Iniciativa da marca With Love Ana Figueiras chega à Santa Casa da Misericórdia para combater a solidão e celebrar as histórias de vida através da pastelaria afetiva.
Da superação pessoal em Londres ao projeto social “O Amor Fica”, Ana Figueiras utiliza receitas de família para empoderar mulheres e combater a solidão em instituições de solidariedade social.
“Aqui não se ensina a cozinhar — escuta-se a vida.” É sob esta premissa que o projeto social “O Amor Fica – Oficina de Empoderamento | O Poder do Bolo” está a ganhar vida no concelho de Seia. A iniciativa, criada pela mentora Ana Figueiras, utiliza a confeção de bolos não apenas como um ato culinário, mas como uma poderosa ferramenta de inclusão e combate ao isolamento social dos mais velhos.
A história da marca With Love Ana Figueiras não começou numa cozinha profissional, mas sim num cenário de desafio e resiliência. Em 2011, Ana Figueiras emigrou para Londres com três filhos pequenos e o peso de dívidas financeiras. Foi entre farinha e açúcar, ao recriar as receitas de infância da sua mãe, que encontrou não só um refúgio para as saudades, mas uma oportunidade de mudança. O que começou com a venda de um bolo a uma amiga evoluiu, ao longo de oito anos, para um negócio sustentável que devolveu orgulho e liberdade à sua família.
Hoje, Ana Figueiras é formada pela prestigiada escola Le Cordon Bleu e lidera a comunidade “O Poder do Bolo”, que conta com mais de 50 mil seguidores. A sua missão vai além da técnica culinária: foca-se no empoderamento feminino, promovendo a autoestima e a autonomia económica de mulheres através da pastelaria.
Como parte deste legado, a mentora criou a “Bíblia dos Bolos”, um livro que reúne as 36 receitas mais importantes da sua família e incentiva as alunas a registarem as suas próprias tradições para as gerações vindouras.
Projeto “O Amor Fica”
Expandindo o impacto da sua metodologia, surge o projeto social “O Amor Fica”. Esta iniciativa utiliza oficinas de pastelaria como ferramenta terapêutica em IPSS e instituições de apoio a idosos. O objetivo é combater sentimentos comuns no envelhecimento, como a solidão, a invisibilidade e a perda de utilidade.
Na Santa Casa da Misericórdia de Seia, o projeto assumiu um contorno particularmente simbólico. Através de um grupo de mulheres com percursos marcados pela resiliência, nasceu o “Bolo das Amigas”. Nesta criação coletiva, cada ingrediente foi escolhido por uma participante para representar uma memória ou emoção específica, transformando uma receita comum num manifesto de amizade e história partilhada.
De referir que o projeto estendeu-se também aos mais novos. Num momento de partilha intergeracional, crianças do pré-escolar foram convidadas a ilustrar as histórias e receitas das utentes, dando cor e uma nova perspetiva às memórias da terceira idade.
As oficinas funcionam em dinâmicas de pequenos grupos (8 a 12 participantes) para garantir a qualidade da escuta. O processo inclui o uso de receitas de família para trabalhar a memória afetiva; momentos onde os utentes recuperam a sua voz e identidade e a atividade prática que estimula a comunicação e a sensação de utilidade.
Para as instituições, o projeto oferece uma atividade diferenciadora que permite criar um “Caderno de Memórias e Receitas” próprio — um legado físico dos seus utentes. Segundo a apresentação do projeto, “este projeto não é sobre bolos; é sobre devolver voz e transformar memórias invisíveis em legado”.
Com um modelo de implementação flexível e focado na ética e no ritmo emocional de cada pessoa, o “O Amor Fica” prova que, embora o bolo se partilhe e acabe, o impacto das relações e das memórias criadas permanece.
Memórias que se comem e se guardam
Para além da criação coletiva, o projeto teve o cuidado de “eternizar” as receitas individuais preferidas de cada utente. Estas fórmulas gastronómicas, muitas vezes guardadas apenas na memória, foram agora documentadas para que, em cada aniversário na instituição, a receita daquele utente possa ser recriada, mantendo vivos os seus afetos.


























