros emigrantes: numa gelataria. A sua inquietude levou-o a sair da sua zona de conforto e trocou “o certo pelo incerto”. Hoje diz ter tido a sorte ao seu lado e, atualmente, trabalha numa Câmara Municipal, onde é responsável por manter o arquivo digital e respetiva base de dados da cidade operacionais 24 horas por dia.
Tiago Branquinho diz que “ser emigrante é um caminho desafiador, mas também uma oportunidade de crescimento pessoal e de abraçar novas culturas e formas de ver o mundo.” Nunca esquece as suas raízes e do que mais sente saudades é mesmo da comida da mãe.
Jornal de Santa Marinha (JSM) Há quanto tempo decidiu emigrar e qual a razão?
Tiago Branquinho (TB): Decorria o ano de 2014 quando isso aconteceu. A decisão não foi nada fácil. Naquela época, Portugal enfrentava muitos problemas económicos e os meus pais estavam numa situação financeira débil. Esse foi o motivo que me levou a fazê-lo. Para ajudá-los.
JSM: E por que razão escolheu a Alemanha?
TB: Escolhi a Alemanha, porque já tinha alguns familiares no país, tios e primos. Foram eles, que, de certa forma, me ajudaram a encontrar trabalho.
JSM: Foi para a Alemanha com um contrato de trabalho?
TB: Não. Emigrei sem contrato de trabalho. Só dias após a minha chegada à Alemanha é que foram tratados todos os trâmites legais.
JSM: Começou por trabalhar onde e em quê?
TB: O meu primeiro trabalho na Alemanha foi comum ao de muitos outros emigrantes do concelho: funcionário numa gelataria. Tive a sorte de ir para Hannover que é uma grande cidade e que me mostrou o mundo de outra forma.
JSM: Hoje trabalha numa Câmara Municipal. Como seu deu este salto?
TB: No final de 2022, quando a época de trabalho estava a terminar, decidi que, talvez, estivesse na hora de sair da minha zona de conforto. Olhando para trás, digo que foi uma loucura! Troquei o certo pelo incerto. Troquei o conforto de trabalhar para alguém que me acolheu como um filho, para me inscrever no Centro de Emprego Alemão. Troquei aquilo que tinham sido os meus primeiros anos da vida adulta, por algo que eu nem sequer visionava, algo imprevisível. Ninguém imaginava o que estaria por vir. Sim, hoje tenho a sorte de trabalhar numa Câmara Municipal na Alemanha. Mas isso não teria sido possível se, em setembro de 2022, não tivesse tomado aquela decisão e arriscado. A decisão prendeu-se muito pelo facto de ter completado 30 anos de vida nesse mesmo ano e, ao olhar para todos os sonhos que tinha em jovem, apercebi-me que o tempo é impiedoso e que não pára. Se o tempo, que é o bem mais precioso que temos, não espera por nós, porquê esperar para lutar por aquilo que são os nossos sonhos?
JSM: Qual a profissão que exerce e como é o seu dia a dia?
TB: Atualmente sou responsável por manter o arquivo digital e respetiva base de dados da cidade operacionais 24 horas por dia. A cultura de trabalho nas Instituições alemãs é muito diferente daquela que conhecemos e estamos habituados. A Câmara Municipal abre portas logo às 6h30min da manhã. Isso faz com que tenha que acordar às 5h para ir trabalhar. A minha primeira tarefa do dia é verificar se os nossos servidores estão em pleno funcionamento. O restante do dia de trabalho é dividido entre reuniões com outros Departamentos da Câmara, assistência a colegas que estejam com dificuldades em armazenar/procurar por documentos e, em determinados dias, realizar algum tipo de manutenção ao sistema usado na gestão de arquivos.
JSM: Como ocupa as restantes horas do dia?
TB: O restante do meu dia é dedicado à minha família. Em conjunto com a minha mulher e o meu filho, aproveitamos o que nos resta do dia para dar longas caminhadas perto de casa, em família, enquanto falamos de como foi o nosso dia. Já ao fim-de-semana, optamos por viajar para longe, inclusive visitar países vizinhos, para que o nosso filho tenha um leque diferenciado de experiências que possam, de alguma forma, um dia quiçá, ser-lhe úteis no seu futuro, tanto pessoal como profissional.
JSM: Como foi a adaptação a este país, à língua, à cultura?
TB: Quando cheguei em 2014, a adaptação não foi difícil. A cultura alemã, embora bastante diferente da nossa, nunca foi um problema. Já no que toca à língua, ainda hoje é um desafio. A língua é complexa e todos os dias aprendemos algo novo. A língua alemã é considerada uma das mais difíceis do mundo, e não o é por acaso, ela é capaz de nos desafiar diariamente e a obrigar-nos a estar num aprendizado constante. Contudo, os reais desafios apareceram em 2022 quando arrisquei mudar de vida. Nessa altura, sim, foi difícil. Também por conta da forma como o mundo se encontra nos dias que correm. Atualmente os emigrantes na Alemanha, e por conta dos Partidos mais extremistas, não são vistos com bons olhos. E isso, infelizmente faz-se sentir no nosso dia-a-dia.
JSM: Como caracteriza este país?
TB: A Alemanha é um país difícil para se viver. A exposição solar é pouca, o frio no Inverno é bastante severo e o típico alemão não é tão hospitaleiro quanto o português.
JSM: Há alguma comunidade de portugueses na zona onde reside?
TB: Atualmente estou a viver numa cidade tão grande como Seia. Os portugueses que conheço aqui podem contar-se pelos dedos de uma mão. A experiência mostrou-me que as grandes comunidades portuguesas estão concentradas, lá onde as oportunidades de trabalho são maiores. E, claramente, as oportunidades existem em maior número nas cidades maiores, como é caso de Düsseldorf, Hamburgo, Berlim, Munique… Portanto, nesse aspeto, a Alemanha também não é muito diferente, comparativamente àquilo que acontece em Portugal.
JSM: É difícil ser emigrante?
TB: Sim, é! E só mesmo vivenciando esta experiência é que se aprende a valorizar o que tínhamos antes, mesmo que fosse pouco.
JSM: Sabemos que nunca deixou de ter contacto com a sua terra natal e gosta de se manter informado sobre tudo o que se passa na região… Até quando ficará por terras alemãs?
TB: Essa é a pergunta que mais tenho feito a mim próprio nos últimos tempos…
JSM: O desejo de regressar a Portugal, mais propriamente a Seia, é uma realidade a curto prazo?
TB: O desejo é enorme. Hoje, e já com um filho, as prioridades são outras. E julgo que isso irá influenciar bastante na/a decisão. Agora, quando será o regresso? Não consigo dizer já. Mas acredito que não faltará muito.
JSM: Se regressar, há projetos seus que quer concretizar?
TB: Algum do meu tempo livre é reservado a trabalhar em pequenos projetos. Talvez, alguns deles nunca cheguem a sair do papel. Contudo, de tudo farei por seguir os meus sonhos e construir algo que beneficie a cidade. Relativamente a esta temática, irei usar aquela máxima que diz ” O segredo é a alma do negócio”.
JSM: Como caracteriza o concelho de Seia e toda a região?
TB: O concelho de Seia é um local esquecido pelas altas instâncias nacionais. Infelizmente, o concelho é apenas reconhecido por causa da neve no inverno. Só que, o concelho tem muito mais para oferecer ao longo de todo o ano. O concelho de Seia é um território com imensa história. Riquíssimo em diversos aspetos. Uma zona imensamente rica em tradições, tradições essas que, infelizmente, se têm vindo a perder ao longo do tempo. A região é feita de pessoas resilientes, trabalhadores extremamente capacitadas para fazer a diferença no espetro nacional. Se olharmos para a história do nosso Portugal, vemos que inúmeros ilustres da Historia do nosso País, nasceram em Seia. Esses mesmos fizeram, de alguma forma, a diferença em Portugal. Podemos, dentre eles, nitidamente destacar o Dr. Afonso Costa. Não o menciono por acaso. Acho que ele foi uma pessoa ilustre e mais, julgo e estou convencido que dentro de muitos senenses, existe um pequeno Afonso Costa, “Afonsos” esses, acorrentados e oprimidos internamente, porque, infelizmente, nunca tiveram as oportunidades necessários para ir mais além. Como fomos esquecidos por Lisboa durante muito tempo, começámos a olhar para nós mesmos como pessoas que apenas guardavam ovelhas, faziam queijos e trabalhavam no campo. Não estou, de forma alguma, com as minhas palavras a menosprezar esses belos e árduos trabalhos. Não! Muito pelo contrário. Faço menção a isto, porque estou plenamente convicto que as gentes do interior são capazes de muito mais. Portanto, na minha opinião, o que mais caracteriza a nossa região, são as pessoas que lá vivem e que nunca deixaram de lutar. É a sua resiliência. “São as gentes da nossa terra”.
JSM: Sente mais falta de quê?
TB: Honestamente? Da comida da minha mãe.
JSM: Uma mensagem…
TB: Ser emigrante é, sem dúvida, um caminho desafiador, mas também uma oportunidade de crescimento pessoal e de abraçar novas culturas e formas de ver o mundo. A experiência de viver longe do nosso país traz tanto de dificuldades quanto de momentos de grande aprendizagem e adaptação. Para todos aqueles que vão agora começar esta jornada, o meu conselho é nunca perderem a esperança e lembrar que, embora o caminho seja longo e muitas vezes árduo, as experiências que ganhamos ao longo dele são valiosas. É importante manter contacto com as nossas raízes e lembrarmo-nos delas; mas por outro lado sermos abertos ao novo, pois cada passo fora da nossa zona de conforto ajuda-nos a descobrir mais sobre nós mesmos e sobre o mundo que nos rodeia. O emigrante tem um papel fundamental na construção de pontes entre culturas, e isso, no fim, só enriquece a nossa sociedade.
















