A Câmara Municipal de Seia aprovou, ontem, a prestação de contas relativa ao exercício de 2025, destacando um resultado líquido positivo de 222.910,15 euros e uma taxa de execução da receita de 90,3%, indicadores que, segundo a mesma, “refletem uma gestão financeira equilibrada e responsável.”
Num ano marcado por desafios externos relevantes, como a instabilidade política, o contexto económico internacional e os impactos dos conflitos armados, o município referiu ter conseguido “manter níveis consistentes de execução, com as Grandes Opções do Plano (GOP) a atingirem uma taxa de 80,3%.”
“Os constrangimentos sentidos, nomeadamente no setor da construção civil — como a escassez de mão de obra, o aumento dos custos e a elevada procura associada ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) —, bem como situações imprevistas como os incêndios e as intempéries, condicionaram o ritmo de execução de alguns projetos”, explicou o Presidente da Câmara, Luciano Ribeiro. Ainda assim, sustentou o autarca, “foi garantida a resposta imediata às populações e continuado o investimento na melhoria da qualidade de vida dos munícipes, com intervenções em áreas estratégicas, como as infraestruturas (viárias, água e saneamento básico), educação (Escola Secundária), saúde (Centro de Saúde), ação social, proteção civil, ambiente ou mobilidade, entre outras”. Por outro lado, Luciano Ribeiro apontou o saldo de gerência apurado, no valor de 4.268.326,08 €, como “essencial para garantir maior capacidade de execução às várias intervenções em curso”, destacando a sustentabilidade financeira da autarquia, por via da realização de amortizações extraordinárias de empréstimos superiores a 1,4 milhões de euros, contribuindo para a redução do endividamento e o aumento da capacidade de investimento futuro.
O relatório evidencia também a crescente dinâmica económica do concelho, com o surgimento de novas iniciativas empresariais, particularmente no setor do turismo, e o aumento da procura por espaços para atividades económicas. Destaca-se ainda o crescimento da receita fiscal, mesmo num contexto de redução dos impostos e taxas municipais. Os documentos de prestação de contas de 2025 foram aprovados com os votos favoráveis da maioria socialista, tendo os vereadores do PSD se abstido, argumentando baixos níveis de execução de vários objetivos inscritos em orçamento.
A Câmara Municipal reafirma “o seu compromisso com uma gestão sustentável, orientada para o desenvolvimento económico, a coesão social e a valorização do território, mantendo em curso projetos estruturantes como o Parque Verde Urbano, a valorização económica do Aeródromo e a qualificação/criação de novos espaços empresariais, entre outros.”
A Freguesia de Santa Marinha assinala as cinco décadas das primeiras eleições autárquicas democráticas com uma jornada de homenagem à participação cívica e à história da comunidade.
Para comemorar os 50 anos das primeiras eleições autárquicas, um marco que trouxe voz às populações e fortaleceu o poder local, a Junta de Freguesia de Santa Marinha preparou um programa especial para envolver os cidadãos nesta celebração histórica.
As celebrações arrancam logo pela manhã, às 09h30, com a cerimónia do Hastear das Bandeiras na Sede da Junta de Freguesia. O ponto alto das comemorações terá lugar no Largo do Pelourinho, a partir das 20h30, com a realização de uma Assembleia de Freguesia Comemorativa.
A noite contará, ainda, com momento musical protagonizado por talentos da comunidade, uma iniciativa que visa dar palco aos artistas locais e reforçar os laços de identidade entre os fregueses.
Rafael Abreu, presidente da Junta de Freguesia de Santa Marinha salienta que “mais do que recordar o passado, é tempo de valorizar a participação cívica e o papel de cada cidadão na construção de uma freguesia mais ativa, inclusiva e democrática”.
A Junta de Freguesia de Santa Marinha convida toda a população a estar presente, reforçando que a força do poder local reside, precisamente, na proximidade e na participação ativa de todos os seus habitantes.
O Município de Seia tem vindo a registar uma evolução significativa na atividade do Centro de Recolha Oficial (CRO), com destaque para o aumento expressivo do número de esterilizações de animais errantes, no âmbito das políticas de controlo da população animal e de promoção do bem-estar animal.
De acordo com os dados do relatório anual da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), o número de esterilizações no concelho de Seia aumentou de forma consistente nos últimos anos, passando de 23 intervenções em 2023 para 143 em 2024 e atingindo as 333 em 2025. Esta evolução reflete o reforço da capacidade de resposta do CRO e a eficácia das medidas implementadas pelo Município.
Um dos fatores determinantes para este crescimento foi a entrada em funcionamento da sala de cirurgia do Centro de Recolha Oficial, inaugurada em junho de 2024, que permitiu aumentar a autonomia e a capacidade de realização de procedimentos médico-veterinários no CRO.
A esterilização assume-se, assim, como uma medida técnico-sanitária essencial, contribuindo para o controlo da reprodução de animais errantes, a redução do abandono, a diminuição da pressão sobre os centros de recolha e a mitigação de riscos para a saúde pública, nomeadamente no que respeita à disseminação de doenças.
No que diz respeito à atividade global do CRO em 2025, foram recolhidos 499 animais errantes, dos quais 191 cães e 308 gatos, evidenciando o papel estruturante deste equipamento municipal na resposta a situações de abandono e risco.
No mesmo período, foram concretizadas 196 adoções (107 cães e 89 gatos), um indicador relevante do impacto social positivo do trabalho desenvolvido, promovendo a reintegração dos animais em famílias responsáveis e contribuindo para a redução do tempo de permanência no centro.
Este trabalho enquadra-se nas competências municipais em matéria de saúde pública veterinária e é desenvolvido de acordo com o enquadramento legal em vigor, assente em princípios de bem-estar animal e gestão sustentável.
E comunicado, o Município de Seia refere que “continuará a investir em políticas estruturadas e baseadas em evidência, reforçando simultaneamente as ações de sensibilização para a esterilização e para a detenção responsável de animais de companhia.”
O Comando Territorial da Guarda, através do Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) de Gouveia, deteve no dia de ontem, 15 de abril, dois homens, de 31 e 75 anos, por incêndio rural, no concelho de Seia.
Na sequência de alertas que davam conta da existência de focos de incêndio em área rural, os elementos do SEPNA deslocaram-se de imediato aos locais, onde desenvolveram diligências policiais que permitiram identificar e deter os suspeitos. No decurso da ação, foi possível apurar que as ignições tiveram origem em queimas autorizadas, que acabaram por se descontrolar e deram origem à propagação às áreas envolventes.
Das ocorrências resultou uma área ardida de 0,93 hectares, composta por pasto, mato e alguns eucaliptos. Os suspeitos foram detidos, constituídos arguidos, e os factos foram remetidos ao Tribunal Judicial de Seia.
A proteção de pessoas e bens, no âmbito dos incêndios rurais, continua a assumir-se como uma das prioridades, sustentada numa atuação preventiva e num esforço de patrulhamento nas áreas florestais.
A GNR relembra que “as queimas e queimadas são das principais causas de incêndios em Portugal. A realização de queimadas, de queima de amontoados e de fogueiras é interdita sempre que se verifique um nível de perigo de incêndio rural «muito elevado» ou «máximo», estando dependente de autorização ou de comunicação prévia nos restantes períodos. Para evitar acidentes, siga as regras de segurança, esteja sempre acompanhado e leve consigo o telemóvel.”
A Guarda Nacional Republicana, através do Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA), tem como preocupação diária a proteção ambiental e dos animais. Para o efeito, poderá ser utilizada a Linha SOS Ambiente e Território (808 200 520), que funciona em permanência para a denúncia de infrações ou esclarecimento de dúvidas.
JSM falou com a Coordenadora do grupo dinamizador deste Núcleo, Cristina Cunha.
O Núcleo de Enfermagem de Reabilitação da ULS Guarda promove, nos dias de amanhã e de sexta-feira, o I Congresso do Núcleo de Enfermagem de Reabilitação, que terá lugar na Casa Municipal da Cultura de Seia – Salão das Magnólias.
Este congresso surge com o objetivo de afirmar a Enfermagem de Reabilitação como área fundamental na promoção da funcionalidade, autonomia e qualidade de vida das pessoas ao longo do ciclo vital, reunindo profissionais de saúde, académicos e especialistas de referência nacional.
Ao longo de dois dias, o programa científico contempla mesas-redondas, palestras, workshops práticos, comunicações orais e apresentação de e-posters, abordando temáticas atuais e desafiantes, entre as quais: o papel da Enfermagem de Reabilitação do doente crítico ao funcional; liderança, evidência científica e transformação dos cuidados; sistema estomatognático e rendimento desportivo; reabilitação pediátrica e cuidados no domicílio; a dor e a dignidade na reabilitação; Intervenções custo-efetivas em Enfermagem de Reabilitação; inovação e futuro da reabilitação e, ainda, disfagia, avaliação pulmonar e electroestimulação neuromuscular.
O congresso contará com a participação de profissionais de diversas instituições de saúde e ensino superior, promovendo a partilha de conhecimento, a reflexão crítica e o fortalecimento das boas práticas clínicas.
A localidade de Pinhanços (Seia) prepara-se para viver um dia de profunda fé e convívio comunitário no próximo domingo, 26 de abril. O Encontro de Irmandades, organizado pela Irmandade Nossa Senhora da Lomba, promete reunir fiéis e visitantes numa jornada que alia a solenidade religiosa à celebração popular.
As atividades têm início marcado para as 13h00, com a receção oficial às Irmandades convidadas no Campo de Futebol Tapadinha. Pelas 14h30, as ruas da freguesia serão palco da Procissão Solene em direção à Ermida Senhora da Lomba, um momento que contará com a Banda Filarmónica S.I.R. Paços da Serra.
O ponto alto das celebrações religiosas acontece às 15h30, com a Celebração da Eucaristia, presidida pelo Bispo da Diocese da Guarda, D. José Miguel Pereira. Para além da vertente litúrgica, o evento terá momentos de lazer para todos os presentes. Assim, às 17h30 haverá um novo momento musical a cargo da Banda Filarmónica S.I.R. Paços da Serra e, pelas 18h30 decorrerá o jantar convívio, que será animado pelas concertinas do grupo Sons da Serra.
A organização recorda que os interessados em participar no jantar (com o valor de 15 “irmãos”) devem realizar a sua inscrição até ao dia 20 de abril. Para mais informações ou inscrições, está disponível o contacto telefónico 936 775 178.
Este evento conta com o empenho da Irmandade local e reafirma a vitalidade das tradições religiosas no concelho, esperando-se uma forte adesão da comunidade de Pinhanços e freguesias vizinhas.
O Município de Oliveira do Hospital volta a reforçar o seu compromisso com a educação e a formação dos jovens do concelho, através da atribuição de bolsas de estudo a alunos do ensino superior, com um valor orçamental de 60 mil euros.O apoio aos alunos e às famílias continua a ser uma prioridade do Município, que tem procurado desenvolver ações e implementar medidas públicas que reforcem o investimento na educação e na formação dos cidadãos.
No âmbito do concurso para a atribuição de bolsas de estudo a estudantes do ensino superior residentes no concelho, foi definido um valor orçamental global de 60 mil euros, representando um aumento de cerca de 10 por cento face ao ano anterior, em que o apoio se fixou nos 55 mil euros.De acordo com as listas definitivas, foram admitidas 26 candidaturas de estudantes do ensino superior, correspondendo a um montante total de 58.140,00 euros.
A ordenação dos candidatos foi efetuada conforme previsto no regulamento, tendo em consideração dois critérios principais: a afetação de 25 por cento do orçamento para estudantes que frequentam a Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Oliveira do Hospital (ESTGOH), com rendimento per capita elegível, e a ordenação dos restantes candidatos em função do rendimento per capita.
Segundo a vereadora da Educação da Câmara Municipal, Luísa Correia, entre os candidatos selecionados, “existem cinco estudantes que ainda aguardam o resultado” da Direção-Geral do Ensino Superior (DGES). “Tratando-se de uma situação alheia aos próprios, o júri deliberou a sua inclusão na lista definitiva de atribuição de bolsas, ficando condicionada a atribuição do valor à entrega posterior do respetivo comprovativo”, esclarece. “Caso se verifiquem alterações aos montantes inicialmente previstos, a verba remanescente será redistribuída pelos candidatos seguintes na lista de ordenação”, acrescenta.
No total, foram ainda considerados 34 candidatos elegíveis que não puderam ser apoiados por limitação orçamental, bem como 16 candidaturas excluídas por motivos diversos.
A atribuição destas bolsas visa, refere a vereadora Luísa Correia, “incentivar os jovens do concelho a prosseguirem estudos, promover a sua qualificação e contribuir para que, no futuro, estejam preparados para impulsionar o desenvolvimento de Oliveira do Hospital nas mais diversas áreas”.
A responsável pelo pelouro da Educação sublinha ainda que este apoio pretende “garantir que nenhum jovem oliveirense veja o acesso ao ensino superior comprometido por dificuldades financeiras, reforçando a educação como um pilar essencial de uma sociedade mais justa, solidária e preparada para os desafios do futuro”.
O Serviço de Obstetrícia do Hospital da Guarda, no âmbito do seu projeto “Acolher para Nascer”, está a promover uma nova atividade intitulada “Atelier do Meu Parto”.
Esta iniciativa terá periodicidade quinzenal, realizando-se à quinta-feira, no horário das 16h30 às 18h, na Sala de Preparação para o Parto e Parentalidade. O Atelier do Meu Parto é gratuito e destina-se a todas as grávidas que frequentam as sessões de Preparação para o Parto e Parentalidade.
Esta atividade constitui uma estratégia relevante de promoção da saúde materna e neonatal, alinhada com as boas práticas assistenciais e com os princípios da educação para a saúde, apresentando benefícios significativos para as futuras mães e para o processo de nascimento.
O seu principal objetivo é proporcionar informação clara e rigorosa, baseada em evidência científica, sobre a gravidez, o trabalho de parto, o parto e o pós-parto imediato.
Com a realização deste Atelier, pretende-se ainda promover a literacia em saúde, capacitando as participantes para uma tomada de decisão informada; incentivar práticas seguras e humanizadas durante o processo de parto; desmistificar medos e reduzir a ansiedade associada ao nascimento e reforçar a confiança das grávidas, promovendo uma melhor preparação para o parto, maior adesão às recomendações de saúde e uma experiência global de nascimento mais positiva.
O Intermarché de São Romão deu mais um passo na sua estratégia de expansão e apoio à comunidade com a inauguração oficial do seu novo Posto de Combustível. O novo serviço já se encontra, desde ontem, em pleno funcionamento, prometendo trazer preços mis competitivos aos residentes e visitantes.
Esta abertura surge como uma resposta direta às necessidades dos clientes, que passam agora a usufruir de uma oferta mais alargada, num único espaço: ao mesmo tempo que realizam as suas compras na loja, podem, agora, abastecer o seu veículo neste mesmo espaço e a custos mais reduzidos. Numa altura em que o preço dos combustíveis está em alta, o Intermarché, de São Romão vem, desta forma, diminuir esta dificuldade a todas as famílias, aplicando um valor mais baixo nos combustíveis e mantendo a qualidade.
De acordo com Solange Rodrigues e Marco Fernandes, gerentes do Intermarché de São Romão, com este investimento “o objetivo é servir melhor a comunidade, aliando a qualidade que já nos caracteriza à proximidade que os nossos clientes valorizam no dia-a-dia”. A gerência convida agora toda a população a visitar as instalações e a conhecer de perto este novo serviço, que marca uma nova etapa na história desta unidade comercial.
Para mais informações consultar https://intermarche.pt/servicos/combustiveis
“Sair não é abandonar. As raízes não se perdem com a distância. O mundo é hoje global e há valor tanto em ficar como em ir. O importante é fazer o caminho com honestidade, trabalho e coragem, sem nunca esquecer de onde viemos.”
Em entrevista ao JSM, Luís Camelo recorda o salto de Seia para Lisboa, o impacto do seu trabalho no combate à fraude e corrupção e o eterno apelo das raízes senenses, para onde espera um dia voltar com o mesmo entusiasmo com que partiu.
Natural de Seia, Luís Camelo tem 30, é economista e lidera a área de Forensic & Integrity Services da EY Angola. Com um percurso académico de elite e um caminho profissional de grande relevo marcado pelo combate à fraude e corrupção, Luís Camelo traçou um caminho de rigor desde cedo. Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia e Gestão, Universidade de Lisboa (ISEG) e pós-graduado em Gestão Financeira pelo Instituto Superior de Gestão, Universidade Lusófona (ISG), o jovem consultor percebeu rapidamente que o seu futuro passava por áreas onde a transparência é a palavra de ordem. Especializou-se em Anti-Corrupção pela International Compliance Association, em parceria com a Universidade de Manchester, dotando-se das ferramentas necessárias para enfrentar os desafios mais complexos do setor financeiro.
Com uma década de experiência profissional — sete dos quais ligados ao mercado angolano, onde reside há cinco anos — Luís é hoje o responsável pela equipa de Forensic & Integrity Services da EY Angola. Apesar de ter apenas 30 anos, o seu currículo já é enorme: liderou auditorias forenses em bancos portugueses e angolanos, desvendando esquemas de apropriação indevida de fundos e fraudes sofisticadas em sistemas core bancários que resultaram em perdas financeiras avultadas.
O seu trabalho vai muito além da análise de números. O consultor e economista tem sido uma peça fundamental em instituições em Angola, colaborando regularmente com o Governo, instituições públicas e privadas em Angola, seja a investigar denúncias de corrupção ou fraude, ou a ministrar formação sobre temas como prevenção de branqueamento de capitais, o objetivo é sempre o mesmo: implementar uma cultura de compliance onde as empresas operem não apenas pelo lucro, mas pela ética.
Apesar da posição de destaque em Luanda, Luís Camelo mantém uma ligação umbilical a Seia. Para o consultor, os valores de responsabilidade e trabalho que os pais e o irmão lhe transmitiram são o verdadeiro alicerce da sua integridade profissional.
Para este jovem senense, o caminho vai-se percorrendo sempre assente em valores que levou de Seia: a honestidade e a lealdade transmitidas sempre pelos seus pais, características que o acompanham sempre e o tornam num emigrante de sucesso.
Luís Camelo (LC): Sair de Seia aos 17 anos não foi uma decisão simples, mas foi muito natural. Como acontece com muitos jovens do interior, percebi cedo que as maiores oportunidades académicas e profissionais estavam concentradas nas grandes cidades, em particular em Lisboa. Foi isso que me levou a escolher o ISEG, que é — e sempre foi — uma das melhores faculdades de Economia do país.
Lisboa trouxe-me oportunidades, diversidade, exigência e um ritmo completamente diferente daquele a que estava habituado. Mais tarde, já na EY Portugal, o contacto com projetos internacionais e, em particular, com Angola, surgiu de forma muito natural. Inicialmente eram projetos pontuais, algo bastante comum numa consultora global.
O “salto” para Angola foi uma evolução natural desse percurso, quando surgiu o desafio de desenvolver localmente uma área que até então não existia de forma estruturada (2 dias antes de Portugal ser fechado pelo COVID).
JSM: Qual foi o momento decisivo em que percebeu que a sua especialização teria um campo de ação tão relevante em Luanda?
Luís Camelo (LC): Angola iniciou, a partir de 2016, um processo claro de reforço do combate à corrupção e de promoção da ética e da integridade, o que se alinhava totalmente com a área onde eu me estava a especializar — Forensic & Integrity Services.
Por outro lado, Angola tem uma presença muito relevante de empresas internacionais, sobretudo no sector petrolífero, que operam com standards muito exigentes de compliance, ética e anticorrupção. Empresas como a BP, ENI, Chevron, Equinor, entre outras, estão sujeitas a legislações internacionais muito rigorosas, mesmo quando operam fora dos seus países de origem.
Isso cria, naturalmente, uma necessidade (e pressão) também junto das empresas locais, que se relacionam com essas entidades e para se relacionarem têm de cumprir mais do que os chamados “mínimos olímpicos” nestas matérias. O mercado existia — e continua a existir — e a minha experiência em diferentes tipos de projetos deu-me a versatilidade necessária para responder a desafios que vão além das competências forenses e de compliance.
JSM: O que é que Seia e a educação que recebeu no interior de Portugal lhe deram de mais valioso para enfrentar um mercado tão competitivo e complexo como o angolano?
Luís Camelo (LC): Em primeiro lugar, a educação que recebi em casa. Os meus pais e o meu irmão transmitiram-me valores muito fortes de ética, integridade, responsabilidade e trabalho. Esses valores são absolutamente centrais no que faço hoje.
Depois, os valores da amizade, da lealdade e das relações duradouras. Curiosamente, os meus círculos de amizade mais importantes acompanham-me desde Seia, passaram por Lisboa e estendem-se hoje a Luanda. Isso diz muito sobre a forma como cresci e sobre a importância das raízes.
JSM: Trabalha com várias empresas de grande dimensão. Lidera, também, a equipa de Forensic & Integrity Services da EY Angola. Como é ser o rosto da integridade e do combate à fraude num mercado e num país com desafios tão específicos?
Luís Camelo (LC): É uma grande responsabilidade e, acima de tudo, um exercício constante de equilíbrio. Trabalhar em integridade e combate à fraude não é apontar o dedo nem assumir uma posição moralista; é ajudar organizações a protegerem-se, a crescerem de forma sustentável e a alinharem-se com as melhores práticas internacionais.
Angola é um mercado exigente, complexo e muito rápido, mas também é um mercado com enorme vontade de evoluir. O meu papel — e o da minha equipa — tem sido o de criar confiança, trabalhar lado a lado com os clientes e mostrar que investir em ética, compliance e controlo não é um custo, mas sim um fator crítico de competitividade e reputação.
JSM: Sem quebrar o sigilo, qual foi o projeto que mais o testou?
Luís Camelo (LC): Determinados trabalhos têm, naturalmente, um grau de confidencialidade muito elevado. É difícil escolher apenas um, mas diria que as auditorias forenses são sempre especialmente desafiantes.
São projetos intensos, porque não lidamos apenas com números e documentos — lidamos com pessoas, e por vezes com o pior lado delas. Curiosamente, quando se descobre efetivamente uma fraude, há um certo encerramento natural do processo. O dilema maior surge quando não se encontra nada: “não existe ou não estou a conseguir detetar?”. Saber quando insistir e quando parar é um dos maiores desafios da profissão.
JSM: Com alguns anos de experiência no terreno, como tem visto a evolução da cultura de compliance e transparência em Angola? Sente que o seu trabalho está a mudar a perceção de “fazer negócio” no país?
Luís Camelo (LC): A evolução é real e mensurável. Basta olhar para os dados mais recentes da Transparência Internacional. Angola é hoje o país da África Subsaariana que mais evoluiu positivamente desde 2015 no Índice de Perceção da Corrupção.
Têm sido feitos investimentos relevantes, e também se verifica o reforço de estruturas internas de controlo nas empresas, mas há ainda um caminho importante a percorrer, mas a perceção hoje é muito diferente daquela que existia há 10 ou 15 anos.
E sim, acredito genuinamente que o trabalho que fazemos, em conjunto com o executivo angolano, clientes, reguladores e outras entidades, está a contribuir para mudar a forma como se faz negócio no país.
JSM: Como foi a adaptação familiar a Luanda? O que é que a cidade lhe dá que Lisboa ou Seia não conseguem dar?
Luís Camelo (LC): Como em qualquer processo de emigração, existe sempre uma tendência inicial para viver numa “bolha”. No meu caso, vim com três colegas/amigos, o que facilitou muito essa fase. Mais tarde conheci a minha esposa, que agora vive e trabalha em Luanda.
Luanda trouxe-me desafios profissionais diferentes e mais adaptados ao que eu gosto e uma maior estabilidade financeira. Mas, acima de tudo, trouxe-me a sensação de impacto. Sinto que aqui os projetos têm um valor acrescentado muito claro e consequências reais na vida das pessoas e das organizações, algo que em Lisboa, muitas vezes, sentia de forma mais tímida.
Lubango (Angola)Caboledo (Angola)
JSM: Como gere a relação com os amigos e a família que ficaram em Seia? O que é que eles mais lhe perguntam sobre a sua vida “lá fora”? Quais os desafios e dificuldades que enfrentou como emigrante?
Luís Camelo (LC): Vou regularmente a Portugal e mantenho uma ligação muito próxima com a família e os amigos. A maioria vive em Lisboa e em Seia, o que facilita bastante.
Perguntam-me sobretudo se gosto de viver em Luanda — ao que respondo sempre que sim — e por quanto tempo pretendo ficar… A verdade é que esta segunda pergunta não sei mesmo responder, sei que por algum ainda.
Sendo sincero, não senti grandes dificuldades pessoais, as profissionais foram chegar a um mercado novo onde não conhecia ninguém, mas o facto de estar numa empresa como a EY ajuda muito – as empresas gostam e querem muito falar connosco, hoje em dia, naturalmente, tenho uma rede profissional completamente diferente de quando cheguei.
Resumiria dizendo que sabia ao que vinha e abracei o desafio de forma muito consciente. Procurei criar rotinas, encontrar hobbies — o padel foi fundamental — e hoje tenho uma rede muito sólida de amigos em Luanda.
JSM: Quando regressa a Seia, qual é a primeira coisa que faz ou o primeiro lugar onde vai para se sentir verdadeiramente “em casa”?
Luís Camelo (LC):A verdade? A casa… Ligo sempre aos meus pais e peço-lhes para me fazerem alguma comida que me esteja a apetecer naquele momento. A minha mãe é uma cozinheira extraordinária em comida de conforto e doces, e o meu pai em petiscos e marisco. Gosto muito de comer — é um ritual quase sagrado.
JSM: O Luís tem um currículo de elite e uma posição de destaque. O desejo de regressar é uma questão de “coração” ou de “qualidade de vida”?
Luís Camelo (LC): Estou a fazer o meu caminho, com experiências muito relevantes e projetos interessantes. Diria que o regresso será quando for, e quando acontecer, diria que 60% coração e 40% qualidade de vida. Valorizo muito o equilíbrio, mas ainda sou novo e acho que estou na altura de continuar a experimentar coisas novas e diferentes… portanto como dizia o Jorge Palma “enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar”!
JSM: No seu entender, o que é preciso fazer para que Seia atraia empresas e quadros especializados e, consequentemente, consiga atrair e fixar pessoas no concelho?
Luís Camelo (LC): É preciso uma estratégia clara e consistente no tempo. Criar condições para empresas se instalarem passa por infraestruturas, incentivos, ligações ao ensino superior e, sobretudo, por mostrar que o interior pode oferecer qualidade de vida aliada a projetos profissionais interessantes.
Também é fundamental envolver quem saiu e criar pontes com quem está fora. Acho que há muito talento sénior com vontade de contribuir, desde que existam projetos estruturados e com visão.
JSM: Conseguiria imaginar-se a fazer o que faz hoje (auditoria forense e compliance de alto nível) a partir da Serra da Estrela, ou sente que o interior ainda está fechado a este tipo de serviços globais?
Luís Camelo (LC): O trabalho que faço exige muita proximidade com as organizações, confiança e contacto frequente com equipas de gestão e operações. Hoje, de forma prática, estes serviços continuam mais concentrados nos grandes centros, onde existe maior densidade empresarial e estruturas mais complexas. Ainda assim, sinto que essa realidade está a mudar, de forma gradual, e que o interior começa a ganhar condições que antes não existiam.
Há cada vez mais consciência da importância de boas práticas de governação, controlo e ética, mesmo em empresas de menor dimensão. Se continuarem a ser criadas condições — desde conectividade, talento qualificado e projetos ambiciosos — não tenho dúvidas de que, a médio prazo, o interior poderá acolher este tipo de serviços com naturalidade. Pessoas, capacidade de trabalho e valores não faltam e nunca faltaram; agora é também importante surgir o contexto certo.
JSM: Se amanhã surgisse uma oportunidade para liderar um projeto de integridade em Portugal, mas fora dos grandes centros, Seia estaria no topo da lista? O que teria de mudar na cidade para que o regresso fosse viável profissionalmente?
Luís Camelo (LC): Sem dúvida que Seia estaria no topo da lista. É a minha terra, faz parte da minha identidade e seria um enorme orgulho poder liderar um projeto profissional relevante a partir da minha cidade natal. A empresa onde estou tem vindo a apostar no interior —temos um escritório em Viseu — o que mostra que existe uma aposta real em descentralizar e em valorizar o talento fora dos grandes centros urbanos. Muitos dos nossos líderes vêm também do interior, o que prova que a origem nunca foi um limite.
Hoje, para mim, Seia representa sobretudo descanso, raízes e qualidade de vida, enquanto o meu percurso profissional tem sido feito num ambiente de grande pressão e intensidade. Se um dia essas duas realidades se cruzarem, acredito que o regresso faria sentido — e seria feito com enorme entusiasmo.
Luís e a esposa RitaLuís e a esposa Rita
JSM: Uma mensagem para todos os senenses e para todos os emigrantes.
Luís Camelo (LC):Sair não é abandonar. As raízes não se perdem com a distância. O mundo é hoje global e há valor tanto em ficar como em ir.
O importante é fazer o caminho com honestidade, trabalho e coragem, sem nunca esquecer de onde viemos.