Um país a discutir sem saber o quê

O chamado “pacote laboral” caiu, mas o que verdadeiramente ficou exposto não foi o conteúdo das propostas. Foi a pobreza do debate público em torno delas.

Bastava aproximar-se de qualquer manifestação contra para reconhecer o padrão: discursos repetidos até à exaustão, palavras de ordem recicladas, uma autêntica “cassete riscada” afinada pelas estruturas sindicais. Perguntar a muitos manifestantes o que mudaria concretamente com a aprovação do pacote era, na maioria dos casos, obter respostas vagas, circulares ou inexistentes. A convicção estava lá, firme e sonora, por vezes emotiva, mas desligada de um conhecimento real das propostas. Protestava-se mais por alinhamento do que por compreensão.

Do lado oposto, a diferença foi sobretudo de forma, não de substância. Também aí havia certezas, mas ancoradas em generalidades de competitividade, flexibilidade, modernização. Conceitos amplos, quase incontestáveis, mas raramente traduzidos em explicações concretas sobre o impacto nas relações laborais, nos salários ou na segurança dos trabalhadores. Defendia-se o pacote como quem defende uma ideia abstrata de progresso, sem descer ao detalhe que realmente importa.

Mas é no papel da comunicação social que o retrato se torna mais preocupante. O que deveria ser um espaço de esclarecimento transformou-se, progressivamente, num palco de opinião rápida e pouco fundamentada. Noticiários e debates deixaram de ser dominados por jornalistas focados em explicar, contextualizar e questionar, passando a ser ocupados por comentadores que, na prática, escolhem um lado e o defendem como se estivessem numa bancada política.

O problema não é existirem opiniões, isso é saudável. O problema é quando a opinião substitui a informação. Quando se comenta antes de se explicar. Quando se simplifica em excesso um tema complexo para caber num soundbite. Quando se convidam sempre os mesmos rostos, com posições previsíveis, que pouco acrescentam além de reforçar trincheiras.

Faltou jornalismo no sentido mais exigente do termo: ler documentos, dissecar propostas, confrontar especialistas, traduzir linguagem técnica, identificar ganhos e riscos concretos. Em vez disso, assistiu-se a um círculo vicioso de reação e contrarreação, onde o ruído dos extremos alimenta audiências, mas empobrece o debate.

O resultado foi um país a discutir sem saber exatamente o quê. Um espaço público onde se fala muito, mas se compreende pouco. Onde a indignação circula mais depressa do que a informação. E onde decisões relevantes acabam por ser tomadas num ambiente de superficialidade coletiva.

E quando assim é, quando o conteúdo desaparece e sobra apenas o ruído, tudo se torna possível, até aquilo que, há poucos anos, pareceria impensável.

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