O que era para ser uma manhã de celebração da natureza, desporto e convívio transformou-se num cenário de profunda indignação popular. Este domingo, dia 21 de junho, dia em que a localidade de Várzea de Meruge (Seia) acolhe a tradicional “Caminhada São Tiago”, os participantes e residentes foram confrontados com um cenário desolador: uma nova e severa descarga de efluentes poluentes no Rio Cobral.
Com o início oficial do verão e as temperaturas extremamente elevadas que se fazem sentir na região, o caudal reduzido do rio tornou-se encheu-se de carga poluente. O resultado é visível a olho nu e, acima de tudo, sentido pelo olfato. O odor nauseabundo e a azedo dos efluentes lácteos tornou-se completamente insuportável, estendendo-se por toda a zona ribeirinha e afetando diretamente o percurso dos participantes.
A indignação é muita entre a população e os visitantes. O evento, desenhado para promover as paisagens do concelho de Seia e o turismo ambiental, acabou por colocar em evidência um problema que o Municipio de Seia e a União de Freguesias de Carragosela e Várzea de Meruge têm classificado consecutivamente como um “crime continuado e impune”.







As suspeitas recaem, como em episódios anteriores denunciados pelas freguesias afetadas com as descargas ilegais de indústrias queijeiras que estão localizadas nas localidades circundantes ao Rio Cbral. O calor intenso deste domingo potenciou a proliferação de insetos e transformou o leito do rio Cobral numa massa de água turva e estagnada.
”É uma vergonha recebermos pessoas para uma caminhada de São Tiago, com este calor, e termos de levar com este cheiro nauseabundo. Isto destrói a imagem da nossa terra e mata o rio à vista de toda a gente”, lamentava um dos residentes locais, visivelmente revoltado com a recorrência da situação.
População em protesto
Apesar das centenas de participações já efetuadas ao longo do tempo junto da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e do Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) da GNR, os moradores queixam-se de uma “frustração absoluta” e de uma total incapacidade das autoridades em travar os prevaricadores.
População exige respostas e fim deste crime ambiental
Os moradores e amigos da localidade de Várzea de Meruge estão a unir forças e têm prepado um abaixo-assinado endereçado às mais altas instâncias da República e entidades ambientais. O documento denuncia o estado contínuo de poluição do Rio Cobral, apontando como principal causa as descargas não controladas de queijarias situadas a montante da localidade.
Cansados da falta de respostas eficazes por parte das autoridades competentes, que dizem ter contactado sucessivamente no passado, os subscritores do abaixo-assinado manifestam o seu “profundo descontentamento e indignação”. No documento, são detalhados os graves prejuízos que a contaminação do rio tem causado na região, nomeadamente o impacto na saúde pública em que o “mau cheiro crónico” e a potencial contaminação da água representam, segundo o documento, um risco sanitário direto para as populações que vivem nas margens do rio.
O abaixo-assinado alerta, também, para a destruição do ecossistema fluvial, assistindo-se à “morte da fauna e flora locais” e à degradação de uma linha de água que “outrora era limpa”.
O documento refere, igualmente, que a água do Rio Cobral, descrita como “essencial para o abeberamento do gado (ovelhas) e para a rega de culturas agrícolas” – atividades que são pilares económicos para a subsistência local – é agora considerada “imprópria para consumo”, ameaçando o sustento de quem vive da terra.
O documento é endereçado a uma longa lista de destinatários, incluindo o Presidente da República, o Presidente da Assembleia da República, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), a Inspeção-Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território (IGAMAOT), a Direção Geral de Alimentação e Veterinária, a Câmara Municipal de Seia e a União de Freguesias local.
Face a este cenário, os signatários exigem que as entidades competentes tomem “medidas urgentes e imediatas”. As reivindicações são claras: identificar e sancionar severamente os focos poluidores, monitorizar e fiscalizar de forma contínua a qualidade da água do Rio Cobral e proceder à sua reabilitação e despoluição efetiva.
O documento faz, ainda, um apelo ao cumprimento da Constituição da República Portuguesa, especificamente o Artigo 66º, que garante o direito constitucional a um ambiente de vida humano, sadio e ecologicamente equilibrado. É ainda deixada uma nota importante: a população não se opõe à laboração das unidades fabris, apenas exige que estas “continuem a trabalhar dentro dos parâmetros permitidos”.
Num dia em que Várzea de Meruge deveria estar em festa com o desporto e a gastronomia, o verdadeiro protagonista acabou por ser o cheiro e o crime ambiental. A comunidade exige medidas urgentes e pesadas — que passem pela suspensão de licenças de laboração — para que o Rio Cobral deixe de ser um esgoto a céu aberto em pleno coração da Serra da Estrela.



