Por António Ferrão – 04/26/2026
“Viajar é fatal para o preconceito, a intolerância e a estreiteza de espírito.” — escreveu Mark Twain em The Innocents Abroad (Os Inocentes no Estrangeiro).
Há lugares onde essa ideia ganha uma dimensão quase física. A província de Gansu, no interior da China, é um deles — não pela evidência com que se apresenta ao mundo, mas pelo peso histórico que carrega e pela forma discreta como moldou, ao longo de séculos, a ligação entre civilizações.


Para muitos, não passa de uma extensão remota no interior da China, longe dos grandes centros urbanos e dos circuitos turísticos mais óbvios. Mas para quem olha com alguma profundidade, Gansu revela-se como um dos eixos estruturantes da antiga Rota da Seda — um corredor estratégico que, durante séculos, ligou civilizações e moldou o mundo como o conhecemos.
Mais do que uma simples rota comercial, a Rota da Seda foi uma verdadeira ponte entre Oriente e Ocidente. Por aqui circularam seda, especiarias e metais preciosos, mas também ideias, religiões, tecnologias e culturas. Mercadores, exércitos, monges e exploradores atravessaram estes caminhos, deixando marcas profundas num território que se tornou ponto de encontro entre mundos distintos.
Importa perceber que a chamada Rota da Seda nunca foi uma estrada única. Tratava-se de uma vasta rede de rotas que começou a ganhar forma por volta do século II a.C., durante a Dinastia Han, e que permaneceu ativa durante mais de mil anos. No seu auge, ligava a antiga capital chinesa Chang’an (atual Xi’an) ao Mediterrâneo, atravessando desertos, cadeias montanhosas e impérios inteiros — da Ásia Central ao Médio Oriente e à Europa.
Neste sistema, Gansu assumia um papel absolutamente crítico. Funcionava como um verdadeiro funil geográfico entre o deserto de Gobi e o planalto tibetano — um ponto de passagem obrigatório onde o controlo do território significava controlo sobre o comércio… e, muitas vezes, sobre o equilíbrio de poder entre impérios.
Foi precisamente esse legado que nos trouxe até aqui.
Deixámos Macau já noite dentro, numa daquelas partidas silenciosas em que a cidade ainda dorme e a viagem começa antes de o corpo perceber bem para onde vai. Seguimos por estrada até Zhuhai, onde apanhámos o primeiro voo rumo a Lanzhou. Mas Lanzhou, apesar de ser o ponto de regresso, não seria o verdadeiro início da nossa jornada. Ainda na mesma madrugada — sem tempo para grandes pausas — voltámos a embarcar, desta vez em direção a Dunhuang, onde começaria, de facto, o nosso percurso ao longo da antiga Rota da Seda.

Para se ter uma ideia da escala desta viagem — e da própria dimensão da China — estamos a falar de mais de 2.300 quilómetros entre Macau e Lanzhou, seguidos de cerca de 1.100 quilómetros adicionais até Dunhuang. Distâncias que, vistas de fora, parecem quase irreais, mas que aqui são apenas parte da normalidade de um país que se mede mais em continentes do que em fronteiras.
Se Gansu é o eixo, Dunhuang é, sem exagero, um dos seus pontos mais simbólicos.
Durante séculos, esta cidade-oásis marcou o limite entre dois mundos: para quem vinha do interior da China, era a última paragem antes da imensidão hostil do deserto; para quem chegava do Ocidente, era a porta de entrada para o Império. Situada numa posição estratégica junto ao deserto de Gobi, Dunhuang tornou-se um dos principais entrepostos da Rota da Seda, um local onde caravanas descansavam, mercadorias eram trocadas e culturas se cruzavam de forma inevitável.
Mas o papel de Dunhuang foi muito além do comércio. Foi aqui que ideias viajaram com a mesma intensidade que as mercadorias. O budismo, vindo da Índia através da Ásia Central, encontrou neste ponto um dos seus grandes centros de difusão para o território chinês. Monges, tradutores e viajantes passaram por aqui, trazendo consigo textos sagrados, conhecimento e influências que moldariam profundamente a cultura chinesa ao longo dos séculos.
É precisamente neste contexto que surge o primeiro grande marco da nossa viagem: as Grutas de Mogao.



Escavadas a partir do século IV, estas grutas — também conhecidas como as “Grutas dos Mil Budas” — constituem um dos mais extraordinários complexos de arte budista do mundo. Ao longo de mais de mil anos, monges e artistas foram escavando na rocha um conjunto impressionante de templos, decorados com murais e esculturas que refletem não apenas a devoção religiosa, mas também a diversidade cultural que caracterizava a Rota da Seda.



Cada gruta é um testemunho vivo dessa mistura de influências: traços indianos, persas, tibetanos e chineses convivem nas mesmas paredes, revelando como este corredor comercial era, na verdade, uma autêntica autoestrada de civilizações.
Mas talvez o mais impressionante não seja apenas a dimensão artística do complexo. É a sua função histórica. Durante séculos, estas grutas serviram como locais de meditação, santuários religiosos e também como depósitos de conhecimento. Foi aqui que, no início do século XX, se descobriu uma das mais importantes coleções de manuscritos antigos do mundo — documentos que ajudaram a reconstituir a história da própria Rota da Seda.
Ao entrar nas Grutas de Mogao, não estamos apenas a visitar um monumento. Estamos a atravessar camadas de tempo, onde cada pintura, cada escultura, cada detalhe conta uma história de fé, de viagem e de encontro entre culturas.






E foi precisamente aí que a nossa viagem começou verdadeiramente.
Depois das Grutas de Mogao, seguimos para Monte Mingsha — um daqueles lugares onde a História dá lugar à experiência, quase sem aviso.


O cenário muda de forma abrupta. Desaparecem as paredes carregadas de séculos e surge um horizonte aberto, dominado por dunas que parecem não ter fim. Areia em todas as direções, desenhada pelo vento com uma precisão quase artística. Ao longe, pequenas caravanas de camelos avançam lentamente, recriando, ainda que de forma simbólica, a imagem clássica da Rota da Seda.


Dizem que a areia “canta” — e, ao subir as dunas, percebe-se porquê. Há um som subtil, quase impercetível, provocado pelo movimento dos grãos, como se o próprio deserto tivesse uma voz própria. Não é um espetáculo evidente, mas é suficiente para nos lembrar que estamos num lugar fora do comum.

Subimos às dunas, passo a passo, com aquela sensação constante de esforço — até ao topo, onde o silêncio é absoluto e a vista se estende até onde a luz permite.

A descida, feita em pranchas pela encosta de areia, fez as delícias dos mais pequenos, trazendo um momento de leveza a um cenário marcado pela imponência do deserto.

Pelo meio, houve ainda tempo para percorrer parte do deserto a camelo — um ritmo lento, quase hipnótico, que contrasta com a pressa constante a que estamos habituados. Não é difícil imaginar como seriam estas travessias há centenas de anos: dias inteiros de viagem, expostos ao calor, ao vento e à incerteza, dependendo de rotas que hoje seguimos quase por curiosidade.

É precisamente aqui que a dimensão da Rota da Seda ganha outra escala. Deixa de ser um conceito histórico e passa a ser uma experiência física. O calor, o isolamento, a monotonia da paisagem — tudo contribui para perceber o que significava, na prática, atravessar estes territórios. E mesmo assim, durante séculos, milhares fizeram esse caminho.
Depois de um primeiro dia intenso, que terminou entre o deserto e o silêncio de Dunhuang, regressámos ao hotel para algumas horas de descanso — curtas, mas suficientes para recuperar forças para o que ainda estava por vir. O segundo dia levou-nos ainda mais para oeste, em direção ao Yumen Pass — um dos pontos mais icónicos, e ao mesmo tempo mais desolados, de toda a Rota da Seda.



Conhecido como a “Porta de Jade”, o Yumen Pass marcou, durante séculos, o verdadeiro limite do mundo chinês. Construído durante a Dinastia Han, este posto avançado não era apenas uma estrutura militar — era um ponto de controlo estratégico, onde se regulava a entrada e saída de pessoas, mercadorias e informação.

Era por aqui que passava o jade proveniente da Ásia Central — uma das pedras mais valorizadas pela cultura chinesa — e daí o nome que atravessou os séculos. Mas mais do que um entreposto comercial, o Yumen Pass simbolizava uma fronteira clara: para lá dele, começava o desconhecido.


Hoje, o que resta são ruínas expostas ao vento e ao silêncio do deserto. Estruturas simples, quase cruas, que contrastam com a importância histórica que tiveram. E talvez seja precisamente essa simplicidade que mais impressiona. Não há monumentalidade evidente, nem reconstruções exuberantes — apenas vestígios de um tempo em que este ponto decidia quem entrava no império… e quem se aventurava a sair dele.
A paisagem envolvente reforça essa sensação. Vasta, árida, aparentemente infinita. É fácil perceber porque é que este era um ponto crítico: quem controlava esta passagem controlava uma das principais ligações entre a China e o resto do mundo conhecido.


Ali, perante o que resta do Yumen Pass, a Rota da Seda deixa de ser uma ideia distante e ganha contornos muito concretos. Não era apenas comércio ou diplomacia — era risco. Era travessia. Era decisão.
E, muitas vezes, era também o ponto sem retorno.
Antes de chegarmos ao Yadan National Geo Park, fizemos uma paragem nas ruínas da Grande Muralha da Dinastia Han.
À primeira vista, pouco resta. Fragmentos de terra compactada, estruturas quase apagadas pelo tempo, difíceis de distinguir da própria paisagem. Não há torres imponentes nem muralhas contínuas como aquelas que associamos à imagem clássica da Grande Muralha. Mas é precisamente aí que reside a sua força.


Estas construções remontam a mais de dois mil anos, erguidas durante a Dinastia Han, numa altura em que proteger as rotas comerciais era vital para a sobrevivência do império. Ao contrário das secções mais conhecidas, construídas em pedra, aqui utilizava-se terra batida e materiais locais — soluções práticas para um território hostil, onde tudo era escasso, menos o vento e o isolamento.

Estas ruínas não impressionam pela grandiosidade. Impressionam pelo contexto. Porque nos obrigam a imaginar o que significava, há mais de dois mil anos, construir e manter uma linha de defesa neste ambiente — exposto ao deserto, longe de tudo, numa época em que cada deslocação era, por si só, uma expedição.
E foi com essa imagem ainda presente que seguimos para o Yadan.
Se o Yumen Pass já dava uma ideia de fronteira, o Yadan National Geo Park leva essa sensação a um outro nível. A paisagem é quase irreal. Formações rochosas esculpidas pelo vento ao longo de milhares de anos, criando estruturas que parecem cidades abandonadas, castelos em ruína ou silhuetas fantasmagóricas perdidas no meio do nada. Um cenário que facilmente se confunde com algo vindo de outro planeta — e não é por acaso que muitos lhe chamam “paisagem marciana”.



Foi aqui que tivemos a oportunidade de conduzir buggies pelo deserto, atravessando este labirinto natural de formações geológicas. A experiência, mais do que divertida, foi reveladora.

Porque é precisamente neste tipo de terreno que se percebe, de forma quase física, a dimensão da Rota da Seda.

A vastidão, o isolamento, a repetição da paisagem, a ausência de referências — tudo contribui para uma sensação clara: atravessar estes territórios não era uma viagem. Era uma prova de resistência.
Quem aqui passava, há séculos, não tinha mapas digitais, nem veículos motorizados, nem qualquer garantia de chegar ao destino. Tinha apenas orientação, instinto… e uma margem de erro praticamente inexistente.
No meio daquele silêncio absoluto e daquela escala esmagadora, fica uma certeza difícil de ignorar: Quem fazia esta rota — e sobrevivia — não era apenas comerciante ou viajante.
Era, antes de mais, resistente.
O terceiro dia começou cedo. Ainda em Dunhuang, embarcámos no comboio com destino a Jiayuguan — uma viagem de pouco mais de duas horas que, por si só, já diz muito sobre a China de hoje.
Se há algo que impressiona neste país, para além da sua dimensão, é a forma como a tecnologia encurta distâncias que, noutras geografias, seriam quase impeditivas. Estações modernas, infraestruturas altamente eficientes e uma rede ferroviária de alta velocidade que liga regiões remotas com uma precisão quase cirúrgica. Viajar milhares de quilómetros torna-se um processo simples, confortável e surpreendentemente rápido.

Há aqui uma certa ironia inevitável.
Num território onde, durante séculos, atravessar estas mesmas distâncias significava semanas — meses ou anos — de viagem, enfrentando desertos, saqueadores e condições extremas, hoje percorrem-se centenas de quilómetros em poucas horas, sentado confortavelmente num comboio que parece deslizar sobre o terreno.
Mas essa sensação de modernidade tem vida curta.
Mal chegámos a Jiayuguan, voltámos a atravessar séculos de história — quase sem transição.

A primeira paragem foi no Jiayuguan Pass, conhecido como o “Greatest Pass of the Great Wall”. Este era, na prática, o último grande bastião da Grande Muralha da China no extremo ocidental do império.

Mais do que uma fortaleza, tratava-se de um sistema militar complexo, cuidadosamente planeado para defesa, controlo e vigilância. Torres, muralhas, pátios interiores — tudo organizado com uma lógica funcional impressionante para a época. Era aqui que se controlava a entrada e saída de pessoas e mercadorias, num ponto crítico onde a China terminava… e começava o desconhecido.




Ao contrário das ruínas dispersas que tínhamos encontrado anteriormente, aqui a estrutura impõe-se. Há uma sensação clara de organização, de poder e de controlo. Não é difícil imaginar a importância estratégica deste ponto, numa altura em que qualquer falha podia significar a vulnerabilidade de todo um território.

Seguimos depois para a Overhanging Great Wall, uma extensão da muralha construída para acompanhar o relevo acidentado das colinas, quase como se estivesse suspensa sobre a paisagem.




Aqui, a escala muda. Menos monumental, mais exposta, mais física. Subir esta secção permite perceber de forma muito concreta o esforço necessário para construir — e defender — estas linhas num território tão agreste. Cada inclinação, cada curva, cada adaptação ao terreno revela uma engenharia pensada não para impressionar… mas para resistir.

O dia seguinte levou-nos até Zhangye Danxia Park — um dos cenários naturais mais surpreendentes de toda a viagem.

À chegada, a primeira sensação é de estranheza. Não é uma paisagem que se reconheça de imediato. As montanhas surgem em tons improváveis — vermelhos, laranjas, amarelos e ocres (tons entre amarelo-escuro e castanho) — como se tivessem sido pintadas à mão, camada sobre camada, ao longo de milhões de anos. E, de certa forma, foram.

Estas formações geológicas resultam de processos sedimentares e erosivos que remontam a dezenas de milhões de anos, onde diferentes minerais deram origem às cores que hoje definem a paisagem. Mas mais do que a explicação científica, é o impacto visual que fica.


Há uma sensação quase irreal no local. Como se estivéssemos perante um cenário construído — demasiado perfeito, demasiado distinto — para ser natural. E, no entanto, é precisamente essa autenticidade que impressiona.

Zhangye foi também, em tempos, um ponto relevante na Rota da Seda. Não tanto pelo dramatismo das travessias do deserto, mas como zona de passagem e reorganização das caravanas, num território onde a paisagem começava, finalmente, a dar algum sinal de diversidade depois de quilómetros de monotonia árida.

Se o deserto nos mostrou a dureza da rota, Zhangye mostra-nos que, mesmo nos caminhos mais exigentes, havia momentos de respiro.


Seguimos depois para o Pingshan Lake Grand Canyon — e, mais uma vez, o cenário muda de forma radical.
Se Zhangye é cor, o Pingshan Lake é profundidade.

O terreno abre-se em ravinas e formações rochosas que lembram, em escala reduzida, os grandes cânions do mundo. Caminhar por ali é descer para dentro da paisagem, percorrendo trilhos estreitos entre paredes de rocha esculpidas pelo tempo e pelos elementos.

Há uma sensação constante de isolamento. Menos vasto do que o deserto, mas mais fechado, mais físico, quase claustrofóbico em alguns pontos. Um contraste interessante com tudo o que tínhamos visto até então.

E, mais uma vez, surge a mesma reflexão que nos acompanhou ao longo de toda a viagem:
A Rota da Seda não era apenas um caminho entre dois pontos.
Era uma sucessão constante de desafios — de terrenos, de climas, de obstáculos — que obrigavam quem a percorria a adaptar-se, resistir… e continuar.



O dia seguinte trouxe-nos de volta a um registo diferente — menos dominado pela paisagem e mais centrado na presença humana, na espiritualidade e na vida que, ao longo dos séculos, foi crescendo ao longo da Rota da Seda.
A primeira paragem foi no Templo de Matisi, um conjunto impressionante de templos escavados na encosta de uma montanha.


À distância, o que se vê são estruturas aparentemente suspensas na rocha, ligadas por escadas e passagens estreitas que serpenteiam pela encosta. Mas ao aproximarmo-nos, percebe-se que este não é apenas um feito arquitetónico — é, acima de tudo, um espaço de devoção.

Com origens que remontam a mais de 1.500 anos, o complexo foi influenciado por diferentes correntes do budismo e serviu como local de retiro espiritual para monges que procuravam isolamento e proximidade com o sagrado. Tal como em Dunhuang, também aqui se sente a influência da Rota da Seda, não apenas como via de comércio, mas como canal de transmissão religiosa e cultural.


Subir pelas estruturas de madeira encaixadas na rocha é uma experiência tão física quanto simbólica. Cada passo exige atenção, cada passagem estreita obriga a abrandar — quase como se o próprio espaço impusesse um ritmo mais contemplativo.




Seguimos depois para o Grande Buda de Zhangye, uma das maiores estátuas de Buda reclinado da China.


Aqui, a escala volta a impressionar, mas de forma diferente. Não pela imponência exterior, mas pela serenidade que transmite. A figura representa o momento final da vida de Buda, antes de alcançar o nirvana — um símbolo de transição, de fim, mas também de continuidade.



No contexto da Rota da Seda, locais como este ganham um significado ainda mais profundo. Foram pontos de paragem para viajantes, centros de difusão religiosa e espaços onde diferentes culturas encontravam uma linguagem comum através da espiritualidade.

O dia terminou com uma passagem pela Drum Tower de Zhangye, no coração da cidade.
Ao contrário dos cenários isolados dos dias anteriores, aqui regressámos ao ambiente urbano. A torre, tradicionalmente utilizada para marcar o tempo e anunciar acontecimentos importantes, recorda uma China mais organizada, mais estruturada, onde a vida quotidiana seguia ritmos bem definidos.
É um contraste interessante: depois de desertos, muralhas e templos isolados, voltamos ao centro da cidade — onde a história continua presente, mas integrada no dia-a-dia.
O último dia trouxe-nos de volta a Lanzhou — o ponto de partida e de chegada desta viagem.
Depois de dias marcados por desertos, muralhas, templos e paisagens quase irreais, Lanzhou surge como um regresso à normalidade. Uma cidade moderna, atravessada pelo Rio Amarelo, onde o ritmo urbano volta a impor-se e onde a vida segue o seu curso sem a carga simbólica dos locais que tínhamos vindo a explorar.

Passámos pela Zhongshan Bridge, uma das mais antigas pontes metálicas da China, e pelo Waterwheel Park, onde antigas rodas de água recordam a importância histórica do rio na irrigação e no desenvolvimento da região. São locais que, à primeira vista, podem parecer apenas pontos turísticos urbanos — mas que, no contexto desta viagem, ajudam a fechar o círculo.


Porque, no fundo, foi aqui que tudo começou.
Mas já não éramos os mesmos.
Ao longo destes dias, percorremos milhares de quilómetros por um território que, durante séculos, foi uma das principais ligações entre mundos. Vimos de perto o que resta de uma rota que não era apenas comercial, mas profundamente humana — feita de encontros, de trocas, de risco e de sobrevivência.
A Rota da Seda não era um caminho confortável. Não era rápida. Não era segura.
Era, acima de tudo, necessária.
E talvez seja essa a maior lição que fica desta viagem.
Num tempo em que tudo é imediato, em que as distâncias se encurtam e a informação circula à velocidade de um clique, é fácil esquecer o que significava, há não muito tempo, atravessar o mundo.
Hoje, percorremos milhares de quilómetros em poucas horas, entre aeroportos modernos e comboios de alta velocidade. Mas houve uma época em que essa mesma distância era medida em meses — e em coragem.
Percorrer Gansu é, no fundo, isso mesmo: confrontarmo-nos com a escala do tempo, com a dureza da geografia e com a capacidade humana de ultrapassar limites.
E perceber que, muito antes de falarmos em globalização, já o mundo estava ligado.
Não por tecnologia.
Mas por necessidade.



