A Seleção não é Cristiano Ronaldo. E Cristiano Ronaldo não é a Seleção

Pela memória. Pela gratidão. E pelo respeito que todos os outros grandes da nossa história também merecem.

Apaixonei-me verdadeiramente pela Seleção Nacional aos 17 anos.

Corria o dia 30 de junho de 1991.

Nesse dia, acompanhado por familiares, fiz a pé o caminho do Lumiar até Benfica. Para se ter uma ideia de como Lisboa era diferente, ainda nem sequer existia o Centro Comercial Colombo.

Entrei pela primeira vez no velho Estádio da Luz.

E aquilo que encontrei lá dentro nunca mais saiu de mim.

Mais de 120 mil portugueses.

Um estádio absolutamente esmagador.

Uma final de um Campeonato do Mundo.

Do outro lado, o Brasil. E, para um miúdo de 17 anos, o Brasil parecia uma espécie de gigante mitológico do futebol.

Portugal podia tornar-se campeão do mundo.

Do Mundo.

É verdade que já tínhamos chegado a esse Olimpo dois anos antes. A 3 de março de 1989, curiosamente em Riade, Portugal derrotara a Nigéria por 2-0, com golos de Abel Silva e Jorge Couto, conquistando o primeiro título mundial da história das seleções portuguesas.

Mas agora eu estava lá.

À minha frente estavam Luís Figo, Rui Costa, João Pinto, Jorge Costa, Peixe, Rui Bento, Paulo Torres, Brassard, Capucho e tantos outros.

Do outro lado, um Brasil onde jogavam, entre outros, Roberto Carlos e um loirinho de quem provavelmente muitos já se esqueceram: Paulo Nunes. Que prazer era vê-lo com uma bola nos pés.

Passaram 90 minutos.

Depois 120.

Zero a zero.

Vieram os penáltis.

E Portugal ganhou.

Foi o êxtase.

Vibrei como talvez nunca tivesse vibrado até então.

Cristiano Ronaldo?

Tinha seis anos.

E Portugal já era, pela segunda vez, campeão do mundo.

Foi naquele estádio, no meio daquela multidão, que aprendi uma das coisas mais bonitas que o futebol alguma vez me ensinou:

a Seleção Nacional é de todos nós.

Ali não havia Benfica.

Não havia Sporting.

Não havia Porto.

Ali só havia Portugal.

E naquele momento aquelas palavras que tantas vezes cantámos ganharam outro significado:

Heróis do mar, nobre povo,

Nação valente, imortal,

Levantai hoje de novo

O esplendor de Portugal.

E levantaram. Bem alto.

Entre as brumas da memória,

Ó Pátria, sente-se a voz

Dos teus egrégios avós,

Que há de guiar-te à vitória.

E guiaram-nos. À vitória.

E depois marchámos nós, pelas avenidas de Lisboa, num estado de perfeita felicidade.

Não sonhávamos sequer com Cristiano Ronaldo.

Talvez por ter aprendido assim a gostar da Seleção, por ter aprendido a senti-la desta forma, me custe tanto aquilo a que temos assistido nos últimos anos: a tentativa de transformar a história da Seleção Nacional na história de Cristiano Ronaldo.

Não são a mesma coisa.

Nunca foram.

E nunca serão.

Pior ainda é a ideia, tantas vezes repetida, de que sem Cristiano Ronaldo Portugal nunca teria chegado onde chegou.

Como se o futebol fosse um desporto individual.

Como se os outros dez estivessem lá apenas para fazer número.

A Seleção já existia antes de Ronaldo

Antes de Cristiano Ronaldo já Portugal tinha conhecido Eusébio da Silva Ferreira.

Mário Coluna.

José Águas.

José Augusto.

António Simões.

Humberto Coelho.

Manuel Bento.

Jordão.

Fernando Gomes.

Chalana.

Carlos Manuel.

Paulo Futre.

É verdade que não existiam Facebook, Instagram, YouTube ou TikTok.

E, às vezes, penso no que seria hoje a dimensão mundial de Eusébio se tivesse jogado na era das redes sociais.

Ou de Chalana.

Ou de Futre.

Que dimensão teria Paulo Futre, com aquela irreverência, aquela velocidade, aquele talento absolutamente eletrizante, se cada finta sua circulasse pelo planeta inteiro segundos depois de acontecer?

Depois daquele Mundial de 1991 comecei a acompanhar a Seleção ainda mais de perto.

Ainda por lá andavam João Pinto e Veloso.

Surgiam Fernando Couto, Rui Barros, Paulo Sousa e Cadete.

E ainda havia Futre. Meu Deus, que jogador era Futre. Não me canso de dizer.

Depois chegaram à Seleção A aqueles miúdos que eu tinha visto serem campeões do mundo.

Figo.

Rui Costa.

João Vieira Pinto.

Jorge Costa.

E ainda hoje me lembro daquele remate de Figo contra Inglaterra no Euro 2000. Aquela bomba que deixou David Seaman pregado ao relvado.

Ou daquele golo de Rui Costa contra a Inglaterra no Euro 2004. Ainda hoje me arrepio.

Depois vieram Vítor Baía, Sérgio Conceição, Costinha, Pauleta, Nuno Gomes, Simão, Deco, Ricardo Carvalho, Miguel, Maniche, Tiago, Ricardo Quaresma, Raul Meireles.

Depois Pepe.

Nani.

João Moutinho.

E depois Bernardo Silva, Bruno Fernandes, Rúben Dias, João Cancelo, Vitinha e tantos outros.

E no meio desta extraordinária história apareceu Cristiano Ronaldo.

Provavelmente o melhor jogador português de sempre. Seguramente o mais internacional. O melhor marcador da história da nossa Seleção. Um dos maiores futebolistas que o mundo alguma vez viu.

Mas um deles.

Talvez o maior.

Mas não o único.

Um intérprete extraordinário de uma história coletiva.

Porque futebol sem coletivo não é futebol.

Cristiano Ronaldo não é proprietário da Seleção Nacional.

Nunca foi.

Nos últimos anos parece ter-se instalado uma espécie de religião.

Ou se defende Cristiano Ronaldo em tudo, sem reservas, ou se passa imediatamente a fazer parte do grupo dos ingratos, dos invejosos, dos que o odeiam.

Não se pode criticar.

Não se pode questionar.

Não se pode simplesmente dizer: «Aqui esteve mal.»

E quando ouvimos alguns dos seus defensores falar da Seleção, a sensação é quase surreal.

Parece que Portugal jogou vinte anos com onze Ronaldos.

Cristiano defendia.

Cristiano recuperava bolas.

Cristiano assistia.

Cristiano marcava.

Cristiano ia à baliza.

Cristiano treinava.

Cristiano apanhava as bolas.

No fim apagava as luzes do balneário.

E provavelmente ainda conduzia o autocarro até ao hotel.

Não.

Cristiano Ronaldo foi absolutamente fundamental para Portugal durante duas décadas.

Negá-lo seria intelectualmente desonesto.

Mas Pepe também lá estava.

Ricardo Carvalho também.

Deco também.

Figo também.

Nani também.

Quaresma também.

João Moutinho também.

Rui Patrício também.

Bruno Alves, José Fonte, Raphaël Guerreiro, Renato Sanches e tantos outros também.

Em 2016.

Eu já vivia em Macau.

E um emigrante sente o seu país de forma diferente.

Não digo que o sinta mais.

Nem menos.

Sente-o de outra maneira.

Era 10 de julho de 2016.

Em Macau já ia madrugada dentro.

Lembro-me perfeitamente de estar num pequeno café por baixo de minha casa, do meu amigo Nelson, rodeado por alguns portugueses e macaenses.

Como sofremos naquela noite.

Portugal chegou à final depois de uma competição duríssima. Empatámos os três jogos da fase de grupos. Em sete partidas, vencemos apenas uma dentro dos 90 minutos.

Cristiano marcou três golos e foi importantíssimo.

Também isso faz parte da verdade.

Mas, na final, Ronaldo saiu lesionado aos 25 minutos.

Portugal perdeu a sua maior estrela.

E depois aconteceu algo que talvez alguns tenham esquecido.

Portugal continuou.

Em casa do adversário.

Continuou.

Defendeu.

Sofreu.

Resistiu.

Lutou.

E aos 109 minutos apareceu um homem chamado Éder.

Recebeu a bola.

Avançou.

Rematou.

Golo.

Éder.

Não Cristiano Ronaldo.

Éder.

O herói improvável.

O homem em quem quase ninguém apostava.

O homem que colocou milhões de portugueses a chorar.

Em Macau, do outro lado do mundo, eu também chorei.

Que orgulho.

Que alegria.

Que sensação maravilhosa foi, nos dias seguintes, chegar ao trabalho e ser português.

A distância não apagava nada.

Talvez até ampliasse tudo.

E é por isso que me incomoda quando hoje se diz que «Cristiano Ronaldo nos deu o Europeu».

Não.

Portugal ganhou o Europeu.

Rui Patrício ganhou o Europeu.

Cédric ganhou.

Pepe ganhou.

José Fonte ganhou.

Raphaël Guerreiro ganhou.

William Carvalho ganhou.

Renato Sanches ganhou.

André Silva ganhou.

João Mário ganhou.

Nani ganhou.

João Moutinho ganhou.

Quaresma ganhou.

Éder ganhou.

Cristiano Ronaldo ganhou.

E todos aqueles que nem sequer entraram em campo naquela noite também fizeram parte daquela conquista.

Foi Portugal que ganhou.

Essa é a beleza de uma equipa.

Todos contam.

E, por vezes, aquele de quem menos esperamos torna-se o herói.

Respeitar o passado não é dar-lhe um lugar cativo

Cristiano Ronaldo tem hoje 41 anos.

Isso não apaga nada.

Os cinco Bolas de Ouro continuam lá.

Os golos pelo Manchester United, Real Madrid, Juventus e Portugal continuam nos livros.

Os recordes continuam lá.

A história está escrita.

E ninguém sério pretende apagá-la.

Mas existe uma diferença gigantesca entre respeitar a história e conceder à história um lugar cativo no presente.

No futebol não existem lugares cativos.

Ou pelo menos não deveriam existir.

Cristiano Ronaldo deve jogar se o selecionador entender que, naquele jogo, naquele sistema, naquele momento e perante aquele adversário, é a melhor solução para Portugal.

Exatamente como qualquer outro.

A titularidade depende da forma.

Da táctica.

Do adversário.

Do comportamento.

Do profissionalismo.

Do rendimento.

Da dinâmica que um jogador cria com os companheiros.

Não depende do nome.

Muito menos do currículo.

Durante demasiado tempo não senti que fosse assim com Roberto Martínez.

E isso fez mal à Seleção.

Águas passadas.

Quando Ronaldo quis sair do Manchester United, fê-lo convencido de que ainda teria um lugar de protagonista na elite europeia.

O mercado respondeu.

O grande clube europeu disposto a oferecer-lhe esse papel não apareceu.

Ronaldo seguiu então outro caminho.

A Arábia Saudita.

É legítimo.

Mas não podemos fingir que disputar o campeonato saudita aos 41 anos equivale a jogar todas as semanas na Premier League, La Liga, Bundesliga ou Champions ao mais alto nível.

Se Cristiano Ronaldo fosse hoje ainda o melhor jogador do mundo, ou o segundo, o terceiro ou o quarto, estaria provavelmente no Real Madrid, Barcelona, Bayern, Liverpool, Arsenal, Manchester City ou noutro clube desse patamar.

Mas não está.

Está no Al-Nassr.

E isso não diminui aquilo que foi.

Apenas diz alguma coisa sobre aquilo que é hoje.

E chegamos então ao episódio recente.

Cristiano Ronaldo não foi titular frente à Noruega.

Aqueceu.

Não entrou.

Não gostou.

E abandonou o estágio da Seleção Nacional.

Pode haver conversas que desconhecemos.

Pode haver promessas que terão sido feitas.

Pode haver coisas mal explicadas.

Cristiano anunciou que, a seu tempo, contará a sua verdade.

Quando falar, ouvirei.

Claro que ouvirei.

Mas há um facto que nenhuma versão futura poderá alterar:

quando a Seleção continuava concentrada e ainda tinha jogos para disputar, o capitão decidiu ir embora.

Os colegas ficaram.

Ele saiu.

E para mim isso pesa.

Muito.

Porque de Cristiano Ronaldo, precisamente por ser Cristiano Ronaldo, eu esperava mais.

Esperava que, com 41 anos, depois de mais de duas décadas de Seleção, fosse ele a ensinar aos mais novos aquilo que significa representar Portugal mesmo quando não se joga.

Esperava que colocasse o braço sobre Gonçalo Ramos e lhe dissesse:

«Vai. Marca dois. Eu estou aqui contigo.»

Isso seria liderança.

Isso seria grandeza.

Isso seria transformar uma carreira extraordinária num legado ainda maior.

Porque ser capitão quando o nosso nome aparece sempre no onze inicial é relativamente fácil.

Ser capitão quando se fica no banco é que revela verdadeiramente o capitão.

E esta dificuldade de Cristiano Ronaldo em aceitar que pode deixar de ser a primeira opção não nasceu ontem.

Em 2022, no Manchester United, Erik ten Hag confirmou que Ronaldo se recusou a entrar como suplente frente ao Tottenham.

Saiu antes do final.

Foi afastado do jogo seguinte.

No Mundial desse mesmo ano houve tensão quando Fernando Santos o colocou no banco.

Agora surgiu Jorge Jesus.

Novo treinador.

Nova situação em que Cristiano deixa de ser automaticamente titular.

Novo conflito.

Podemos continuar a chamar a isto «mentalidade vencedora».

Mas começa a ser necessária muita imaginação.

Existe uma linha que separa a ambição da incapacidade de aceitar que, numa equipa, quem decide quem joga é o treinador.

Se há queixinhas, diga-as quem as tem

E entretanto apareceu novamente Piers Morgan.

Curioso.

O mesmo Piers Morgan.

Amigo de Cristiano Ronaldo, surgiu agora a garantir que Jorge Jesus teria feito determinados compromissos ao jogador e que depois não os teria cumprido.

Pode ser verdade.

Pode não ser.

Eu não estava nessas conversas.

Piers Morgan, tanto quanto sei, também não.

Mas para mim existe aqui uma questão ainda mais simples.

Se Cristiano Ronaldo considera que Jorge Jesus lhe mentiu, que o enganou, que lhe faltou à palavra ou que o desrespeitou, então diga-o.

Cristiano Ronaldo.

Com o seu nome.

Com a sua voz.

De frente.

Não precisa de mandar recados através do amigo Piers Morgan.

Sobretudo porque já vimos este filme.

Em 2022 foi precisamente Piers Morgan o escolhido para a entrevista em que Ronaldo ajustou contas com Erik ten Hag e com o Manchester United.

Disse então que não respeitava o treinador porque, segundo ele, o treinador também não o respeitava.

Pouco depois, saiu do Manchester United.

Uma vez é uma entrevista.

Duas vezes começa a parecer um método.

E um homem cuja imagem foi construída durante décadas sobre coragem, determinação, frontalidade e capacidade de enfrentar tudo e todos não precisa certamente de um jornalista inglês para lhe servir de porta-voz.

Quem tem queixas, que tenha também coragem para as dizer pela própria boca.

Sobretudo quando é capitão de Portugal.

Depois aconteceu aquilo que o futebol costuma fazer às teorias sobre homens insubstituíveis.

Portugal entrou em campo.

Sem Cristiano Ronaldo.

E jogou.

Ganhou.

Voltou a ganhar.

Qualificou-se.

Isto prova que Portugal é melhor sem Ronaldo?

Não.

Seria tão intelectualmente desonesto afirmá-lo como dizer que Portugal só sabe jogar quando Cristiano está em campo.

Prova apenas uma coisa muito mais simples:

Portugal consegue continuar sem ele.

Como continuou depois de Eusébio.

Depois de Futre.

Depois de Figo.

Depois de Rui Costa.

E como um dia continuará depois de Bruno Fernandes, Bernardo Silva ou Vitinha.

É assim que funciona o futebol.

Os jogadores passam.

A camisola fica.

E quando Pedro Proença transforma aquilo que aconteceu num «mal-entendido», confesso que fico perplexo.

Porque se um capitão abandona uma concentração depois de não jogar e, poucos dias depois, tudo é reduzido a um simples mal-entendido, então é legítimo perguntar onde acabam as regras e onde começa o estatuto.

Uma Seleção não pode ter 25 jogadores sujeitos às decisões do treinador e um 26.º com direito de veto emocional sobre essas decisões.

Até um cabelo

Talvez pareça insignificante, mas lembro-me daquele episódio no Mundial de 2022 contra o Uruguai.

Bruno Fernandes cruzou.

A bola entrou.

Cristiano festejou convencido de que lhe tinha tocado.

Discutiu-se de quem era o golo.

Analisaram-se imagens.

Falou-se de sensores.

Falou-se do cabelo de Ronaldo.

No fim, o golo foi atribuído a Bruno Fernandes.

E Bruno disse algo muito mais importante do que saber a quem pertencia estatisticamente o golo: pareceu-lhe que Ronaldo tinha tocado, mas pouco interessava.

Portugal tinha marcado.

É isto.

Portugal marcou.

Porque numa Seleção deveria existir primeiro o nome escrito na frente da camisola.

Só depois aquele que está escrito nas costas.

Sobre o selecionador. O selecionador não é funcionário do capitão

Um selecionador nacional não existe para proteger o ego da sua maior estrela.

Existe para escolher aqueles que considera serem os melhores onze para ganhar um jogo.

Pode escolher Ronaldo.

Pode colocá-lo no banco.

Pode lançá-lo aos 60 minutos.

Pode nem sequer utilizá-lo.

Chama-se treinar.

Jorge Jesus pode vir a ganhar tudo.

Pode não ganhar absolutamente nada.

Isso veremos.

Mas há uma coisa que afirmou nesta polémica com a qual concordo totalmente:

as regras têm de ser iguais para todos.

Ronaldo incluído.

Porque quando existe um jogador cuja possível reação condiciona antecipadamente uma decisão do treinador, a Seleção deixou de ter um selecionador.

Passou a ter um gestor de susceptibilidades.

Justiça para Cristiano Ronaldo. Mas justiça também para Portugal

É precisamente isto que defendo.

Justiça.

Justiça para Cristiano Ronaldo.

Que lhe sejam reconhecidos todos os golos.

Todos os recordes.

Todos os títulos.

O profissionalismo.

A longevidade extraordinária.

O sacrifício.

A dedicação.

Tudo aquilo que deu a Portugal.

Que um dia saia pela porta grande.

Que seja homenageado.

Que um estádio inteiro se levante para o aplaudir.

Eu também me levantarei.

Eu também aplaudirei.

Mas façamos justiça aos outros.

A Eusébio.

A Coluna.

A Chalana.

A Futre.

A Figo.

A Rui Costa.

A João Pinto.

A Fernando Couto.

A Pauleta.

A Deco.

A Ricardo Carvalho.

A Pepe.

A Nani.

A Quaresma.

A Rui Patrício.

A Bruno Fernandes.

A Bernardo Silva.

E até ao Éder.

Sobretudo ao Éder.

Porque naquela noite de 10 de julho de 2016, quando Cristiano Ronaldo já não podia jogar, foi um homem de quem quase ninguém esperava nada que rematou de fora da área e colocou Portugal inteiro a chorar.

Essa é a extraordinária beleza de uma equipa.

O herói pode ser qualquer um.

E volto, por fim, àquele miúdo de 17 anos.

30 de junho de 1991.

Velho Estádio da Luz.

Mais de 120 mil portugueses.

Figo marca o seu penálti.

Rui Costa marca o último.

Portugal é campeão do mundo.

E eu descubro ali uma paixão que nunca mais me abandonou.

Passaram 35 anos.

Mudaram os jogadores.

Mudaram os treinadores.

Mudaram os estádios.

Mudou o futebol.

Eu próprio mudei.

Saí de Portugal.

Fui viver para o outro lado do mundo.

Mas há uma coisa que não mudou.

O significado daquela camisola.

Portugal.

Não Eusébio.

Não Futre.

Não Figo.

Não Ronaldo.

Portugal.

Cristiano Ronaldo foi um dos maiores intérpretes da história do futebol português.

Talvez o maior de todos.

E é precisamente por ter sido tão grande que custa ainda mais vê-lo incapaz de aceitar aquilo que todos os grandes jogadores acabam, mais cedo ou mais tarde, por ter de aceitar:

que o tempo passa.

Que surgem outros.

Que às vezes se joga.

E outras vezes se fica no banco.

Que um treinador pode errar.

Mas continua a ser ele quem decide.

E que nenhuma carreira, por mais extraordinária que seja, pode colocar um homem acima da equipa.

Porque nenhum jogador é maior do que a camisola que veste.

Nenhum.

E se Cristiano Ronaldo, um dos maiores intérpretes de sempre deste maravilhoso jogo coletivo, chegou ao ponto de entender que só vale a pena participar quando o jogo gira à sua volta, talvez tenha escolhido a modalidade errada para terminar a carreira.

Porque o futebol joga-se com onze.

E se quer que o cronómetro, a distância, o recorde e a vitória dependam apenas dele…

há sempre o atletismo.

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