Luís Camelo: o percurso do senense e consultor de 30 anos que lidera a Forensic & Integrity Services da EY Angola

“Sair não é abandonar. As raízes não se perdem com a distância. O mundo é hoje global e há valor tanto em ficar como em ir. O importante é fazer o caminho com honestidade, trabalho e coragem, sem nunca esquecer de onde viemos.”

Em entrevista ao JSM, Luís Camelo recorda o salto de Seia para Lisboa, o impacto do seu trabalho no combate à fraude e corrupção e o eterno apelo das raízes senenses, para onde espera um dia voltar com o mesmo entusiasmo com que partiu.

Natural de Seia, Luís Camelo tem 30, é economista e lidera a área de Forensic & Integrity Services da EY Angola. Com um percurso académico de elite e um caminho profissional de grande relevo marcado pelo combate à fraude e corrupção, Luís Camelo traçou um caminho de rigor desde cedo. Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia e Gestão, Universidade de Lisboa (ISEG) e pós-graduado em Gestão Financeira pelo Instituto Superior de Gestão, Universidade Lusófona (ISG), o jovem consultor percebeu rapidamente que o seu futuro passava por áreas onde a transparência é a palavra de ordem. Especializou-se em Anti-Corrupção pela International Compliance Association, em parceria com a Universidade de Manchester, dotando-se das ferramentas necessárias para enfrentar os desafios mais complexos do setor financeiro.

Com uma década de experiência profissional — sete dos quais ligados ao mercado angolano, onde reside há cinco anos — Luís é hoje o responsável pela equipa de Forensic & Integrity Services da EY Angola. Apesar de ter apenas 30 anos, o seu currículo já é enorme: liderou auditorias forenses em bancos portugueses e angolanos, desvendando esquemas de apropriação indevida de fundos e fraudes sofisticadas em sistemas core bancários que resultaram em perdas financeiras avultadas.

O seu trabalho vai muito além da análise de números. O consultor e economista tem sido uma peça fundamental em instituições em Angola, colaborando regularmente com o Governo, instituições públicas e privadas em Angola, seja a investigar denúncias de corrupção ou fraude, ou a ministrar formação sobre temas como prevenção de branqueamento de capitais, o objetivo é sempre o mesmo: implementar uma cultura de compliance onde as empresas operem não apenas pelo lucro, mas pela ética.

Apesar da posição de destaque em Luanda, Luís Camelo mantém uma ligação umbilical a Seia. Para o consultor, os valores de responsabilidade e trabalho que os pais e o irmão lhe transmitiram são o verdadeiro alicerce da sua integridade profissional.

Para este jovem senense, o caminho vai-se percorrendo sempre assente em valores que levou de Seia: a honestidade e a lealdade transmitidas sempre pelos seus pais, características que o acompanham sempre e o tornam num emigrante de sucesso.

Lisboa trouxe-me oportunidades, diversidade, exigência e um ritmo completamente diferente daquele a que estava habituado. Mais tarde, já na EY Portugal, o contacto com projetos internacionais e, em particular, com Angola, surgiu de forma muito natural. Inicialmente eram projetos pontuais, algo bastante comum numa consultora global.

O “salto” para Angola foi uma evolução natural desse percurso, quando surgiu o desafio de desenvolver localmente uma área que até então não existia de forma estruturada (2 dias antes de Portugal ser fechado pelo COVID).

Luís Camelo (LC): Angola iniciou, a partir de 2016, um processo claro de reforço do combate à corrupção e de promoção da ética e da integridade, o que se alinhava totalmente com a área onde eu me estava a especializar — Forensic & Integrity Services.

Por outro lado, Angola tem uma presença muito relevante de empresas internacionais, sobretudo no sector petrolífero, que operam com standards muito exigentes de compliance, ética e anticorrupção. Empresas como a BP, ENI, Chevron, Equinor, entre outras, estão sujeitas a legislações internacionais muito rigorosas, mesmo quando operam fora dos seus países de origem.

Isso cria, naturalmente, uma necessidade (e pressão) também junto das empresas locais, que se relacionam com essas entidades e para se relacionarem têm de cumprir mais do que os chamados “mínimos olímpicos” nestas matérias. O mercado existia — e continua a existir — e a minha experiência em diferentes tipos de projetos deu-me a versatilidade necessária para responder a desafios que vão além das competências forenses e de compliance.

Luís Camelo (LC): Em primeiro lugar, a educação que recebi em casa. Os meus pais e o meu irmão transmitiram-me valores muito fortes de ética, integridade, responsabilidade e trabalho. Esses valores são absolutamente centrais no que faço hoje.

Depois, os valores da amizade, da lealdade e das relações duradouras. Curiosamente, os meus círculos de amizade mais importantes acompanham-me desde Seia, passaram por Lisboa e estendem-se hoje a Luanda. Isso diz muito sobre a forma como cresci e sobre a importância das raízes.

Luís Camelo (LC): É uma grande responsabilidade e, acima de tudo, um exercício constante de equilíbrio. Trabalhar em integridade e combate à fraude não é apontar o dedo nem assumir uma posição moralista; é ajudar organizações a protegerem-se, a crescerem de forma sustentável e a alinharem-se com as melhores práticas internacionais.

Angola é um mercado exigente, complexo e muito rápido, mas também é um mercado com enorme vontade de evoluir. O meu papel — e o da minha equipa — tem sido o de criar confiança, trabalhar lado a lado com os clientes e mostrar que investir em ética, compliance e controlo não é um custo, mas sim um fator crítico de competitividade e reputação.

Luís Camelo (LC): Determinados trabalhos têm, naturalmente, um grau de confidencialidade muito elevado. É difícil escolher apenas um, mas diria que as auditorias forenses são sempre especialmente desafiantes.

São projetos intensos, porque não lidamos apenas com números e documentos — lidamos com pessoas, e por vezes com o pior lado delas. Curiosamente, quando se descobre efetivamente uma fraude, há um certo encerramento natural do processo. O dilema maior surge quando não se encontra nada: “não existe ou não estou a conseguir detetar?”. Saber quando insistir e quando parar é um dos maiores desafios da profissão.

Luís Camelo (LC): A evolução é real e mensurável. Basta olhar para os dados mais recentes da Transparência Internacional. Angola é hoje o país da África Subsaariana que mais evoluiu positivamente desde 2015 no Índice de Perceção da Corrupção.

Têm sido feitos investimentos relevantes, e também se verifica o reforço de estruturas internas de controlo nas empresas, mas há ainda um caminho importante a percorrer, mas a perceção hoje é muito diferente daquela que existia há 10 ou 15 anos.

E sim, acredito genuinamente que o trabalho que fazemos, em conjunto com o executivo angolano, clientes, reguladores e outras entidades, está a contribuir para mudar a forma como se faz negócio no país.

Luís Camelo (LC): Como em qualquer processo de emigração, existe sempre uma tendência inicial para viver numa “bolha”. No meu caso, vim com três colegas/amigos, o que facilitou muito essa fase. Mais tarde conheci a minha esposa, que agora vive e trabalha em Luanda.

Luanda trouxe-me desafios profissionais diferentes e mais adaptados ao que eu gosto e uma maior estabilidade financeira. Mas, acima de tudo, trouxe-me a sensação de impacto. Sinto que aqui os projetos têm um valor acrescentado muito claro e consequências reais na vida das pessoas e das organizações, algo que em Lisboa, muitas vezes, sentia de forma mais tímida.

Luís Camelo (LC): Vou regularmente a Portugal e mantenho uma ligação muito próxima com a família e os amigos. A maioria vive em Lisboa e em Seia, o que facilita bastante.

Perguntam-me sobretudo se gosto de viver em Luanda — ao que respondo sempre que sim — e por quanto tempo pretendo ficar… A verdade é que esta segunda pergunta não sei mesmo responder, sei que por algum ainda.

Sendo sincero, não senti grandes dificuldades pessoais, as profissionais foram chegar a um mercado novo onde não conhecia ninguém, mas o facto de estar numa empresa como a EY ajuda muito – as empresas gostam e querem muito falar connosco, hoje em dia, naturalmente, tenho uma rede profissional completamente diferente de quando cheguei.

Resumiria dizendo que sabia ao que vinha e abracei o desafio de forma muito consciente. Procurei criar rotinas, encontrar hobbies — o padel foi fundamental — e hoje tenho uma rede muito sólida de amigos em Luanda.

Luís Camelo (LC): A verdade? A casa… Ligo sempre aos meus pais e peço-lhes para me fazerem alguma comida que me esteja a apetecer naquele momento. A minha mãe é uma cozinheira extraordinária em comida de conforto e doces, e o meu pai em petiscos e marisco. Gosto muito de comer — é um ritual quase sagrado.

Luís Camelo (LC): Estou a fazer o meu caminho, com experiências muito relevantes e projetos interessantes. Diria que o regresso será quando for, e quando acontecer, diria que 60% coração e 40% qualidade de vida. Valorizo muito o equilíbrio, mas ainda sou novo e acho que estou na altura de continuar a experimentar coisas novas e diferentes… portanto como dizia o Jorge Palma “enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar”!

Luís Camelo (LC): É preciso uma estratégia clara e consistente no tempo. Criar condições para empresas se instalarem passa por infraestruturas, incentivos, ligações ao ensino superior e, sobretudo, por mostrar que o interior pode oferecer qualidade de vida aliada a projetos profissionais interessantes.

Também é fundamental envolver quem saiu e criar pontes com quem está fora. Acho que há muito talento sénior com vontade de contribuir, desde que existam projetos estruturados e com visão.

Luís Camelo (LC): O trabalho que faço exige muita proximidade com as organizações, confiança e contacto frequente com equipas de gestão e operações. Hoje, de forma prática, estes serviços continuam mais concentrados nos grandes centros, onde existe maior densidade empresarial e estruturas mais complexas. Ainda assim, sinto que essa realidade está a mudar, de forma gradual, e que o interior começa a ganhar condições que antes não existiam.

Há cada vez mais consciência da importância de boas práticas de governação, controlo e ética, mesmo em empresas de menor dimensão. Se continuarem a ser criadas condições — desde conectividade, talento qualificado e projetos ambiciosos — não tenho dúvidas de que, a médio prazo, o interior poderá acolher este tipo de serviços com naturalidade. Pessoas, capacidade de trabalho e valores não faltam e nunca faltaram; agora é também importante surgir o contexto certo.

Luís Camelo (LC): Sem dúvida que Seia estaria no topo da lista. É a minha terra, faz parte da minha identidade e seria um enorme orgulho poder liderar um projeto profissional relevante a partir da minha cidade natal. A empresa onde estou tem vindo a apostar no interior —temos um escritório em Viseu — o que mostra que existe uma aposta real em descentralizar e em valorizar o talento fora dos grandes centros urbanos. Muitos dos nossos líderes vêm também do interior, o que prova que a origem nunca foi um limite.

Hoje, para mim, Seia representa sobretudo descanso, raízes e qualidade de vida, enquanto o meu percurso profissional tem sido feito num ambiente de grande pressão e intensidade. Se um dia essas duas realidades se cruzarem, acredito que o regresso faria sentido — e seria feito com enorme entusiasmo.

Luís Camelo (LC): Sair não é abandonar. As raízes não se perdem com a distância. O mundo é hoje global e há valor tanto em ficar como em ir.

O importante é fazer o caminho com honestidade, trabalho e coragem, sem nunca esquecer de onde viemos.

» Onde comprar o Jornal de Santa Marinha «

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Comemorações do 25 de Abril em Santa Marinha

A Freguesia de Santa Marinha assinala as cinco décadas das primeiras eleições autárquicas democráticas com uma jornada de homenagem à participação cívica e à...

Centro de Recolha Oficial de Seia triplica esterilizações em dois anos

O Município de Seia tem vindo a registar uma evolução significativa na atividade do Centro de Recolha Oficial (CRO), com destaque para o aumento...

Seia – Dois detidos por incêndio rural

O Comando Territorial da Guarda, através do Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) de Gouveia, deteve no dia de ontem, 15...

Seia acolhe amanhã e sexta-feira I Congresso do Núcleo de Enfermagem de Reabilitação da ULS Guarda

JSM falou com a Coordenadora do grupo dinamizador deste Núcleo, Cristina Cunha. https://youtu.be/a9ODZN6DQiw?is=wStUHbxaNgoWhHt3 O Núcleo de Enfermagem de Reabilitação da ULS Guarda promove, nos dias de...

Pinhanços recebe Encontro de Irmandades no próximo dia 26 de abril

A localidade de Pinhanços (Seia) prepara-se para viver um dia de profunda fé e convívio comunitário no próximo domingo, 26 de abril. O Encontro...

Oliveira do Hospital reforça apoio aos estudantes do Ensino Superior com atribuição de bolsas de estudo

O Município de Oliveira do Hospital volta a reforçar o seu compromisso com a educação e a formação dos jovens do concelho, através da...

ULS da Guarda – Projeto Atelier do meu Parto

O Serviço de Obstetrícia do Hospital da Guarda, no âmbito do seu projeto “Acolher para Nascer”, está a promover uma nova atividade intitulada “Atelier...

Intermarché de São Romão reforça proximidade com abertura de posto de combustível

O Intermarché de São Romão deu mais um passo na sua estratégia de expansão e apoio à comunidade com a inauguração oficial do seu...