- * Nas eleições autárquicas de 2025, a candidatura «Sim! Juntos por Seia», encabeçada por Miguel Caetano, pelo PSD/JPNT, venceu em Seia, assumindo a gestão da Junta de Freguesia.
- Ao completar-se o primeiro ano de mandato, o Jornal de Santa Marinha regressa à freguesia no âmbito da iniciativa «Dar voz às freguesias — Um ano depois», para ouvir o presidente sobre o trabalho desenvolvido e os desafios que se colocam à comunidade.
Nesta entrevista, Miguel Caetano destaca a reorganização administrativa e a recuperação da capacidade operacional como marcas dos primeiros doze meses de gestão, após a desagregação da antiga União das Freguesias. Aborda também os constrangimentos financeiros e humanos que a Junta enfrenta.
Ao mesmo tempo, aponta baterias ao futuro, com prioridades para o próximo ano centradas na melhoria do espaço público, no reforço das parcerias culturais e no incentivo à participação jovem.
«Sabemos que a Junta não tem competências nem recursos para resolver todos os problemas. Mas assumimos o compromisso de procurar respostas, reivindicar os meios necessários e continuar a trabalhar para que a Freguesia de Seia avance.»
Miguel Caetano, Presidente da Junta de Freguesia de Seia
.
Jornal de Santa Marinha (JSM): Das prioridades apresentadas na campanha, o que foi possível concretizar neste primeiro ano e o que está ainda por fazer?
Miguel Caetano (MC): Quando nos apresentámos aos eleitores, assumimos três compromissos claros: Revitalizar, Valorizar e Cuidar. Um ano depois, continuamos fiéis a essas prioridades. Este primeiro ano foi marcado por muito trabalho e reorganização necessária para adaptar a Junta da freguesia de Seia à nova realidade resultante da desagregação da antiga União das Freguesias.
Na revitalização do Centro Histórico, procurámos ter um papel ativo. Criámos oportunidades em parceria com associações e outras entidades, promovendo e apoiando iniciativas no centro da cidade e nas anexas. Assim, contribuímos para trazer pessoas para a rua e dar vida a espaços que queremos cada vez mais dinâmicos.
Este caminho está apenas a começar. Queremos continuar a apostar na cultura, no comércio e na animação dos espaços públicos, criando condições para que o Centro Histórico tenha mais vida e movimento ao longo de todo o ano.
Também demos os primeiros passos na área do Turismo de Experiências, estabelecemos contatos e procurámos identificar novas formas de valorizar o território, a Serra e as nossas aldeias. Temos um património rico, que queremos dar a conhecer através de experiências capazes de criar oportunidades para a economia local.
Na vertente de Cuidar, uma das prioridades mais concretas foi recuperar capacidade operacional. Com a desagregação da antiga União das Freguesias, a nova Freguesia de Seia ficou sem um equipamento essencial para muitos trabalhos de limpeza, manutenção de caminhos e espaços públicos: o trator.
Não nos limitámos a identificar essa dificuldade. Procurámos uma solução e estamos agora em condições de concretizar a aquisição de um novo trator, que será um investimento importante para reforçar a capacidade de intervenção da Junta.
Este equipamento permitirá melhorar a resposta dos nossos trabalhadores, reduzir tempos de execução e libertar recursos para outras necessidades.
Não prometemos resolver todos os problemas num ano. Comprometemo-nos a começar a cumprir e a criar condições para fazer mais. Foi esse o trabalho que desenvolvemos. Hoje, conhecemos melhor o território, os seus desafios e as expectativas da população. O próximo passo é transformar esse conhecimento numa intervenção mais consistente e próxima das pessoas.

JSM: Quais têm sido as principais preocupações no trabalho desenvolvido e a desenvolver? Que apoios e dificuldades encontrou na concretização das prioridades?
MC: A principal dificuldade tem sido responder à dimensão da Freguesia de Seia e às necessidades da população com os meios de que atualmente dispomos.
A Freguesia de Seia tem cerca de 6.000 habitantes e uma área próxima dos 20 km², abrangendo a cidade e várias localidades. Para responder a esta realidade, contamos atualmente com apenas três trabalhadores no quadro: uma administrativa e dois operacionais. Ao longo do ano, procurámos reforçar temporariamente a equipa em articulação com o IEFP. Ainda assim, os meios disponíveis não nos permitem estar em todos os locais com a frequência que gostaríamos.
Quero, por isso, deixar uma palavra de reconhecimento aos nossos trabalhadores. Tenho muito orgulho na dedicação e no sentido de responsabilidade que demonstram todos os dias. Mesmo com recursos limitados, fazem um esforço acrescido para responder às necessidades da Freguesia e da população.
A outra grande dificuldade é de natureza financeira.
A desagregação da antiga União das Freguesias criou uma nova realidade administrativa, mas os recursos financeiros não acompanharam essa mudança na medida necessária. O Contrato Interadministrativo de Delegação de Competências celebrado com o Município tem mais de dez anos, e os valores nele previstos já não refletem as responsabilidades assumidas nem os custos atualmente suportados pela Junta.
Consideramos também que a distribuição do Fundo de Financiamento das Freguesias após a desagregação não teve suficientemente em conta a dimensão, a população e as necessidades específicas da Freguesia de Seia.
Temos apresentado estas preocupações de forma responsável e institucional. Não pedimos privilégios. Pedimos condições adequadas para exercer as competências que nos estão atribuídas e responder às necessidades da população.
Apesar das limitações, temos procurado encontrar alternativas através de uma gestão rigorosa, da criação de parcerias e da procura de apoios. Mas há matérias em que é necessário reforçar os meios financeiros e humanos para que possamos dar uma resposta diferente.
É esse trabalho de reivindicação e negociação que vamos continuar a desenvolver junto do Município e das restantes entidades. No fundo, queremos garantir que os recursos disponíveis estão ajustados às responsabilidades que temos e às necessidades da população.

JSM: Como tem sido a participação da população na vida e nas decisões da freguesia?
MC: A participação dos cidadãos é essencial ao poder local. Para conhecer os problemas no terreno e ouvir quem vive em cada localidade, procurámos aproximar os órgãos da freguesia da população.
Por isso, das três Assembleias de Freguesia realizadas neste primeiro ano, duas decorreram fora da sede da Junta: uma em Vodra e outra na Póvoa Velha.

Foi uma decisão consciente. Queremos que as Assembleias de Freguesia sejam também momentos de proximidade e diálogo com a população. Realizá-las nas localidades permite-nos conhecer melhor os problemas e ouvir quem vive diariamente a realidade de cada terra.
Ao mesmo tempo, demos um passo importante na concretização da Freguesia Digital, uma das medidas que apresentámos na campanha. Através da aplicação GesAutarquia – Freguesia de Seia, os fregueses podem comunicar ocorrências, sinalizar problemas e partilhar preocupações sem terem de se deslocar à sede da Junta.
A participação também passa por estes novos canais. Nem todos têm disponibilidade para estar numa Assembleia ou deslocar-se presencialmente aos serviços, e por isso entendemos que a Junta deve disponibilizar diferentes formas de contacto.
Queremos continuar a fortalecer esta relação ao longo do mandato. A participação cívica não se esgota no momento do voto: constrói-se todos os dias, com diálogo, proximidade e envolvimento na vida da freguesia.
JSM: Que passo gostaria de ver dado na freguesia ao longo do próximo ano?
MC: Se este primeiro ano foi dedicado à organização, ao conhecimento do território e à criação de condições para agir, queremos que o próximo seja marcado por uma maior capacidade de concretização no terreno.
Identificámos as principais necessidades e conhecemos melhor os recursos e as limitações da Junta. Estamos, por isso, em melhores condições para definir prioridades e avançar com intervenções que respondam às necessidades da população.
Uma das áreas onde queremos evoluir é na manutenção e valorização do espaço público, reforçando progressivamente os equipamentos e os meios disponíveis. A aquisição do novo trator será importante neste processo, permitindo aumentar a capacidade operacional e dar uma resposta mais eficiente às necessidades do território.
Queremos também envolver mais a comunidade nas decisões sobre o futuro da freguesia. O Orçamento Jovem Participativo, que apresentámos na campanha, continua entre os nossos objetivos. Pretendemos criar condições para que os jovens apresentem as suas ideias e participem diretamente na escolha de projetos para a comunidade.
Queremos continuar a levar a Junta às diferentes localidades, melhorar os canais digitais e criar mais oportunidades de diálogo com a população. O grande desafio do próximo ano é traduzir a estrutura que construímos em intervenções concretas. Queremos que o trabalho desenvolvido se torne visível no território e faça diferença no dia a dia das pessoas.
JSM: Que iniciativas/atividades estão previstas para os próximos meses?
MC: Nos próximos meses vamos reforçar uma área que consideramos importante para a dinâmica da cidade: a criação de iniciativas através de parcerias.
Recentemente, aprovámos em Assembleia de Freguesia protocolos de colaboração com a Associação Empresarial da Serra da Estrela (AESE) e a Associação Artes e Imagem de Seia (AAIS).
Através destas parcerias, queremos facilitar a realização de pequenas iniciativas por parte de empresários, artistas e agentes culturais, com a colaboração da Junta. A intenção é criar uma programação mais diversificada, apoiar quem tem ideias e contribuir para que a cidade tenha mais atividade ao longo do ano.
Não falamos necessariamente de grandes eventos. Por vezes, pequenas iniciativas, realizadas em diferentes espaços e com a participação da comunidade, são suficientes para criar movimento e dar nova vida à freguesia.
Um exemplo foi o evento recentemente realizado nos Jardins do Palácio da EDP, um dos espaços mais emblemáticos da cidade. Esta iniciativa mostrou o que queremos promover: criar parcerias, dar uso aos espaços e proporcionar novas experiências à população.
A sua realização foi possível graças à parceria entre a E-REDES e a Freguesia de Seia, que permite utilizar aquele espaço para a realização de eventos.
Queremos valorizar e aprofundar esta parceria, dando nova vida a um espaço de grande qualidade que, durante muitos anos, esteve pouco acessível à comunidade.
Queremos uma Seia com mais cultura, criatividade e iniciativa empresarial, onde os espaços existentes sejam aproveitados e vividos pelas pessoas.
JSM: Mensagem que gostaria de deixar a todos os fregueses…

MC: A mensagem que quero deixar é, acima de tudo, de compromisso e confiança.
Este primeiro ano mostrou-nos a dimensão dos desafios, mas confirmou também a capacidade, a iniciativa e a vontade de fazer que existem na nossa comunidade.
Esta equipa continuará a trabalhar todos os dias em benefício da freguesia, procurando responder às necessidades da população e melhorar a sua qualidade de vida com os recursos de que dispõe.
Neste caminho, contamos com o contributo de todos os membros da Assembleia de Freguesia, independentemente das suas posições. Acreditamos que o diálogo e a diversidade de perspetivas ajudam a tomar melhores decisões.
Queremos também manter com o Município uma relação de diálogo e cooperação, dando continuidade ao trabalho conjunto e procurando soluções para as necessidades da freguesia.
Contamos também com as nossas coletividades, associações, empresários e instituições, que desempenham um papel essencial na vida de Seia.
Uma freguesia constrói-se com as pessoas: com a sua participação, a sua iniciativa e a vontade de contribuir para o bem comum. Deixo, por isso, um convite aos fregueses: participem, apresentem sugestões, coloquem questões e ajudem-nos a identificar o que pode ser melhorado. As Assembleias de Freguesia e o Dia de Receção aos Fregueses são oportunidades importantes de contacto, a par dos outros canais presenciais e digitais que queremos continuar a reforçar.
Sabemos que a Junta não tem competências nem recursos para resolver todos os problemas. Mas assumimos o compromisso de procurar respostas, reivindicar os meios necessários e continuar a trabalhar para que a Freguesia de Seia avance.
Este primeiro ano foi de aprendizagem e de construção. Nos próximos, queremos transformar esse trabalho em resultados cada vez mais visíveis na vida da freguesia.

Artigos relacionados:
Dar voz às freguesias – Autárquicas 2025
- * A ordem de publicação das entrevistas é definida pela data de receção de todos os elementos necessários à sua publicação.





