Por: Ercília Rute Coimbra dos Santos.
Mestre em Enfermagem de Saúde Infantil e Pediátrica

Celebrar o Dia Internacional do Enfermeiro não deve ser apenas um gesto simbólico. Deve ser um momento de reflexão coletiva sobre o estado de uma profissão fundamental para a nossa sociedade. Durante anos, especialmente em períodos críticos como a pandemia e, mais recentemente, com a catástrofe climática que assolou a região centro, os enfermeiros estiveram na linha da frente. Muitas vezes de forma voluntária, garantindo cuidados de saúde, conforto e dignidade a quem mais necessitava. Importa questionar: mas quem cuida de quem cuida?
A profissão de enfermagem, apesar da sua importância incontestável, continua a enfrentar desafios estruturais que não podem ser ignorados. A sobrecarga de trabalho, a escassez de profissionais, os horários exigentes e o desgaste emocional infelizmente são uma realidade persistente. A isto soma-se a falta de reconhecimento social e a persistente desvalorização salarial, criando um cenário que fragiliza não só os enfermeiros e as suas famílias, mas também a qualidade dos cuidados prestados.
É importante analisar as propostas de revisão da carreira dos enfermeiros e dos regimes de trabalho que estão em discussão. Medidas que sugerem maior flexibilidade dos horários, o prolongamento dos períodos de trabalho e a ausência de compensação justa são vistas pelos enfermeiros como mais um fator de desgaste. Não como uma solução. Num contexto de escassez de enfermeiros, insistir em políticas que agravam as condições de trabalho só contribui para agravar o descontentamento dos enfermeiros, em nada contribuindo para a valorização efetiva da carreira e comprometendo não só a retenção destes profissionais, mas também a segurança e qualidade dos cuidados prestados.
Cuidar destes profissionais começa pelo reconhecimento de que o seu bem-estar físico e emocional é uma condição fundamental para o bom funcionamento do sistema de saúde. Não estamos apenas a falar de justiça laboral, mas de uma questão de saúde pública. Profissionais exaustos, desmotivados ou em burnout dificilmente conseguem prestar cuidados de excelência por maior que seja sua vocação e paixão à profissão.
Urge investir em condições de trabalho dignas. Desde a contratação de mais enfermeiros quer para os cuidados de saúde primários quer para os cuidados hospitalares, a redução das cargas horárias excessivas e a garantia de períodos de descanso adequados promovendo também a conciliação da vida profissional com a vida familiar. Isto é apenas o mínimo!
A progressão na carreira continua a ser um dos principais pontos críticos. O investimento dos enfermeiros na sua formação e desenvolvimento profissional raramente se traduz em reconhecimento e progressão real na carreira.
Isto contribui para a emigração não só de recém-licenciados como também de profissionais experientes, altamente qualificados, que encontram no estrangeiro o reconhecimento que não encontram em Portugal. Em 2023, cerca de 1.600 enfermeiros emigraram e, apesar de uma ligeira descida, continuam a registar-se mais de 1.300 pedidos anuais para emigrar. Cerca de um terço dos recém-licenciados opta por sair do país e estima-se que mais de 30 mil enfermeiros portugueses estejam a trabalhar no estrangeiro. Paralelamente, cresce o abandono da profissão, agravando uma carência superior a 14 mil enfermeiros no Serviço Nacional de Saúde. Este fenómeno representa uma perda de talento e um agravamento da pressão sobre quem fica.
A nossa sociedade tem uma palavra a dizer. O reconhecimento e valorização dos enfermeiros não deve apenas acontecer em momentos críticos muito menos com aplausos. É crucial um reconhecimento e valorização contínuos, que se traduza em políticas públicas eficazes e consistentes.
Cuidar dos enfermeiros é, no fundo, cuidar de todos os portugueses. Um sistema de saúde robusto e sustentável é construído com profissionais valorizados, respeitados e apoiados. Ignorar isto é comprometer o presente e o futuro dos cuidados de saúde em Portugal.
Neste Dia Internacional do Enfermeiro, mais do que agradecer, importa agir. Porque apoiar quem cuida é garantir que haverá sempre alguém preparado para cuidar de nós.



