Há coisas que custam a escrever.
Esta é uma delas.
Durante grande parte da minha vida adulta estive politicamente mais próximo do PSD do que de qualquer outro partido. Não apenas eleitoralmente. Durante vários anos fui mesmo militante, com filiação partidária, cartão e tudo aquilo a que se tem direito quando ainda acreditamos que os partidos representam ideias antes de representarem lugares.
Por isso escrevo isto com algum desconforto, mas também sem qualquer dificuldade:
este PSD envergonha-me.
Precisamente porque já dificilmente reconheço nele aquilo que durante tantos anos me fez estar mais próximo do PSD.
Há um fenómeno curioso na política portuguesa. Os partidos chegam ao poder prometendo fazer diferente e, algum tempo depois, começam misteriosamente a imitar aqueles que passaram anos a criticar.
É uma espécie de mimetismo político.
O camaleão muda de cor para sobreviver.
Em Portugal, aparentemente, muda-se de partido para continuar tudo mais ou menos na mesma.
E começo a suspeitar que Luís Montenegro decidiu estudar cuidadosamente os últimos anos de António Costa, não para perceber aquilo que devia evitar, mas para preparar uma espécie de manual de instruções.
“Como perder a confiança dos portugueses em dez lições.”
O PS recebeu uma maioria absoluta em 2022: 41,37% dos votos e 120 deputados. Dois anos depois estava reduzido a cerca de 28%.
Na minha leitura, houve um momento em que o PS começou a acreditar que maioria absoluta significava razão absoluta.
Deixou de ouvir.
Deixou de explicar.
Começou a governar com aquela maravilhosa convicção política de quem pensa:
“Eles reclamam agora, mas depois esquecem-se.”
Ora, às vezes não esquecem.
E o mais extraordinário é ver o PSD de Luís Montenegro cometer exatamente o mesmo erro — com uma pequena diferença: nem maioria absoluta tem.
**** Luís Neves e a extraordinária arte de não perceber o problema
O caso Luís Neves é provavelmente o melhor exemplo.
Convém separar as coisas, porque hoje em dia parece que ou se considera alguém culpado de todos os pecados do Código Penal ou se é obrigado a achar que deve continuar ministro até à reforma.
Eu não sei se Luís Neves cometeu algum crime.
Não sou juiz.
Não sou procurador.
E ainda bem.
Mas sei uma coisa: politicamente, considero eu e mais de 60% dos portugueses, que Luís Neves já não reúne condições para continuar como ministro da Administração Interna.
Responsabilidade política e responsabilidade criminal não são a mesma coisa.
Parece uma evidência.
Mas em Portugal as evidências precisam frequentemente de comissão parlamentar para serem descobertas.
Luís Neves foi diretor nacional da Polícia Judiciária entre 2018 e 2026. Nos últimos meses surgiram sucessivas notícias e dúvidas relacionadas com decisões tomadas durante esse período, incluindo adjudicações da PJ à Construbarcelos, empresa que realizou também obras numa propriedade da família de Luís Neves. O primeiro-ministro, ainda assim, reiterou no Parlamento a sua “confiança total e plena” no ministro.
Até aqui, tudo legítimo.
Montenegro confia.
Eu não confiaria politicamente.
Vivemos numa democracia e cada um fica com a sua opinião.
O problema começa quando aparece a palavra que aparentemente provoca urticária em São Bento:
investigar.
O Chega apresentou uma Comissão Parlamentar de Inquérito potestativa à gestão de Luís Neves na Polícia Judiciária.
José Pedro Aguiar-Branco recusou-a.
Disse que o objeto era demasiado amplo, que faltava delimitação e que uma CPI não pode ficar habilitada a escrutinar genericamente oito anos de atividade de uma pessoa.
O JPP apresentou outra, bastante mais delimitada, centrada sobretudo nos procedimentos de contratação pública e nas adjudicações à Construbarcelos.
Essa foi aceite.
Legalmente haverá certamente muitos constitucionalistas capazes de escrever 400 páginas sobre as diferenças.
Eu, como sou uma pessoa simples, fico com uma pergunta simples:
se há dúvidas, porque é tão difícil investigar?
Ainda mais curioso: como vai votar o parlamento a CPI do JPP.
O PS por exemplo?
O PS anunciou que votará contra.
Sim, leu bem.
O principal partido da oposição decidiu ajudar a inviabilizar uma comissão de inquérito relativa a um ministro de um Governo PSD/CDS.
Portugal é realmente um país extraordinário.
Até a oposição ajuda o Governo a não ser incomodado.
Se isto continuar assim, qualquer dia o Parlamento transforma-se num condomínio:
PSD e PS discutem muito nas reuniões, mas quando aparece alguém de fora a querer ver as contas do prédio descobrem subitamente que são todos primos.
E depois perguntam porque cresce o populismo.
**** Os rabos de palha continuam inflamáveis
Já escrevi anteriormente sobre a extraordinária arte portuguesa de esconder os rabos de palha.
Continuo a achar que, na política portuguesa, o problema raramente é existir rabo de palha.
O verdadeiro problema começa quando alguém aparece com um isqueiro.
No PS havia rabos de palha.
Muitos.
No PSD também há.
E talvez seja precisamente por isso que, quando chega a altura de levantar determinadas pedras, aparece sempre alguém muito preocupado com as regras sobre o tamanho permitido da pá.
Não estou a afirmar que existe qualquer conspiração entre PSD e PS.
Seria absurdo.
Eles conseguem fazer isto tudo perfeitamente às claras.
**** Mudam os protagonistas, ficam os “casos e casinhos”
Lembram-se dos famosos “casos e casinhos” dos anos de António Costa?
Pareciam episódios de uma série portuguesa que nunca chegava ao último capítulo.
Quando um desaparecia dos telejornais, aparecia outro.
Depois veio a Operação Influencer.
Buscas em São Bento.
João Galamba no centro de uma crise política.
E, para dar aquele toque tipicamente português que nenhum argumentista conseguiria inventar, 75.800 euros encontrados no gabinete de Vítor Escária, chefe de gabinete de António Costa, escondidos em livros e caixas de vinho.
Caixas de vinho.
Há países onde os escândalos políticos envolvem contas secretas em paraísos fiscais.
Nós damos sempre um toque nacional.
Se algum dia aparecer dinheiro escondido dentro de um bacalhau, teremos finalmente completado a portugalidade.
Depois chegou o PSD.
Respirámos fundo.
Agora é que seria diferente.
E apareceu a Spinumviva.
A empresa da família Montenegro originou meses de explicações, dúvidas sobre clientes, serviços prestados, declarações de interesses e incompatibilidades. É importante dizer que as averiguações realizadas acabaram arquivadas e o Ministério Público concluiu não existir notícia da prática de ilícito criminal.
Ótimo.
Ainda bem.
Mas politicamente o problema nunca foi apenas saber se havia crime.
Foi observar novamente aquele método tão conhecido dos portugueses:
primeiro desvaloriza-se.
Depois explica-se parcialmente.
Depois acusa-se quem pergunta.
Depois explica-se outra vez.
Depois garante-se que está tudo esclarecido.
E finalmente descobre-se que ainda falta esclarecer qualquer coisinha.
Onde é que já vimos este filme?
Pois.
E enquanto brincamos aos casos, alguém tem de pagar o gasóleo
Há, porém, um pequeno problema.
Enquanto a classe política discute CPIs, requerimentos, despachos, constitucionalistas e interpretações regimentais, existe um país cá fora.
E esse país tem de trabalhar.
Tem de pagar casa.
Tem de ir ao supermercado.
E, em muitos casos, tem de meter combustível no carro para conseguir chegar ao trabalho.
Em setembro, os combustíveis ultrapassaram novamente a barreira dos dois euros por litro. Numa única semana chegaram a ser antecipadas subidas de 12 cêntimos na gasolina e 15 cêntimos no gasóleo; o gasóleo atingiu mesmo valores próximos de máximos históricos.
A 16 de setembro, a própria ENSE apresentava um preço de referência de 2,065 euros por litro para o gasóleo.
Façamos uma conta muito pouco científica, mas bastante próxima da vida real.
O salário mínimo nacional em 2026 é de 920 euros.
Um trabalhador que percorra cerca de 30 quilómetros por dia útil num automóvel perfeitamente normal, com um consumo de 6,5 litros aos 100 quilómetros, pode aproximar-se dos 90 euros mensais apenas para fazer esse percurso.
Quase 10% do salário mínimo.
Só para conseguir ir trabalhar.
Ainda não comeu.
Ainda não pagou a renda.
Ainda não pagou a prestação da casa.
Ainda não pagou eletricidade, água, telecomunicações ou os cadernos dos filhos.
Mas calma.
Há boas notícias.
O Parlamento está a discutir se uma Comissão Parlamentar de Inquérito tem vírgulas a mais.
A vida melhora imediatamente.
**** Aguiar-Branco e o fantasma de Santos Silva
E faltava uma personagem para completar esta nova versão do antigo PS.
O Presidente da Assembleia da República.
José Pedro Aguiar-Branco.
Confesso que sempre tive uma imagem institucionalmente positiva de Aguiar-Branco.
Talvez por isso me desiluda particularmente aquilo que considero ser uma dualidade de critérios na questão da CPI a Luís Neves.
E aqui começa outra semelhança desconfortável.
Durante os últimos anos do PS, Augusto Santos Silva deixou demasiadas vezes a sensação — justa ou injusta — de que a presidência da Assembleia da República já não era apenas arbitragem institucional.
Transformou-se também em protagonista do combate político.
E todos sabemos como terminou.
Nas legislativas de 2024, Augusto Santos Silva falhou a eleição como deputado e deixou o Parlamento. Ele próprio disse não acreditar que os confrontos que manteve com André Ventura tivessem influenciado o resultado. Não tenho qualquer razão para afirmar o contrário.
Mas há uma lição que talvez mereça ser retirada:
o Presidente da Assembleia da República ganha quando aparece pouco e perde quando começa a tornar-se parte da notícia.
Aguiar-Branco deveria pensar nisso.
Não precisa de ser Augusto Santos Silva pintado de laranja.
Portugal já teve o original.
Não necessita de remake.
O problema não é a cor. É o vício.
É isto que mais me incomoda neste PSD.
Não é ser demasiado de direita.
Não é ser demasiado de esquerda.
É começar a parecer-se demasiado com aquilo que prometeu substituir.
O PS habituou-se ao poder.
Começou a confundir estabilidade com impunidade política.
Maioria com razão.
Crítica com perseguição.
Perguntas com ataques.
E acabou por pagar eleitoralmente um preço elevado.
O PSD deveria ter aprendido.
Em vez disso, parece empenhado numa extraordinária experiência política:
repetir os mesmos erros e esperar um resultado diferente.
Spinumviva.
Luís Neves.
CPIs bloqueadas.
Combustíveis acima dos dois euros.
Um Governo progressivamente mais fechado sobre si próprio.
E um Presidente da Assembleia que começa a descobrir o gosto de ser protagonista.
Mudam os nomes.
Mudam as cores.
Mudam os slogans.
O guião, esse, começa perigosamente a parecer o mesmo.
Passei muitos anos politicamente próximo do PSD.
Fui militante do PSD.
E talvez seja precisamente por isso que isto me incomoda mais.
Eu não queria um PS laranja.
Queria uma alternativa.
Porque para governar como governava o PS…
já tínhamos o PS.



