Natural de Seia, onde deu os primeiros passos no desporto antes de rumar ao topo do voleibol nacional e internacional, Nuno Abrantes construiu um percurso marcado pela coragem e pela resiliência. Depois de deixar a carreira em Engenharia Civil para seguir a paixão pelas quadras, o técnico senense soma no currículo troféus como a Supertaça de Portugal pela AJ Fonte do Bastardo e experiências em ligas exigentes como a Roménia. Atualmente ao leme dos espanhóis do Pamesa Teruel Voleibol, Nuno Abrantes recorda com orgulho as raízes na Serra da Estrela, a importância dos valores familiares e deixa um conselho aos jovens da sua terra natal: “O sonho comanda a vida… por isso, continuar sempre a sonhar”.






Jornal de Santa Marinha (JSM): Nuno, a sua história começa em Seia. Que memórias guarda dos seus primeiros passos no desporto na terra que o viu nascer e como é que Seia ajudou a moldar o homem e o treinador que é hoje? Que nomes de destaque se encontram no seu percurso profissional?
Nuno Abrantes (NA): Desde cedo, a atividade física e o desporto, eram uma constante na minha vida e que me despertavam sonhos e ilusões. Ténis, basquetebol – para o qual tinha um talento muito mais natural, mas que com o fecho da modalidade em Seia, aliado ao facto de ter amigos que estavam nas equipas de voleibol do SenaClube me conduziram aos 11 anos a essa nova paixão. Memórias desportivas são inúmeras e muito positivas, mas acima de tudo foi-me permitido sentir um rol de sensações, vivenciar o desporto, o conceito de equipa/família, o respeito pelo adversário e passar por todos os estatutos dentro de uma modalidade coletiva que sem dúvida contribuíram para a minha confiança e uma construção positiva da minha autoimagem numa fase difícil que é adolescência.
Seia para mim é família, são os amigos, é a imponência da nossa serra 365 dias do ano e é o berço de uma paixão… acho que todo este envolvimento me deu equilíbrio, resiliência, valores e princípios.
“Sou senense com muito orgulho (…), é sinal que o que vivemos nos ficou bem enraizado, nos marcou positivamente e queremos passar o testemunho.”
Tenho, realmente, a destacar algumas pessoas que me marcaram no percurso desportivo, tais como o professor Luís Pinto, pelo papel nos primeiros anos da modalidade e por ser uma figura incontornável do voleibol em Seia; o professor Rui Costa na minha passagem pelo I. S. Técnico, em Lisboa, pela visão do treino e do jogo muito avançada para a época e, mais tarde, quando aposto efetivamente em tentar seguir uma carreira de treinador, o professor António Guerra, quando o coadjuvei nas seleções nacionais jovens pela personalidade, forma de estar e pela sua multidisciplinariedade de conhecimento com implicações diretas e indiretas à modalidade.
À parte estes treinadores, uma grande referência ao longo do meu percurso enquanto jogador e treinador foi o André Lopes, por ter vivido o que eu, como jogador, só consegui sonhar, e por ser alguém que sempre manteve a sua identidade e forma de estar, independentemente do sucesso alcançado.
JSM: Como é ver a sua terra natal a seguir a sua carreira com tanto orgulho?
NA: Sou senense com muito orgulho e sentir essa atenção é uma sensação muito boa, sem dúvida. Mais por sentir que a chama do voleibol ainda é algo que reside na cidade e que há pessoas que gostariam de, também, ter tentado ou estão a tentar dar continuidade a esta nossa paixão, algumas noutros locais, mas é sinal que o que vivemos nos ficou bem enraizado, nos marcou positivamente e, de alguma forma, queremos passar o testemunho e que outros tenham vivências similares.
JSM: Com uma agenda tão preenchida no voleibol de alta competição, sempre que consegue voltar a Seia, o que é que não prescinde de fazer para “recarregar baterias”?
NA: Estar com os amigos se as agendas se conciliarem, pois a maioria também acabou por sair de Seia. Um passeio pela Serra e, quando consigo estar mais tempo, ver um treino de voleibol. Mas vir a Seia é sempre algo que me dá muito gosto e revitaliza!
JSM: Atrás de um percurso desportivo exigente, há quase sempre uma base forte. Qual foi o papel dos seus pais e da sua família no início do seu sonho no voleibol? Houve a preocupação natural quanto aos desafios de uma carreira no desporto?
NA: Sim, sem dúvida. É uma história de altos e baixos, mas que acabou bem… A primeira vez que falei em casa em ir para área de Desporto foi após o 9º ano, conversa curta, ideia rejeitada e como também o que eu gostava era de jogar voleibol, a vida seguiu, sem grande frustração. Fui para Ciências, mais tarde licenciei-me em Engenharia Civil e exerci Direção de Obra durante 5 anos e, paralelamente, ia jogando. Por esta altura decidi mudar a minha vida por diversos fatores e acho que o viabilizar a minha mudança se deveu a independência financeira e a não ter nenhuma responsabilidade financeira ou familiar na altura. Decidi estudar Ciências do Desporto e abandonei completamente a minha ligação à Engenharia. Compreensivelmente os meus pais não ficaram propriamente radiantes, pelo contrário muito céticos, mas nunca me faltaram com ajuda necessária. Confesso que, de facto, demorou bastante tempo a acreditarem no meu sonho. O facto de ser uma modalidade amadora, remuneração baixa e com pouca gente a viver exclusivamente da modalidade, acho que era a maior preocupação para a minha aventura no desconhecido.
“Vir a Seia é sempre algo que me dá muito gosto e revitaliza!”
Tive sim um grande apoio do meu irmão e dos meus amigos, de pessoas que se cruzaram comigo nesta fase da vida e de há 10 anos para cá um grande apoio e incentivo por parte da minha esposa.
Agora já toda a família vivencia comigo as minhas alegrias e tristezas e seguem quase diariamente o meu percurso.
JSM: Do continente para os Açores, Roménia, e agora, para Espanha — como é que a família vive e gere esta distância geográfica no dia a dia?
NA: Não é nada fácil e confesso que não sei ainda qual a melhor forma de o fazer. Ainda estou à procura do melhor equilíbrio e espero, este ano, estando mais perto, conseguir atingi-lo.
Nos Açores, na 2ª época com o nascimento do meu filho, foi um ano muito duro para conjugar a parte pessoal e profissional, apesar de a minha família ter estado maioritariamente comigo.
Voltei ao continente no ano seguinte estando a trabalhar a 30min de casa, na AASM.
Na Roménia, no ano passado, foi excecionalmente duro para a minha família que ficou em Portugal e não consegui equilibrar as coisas (viajei em agosto e só voltámos a estar juntos no Natal) ao ponto de não perspetivar continuar no estrangeiro… Pensando que no máximo só se houvesse alguma oportunidade em Espanha.
A questão é que, mesmo na era da tecnologia, o contacto pessoal, o apoio e suporte necessário à família não é suprimido mesmo tendo uma boa rede de apoio entre família e amigos.
Em Espanha, sendo mais regular a nossa proximidade, a expectativa é que, de facto, as coisas sejam mais fáceis e equilibradas.
JSM: Sendo licenciado em Ciências do Desporto e especialista na modalidade, como foi a sua preparação até chegar ao patamar das grandes equipas?
NA: A minha preparação começou por apostar numa base mais sólida de conhecimento através da formação académica (licenciatura e cursos de treinador). O ter jogado voleibol reconheço que é uma mais-valia, não sendo decisivo. Após isso, é a busca de um alargar quase constante de conhecimento, de experiências com formações. Estar rodeado de pessoas com quem pude aprender, outras com quem há partilhas e um questionamento recíproco. Capacidade de autoanálise, reflexiva e critica dos processos de treino/jogo é muito importante, principalmente quanto estás mais sozinho.
“Seia para mim é família, são os amigos, é a imponência da nossa serra 365 dias do ano e é o berço de uma paixão… deu-me equilíbrio, resiliência, valores e princípios.”
Expores-te a desafios e a contextos que não tens a certeza de estares preparado é um risco, mas que, pontualmente, tens de o fazer. Eu acabei por correr esse risco quando aceitei o lugar no meu 1º ano a dirigir a equipa sénior do Castelo da Maia. Felizmente correu bem.
Perceber as nossas limitações e as nossas valências é importante para trabalhares nelas e te rodeares de pessoas que te possam complementar ou que se coadunem com a tua forma de estar e ver as coisas.
Depois, além do conhecimento, tens a tua personalidade e o teu carácter que são menos trabalháveis mas que pode levar a que oportunidades surjam. Dominar o Inglês, e conhecimentos de mais idiomas ajuda na relação com jogadores estrangeiros e ajuda a que possas dar o salto para outras ligas.
JSM. A sua passagem pela AJ Fonte do Bastardo foi um marco importante na sua carreira, culminando com a conquista da Supertaça de Portugal. Como descreve a experiência de viver e treinar na Ilha Terceira?
NA: Foi uma experiência fantástica pelo vivenciado e pela aprendizagem. Foi muito bonito conseguir dar ao clube o título nacional que lhes faltava e ter conseguido a melhor prestação europeia do clube. As pessoas da ilha tinham uma forte ligação ao clube e à equipa, além de muito disponíveis e acolhedoras para o fosse preciso. Um sentido de pertença muito grande enquanto estive lá e guardo com carinho o tempo passado lá com a minha família e as pessoas.
JSM: Treinar nos Açores exige uma logística muito própria (viagens constantes, ritmo competitivo intenso). Que lições e aprendizagens mais valiosas trouxe dessa etapa para a sua carreira?
NA: Sim de facto, nomeadamente o sentido de gestão necessária das cargas de treino /viagens e contratempos associados e uma boa condição física prévia e recuperação dos atletas. Acho que essa parte correu muito bem. Houve alturas que, durante a época, foi quase recuperar para voltar a jogar, mas isso foram bons problemas por estarmos a ir longe nas competições em que estávamos envolvidos. De resto, acho que me fez estar mais atento ao tipo de jogador que é a melhor opção para determinados contextos, na hora de contratar.
“Compreensivelmente os meus pais não ficaram propriamente radiantes, pelo contrário muito céticos (…). O facto de ser uma modalidade amadora e com pouca gente a viver exclusivamente dela era a maior preocupação para a minha aventura no desconhecido.”
JSM: Treinar no voleibol espanhol é um salto exigente. Como tem sido a adaptação ao campeonato e à cultura desportiva em Espanha?
NA: Sim, sim tendo em conta o nível médio do campeonato e o clube em questão é um salto exigente! Foi uma oportunidade que surgiu em fevereiro quando ainda não estava a pensar em nada (já tinha decidido não continuar na Roménia, apesar do nível alto da liga). Por acaso um agente desportivo ligou-me a perguntar se podia indicar o meu nome ao Pamesa Teruel Voleibol e, na altura, eu disse que era melhor não, que o meu agente tinha bons contactos em Espanha… O certo é que ele acabou por me referenciar ao clube e, dois dias depois, tinha assinado com tudo clarificado entre agentes e clube.
Tem sido muito fácil a adaptação à realidade cultural já que Portugal e Espanha são muito similares. Desportivamente, apesar do estudo prévio de conhecer a liga, a maioria das equipas sofreu muitas alterações. Por isso, ainda estou a conhecer os rivais à medida que o campeonato vai começando, mas desde cedo percebi que vai ser uma liga muito disputada e com surpresas a cada fim de semana!
O clube é fantástico, um histórico na modalidade, com muita gente que se dedica ao clube e apaixonada pelo voleibol. Há uma grande preocupação de todos para que atletas e staff estejam bem e não nos falte nada. Ótimas condições de trabalho para voltar, gradualmente, a levar o clube aos patamares de outrora do pré-COVID. Este ano conseguimos reunir um grupo de trabalho experiente que, acredito, nos pode ajudar a estar nos momentos das decisões, apesar de não ser o objetivo imediato para esta época ganhar títulos.
“Troquei a Engenharia pela minha paixão e Seia deu-me as bases para vencer”
JSM: Quais são as maiores diferenças que nota entre o voleibol português e o espanhol em termos de estrutura, investimento e competitividade?
NA: Os clubes têm melhores condições físicas e estão melhor estruturados apesar de não estarem diretamente associados a clubes de futebol (Sporting e Benfica vivem uma realidade à parte que acredito que em Espanha nenhum clube tem). O apoio financeiro estatal/regional/municipal é maior derivado da melhor política desportiva que existe em Espanha. A visibilidade que se tenta dar à modalidade é superior, com jogos da Superliga 1 e 2 a serem todos transmitidos online e relatados. Mesmo na formação isso acontece.
Toda a conjetura traz um maior equilíbrio ao campeonato pois, excetuando uma equipa que está acima, as diferenças orçamentais conseguem-se esbater mais, pois as equipas com menor orçamento têm orçamento suficiente para terem jogadores de qualidade.


JSM: Que conselho deixa aos jovens de Seia que sonham fazer carreira no desporto e que mensagem gostaria de deixar a todos os leitores do Jornal de Seia que continuam a torcer pelo seu sucesso?
NA:Não é uma carreira fácil ou linear de progressão. Requer resiliência, paciência e conseguir retirar aprendizagem de todos os contextos em que nos vemos envolvidos, independentemente do sucesso associado. Dessa forma estaremos sempre mais preparados para o que nos possa surgir no futuro.
Os teus valores e princípios, bem como a coerência na tua forma de ser e de estar, podem ajudar — especialmente quando estamos a começar. Além disso, o facto de sermos humildes (sem que isso signifique falta de confiança!) parece-me um aspeto muito importante. Estar aberto à ideia de que podemos aprender com todos é algo muito positivo e construtivo, pois essa é, de facto, a realidade.
E, às vezes, o que parece um passo atrás na progressão da carreira pode não o ser.”
Costumo dizer que há sempre um lado positivo em tudo o que nos acontece. Acreditar e ter objetivos e um rumo em linhas gerais parece-me interessante sendo aconselhável ter flexibilidade nos timings em que as coisas acontecem. Já dizia António Gedeão “o sonho comanda a vida”… por isso continuar sempre a sonhar…!





