Faleceu António Júlio Vaz Saraiva, o guardião do património histórico e cultural de Seia (atualizada)

[atualização]
O corpo está na Casa Mortuária da Igreja da Nossa Senhora do Rosário. O funeral realiza-se hoje às 14h30 para o cemitério de Seia

Seia despede-se de uma das suas figuras mais marcantes no campo da cultura e da salvaguarda do património. Desenhador, fotógrafo e antigo chefe de secção da Empresa Hidro-Eléctrica da Serra da Estrela (EHESE), António Júlio Vaz Saraiva dedicou décadas de vida a registar e valorizar a identidade da sua terra natal.

Faleceu António Júlio Vaz Saraiva, figura incontornável da vida cultural de Seia. Nascido a 9 de maio de 1928, António Júlio Vaz Saraiva deixa um legado vastíssimo que se funde com a própria história do concelho no último século. Profissionalmente, ligou o seu nome à Empresa Hidro-Eléctrica da Serra da Estrela (EHESE), onde ingressou aos 16 anos como desenhador, vindo a reformar-se como chefe da secção de desenho.

António Júlio Vaz Saraiva foi homenageado em diversas exposições coletivas ao longo da vida, destacando-se a sua participação na Exposição Nacional de Desenho (1996) e nas Coletivas de Artistas Senenses.
Figura central na valorização do património local, foi distinguido, em 2009,no feriado Municipal de Seia, a 3 de julho, com a Medalha de Mérito e Dedicação pelo Município de Seia.

Um percurso dedicado às artes e às letras

A sua atividade cultural começou cedo. Em 1946, com apenas 18 anos, co-fundou o semanário juvenil “O Viriato”, em conjunto com o seu amigo Hermano Marques dos Santos, um projeto audaz editado em papel heliográfico. Foi também o diretor artístico de “A Voz dos Novos” nos anos 50 e um colaborador assíduo da imprensa local (Voz da Serra, Jornal de Santa Marinha e Porta da Estrela), onde os seus cartoons e ilustrações frequentemente espelhavam a atualidade e a alma senense.

A sua obra artística é indissociável de Seia. Em 1964, desenhou o Mapa Turístico da Serra da Estrela para a Residência Serra da Estrela, que tinha sido inaugurada em Seia, no edifício hoje ocupado pela Caixa de Crédito Agrícola. Em 1996, concebeu o emblemático painel de azulejos da Fonte Nova, na Avenida 1.º de Maio. Como ilustrador, deu vida visual às palavras do poeta Fernando de Melo Sequeira Mendes em obras como “Seia, Terra que Canto” e para a rúbrica Figuras e Figurões”, publicada no Jornal de Santa Marinha, nos anos 90, da qual resultou o livro “Figuras e Figurões” – 25 figuras senenses, tratadas em verso por Sequeira Mendes e caricaturadas por Júlio Vaz Saraiva (1999).

Defensor do património histórico

Mais do que um artista, António Júlio Vaz Saraiva foi um estudioso da memória local. Através do desenho, resgatou do esquecimento recantos e lugares desaparecidos. O seu rigor técnico foi fundamental em projetos de restauro e investigação histórica, tais como: o Pelourinho de Loriga (1998), tendo elaborado o projeto de reconstrução baseado em descrições históricas e o Pelourinho de Seia, onde efetuou o levantamento técnico que permitiu esclarecer a forma original do monumento primitivo.

Fotografia e colecionismo

Como fotógrafo amador desde a década de 40, participou em diversos concursos nacionais, acumulando um espólio fotográfico de valor incalculável que serve hoje como testemunho visual da evolução do concelho e da região.

A sua partida deixa um vazio na comunidade artística e na defesa do património da Serra da Estrela, mas a sua obra permanece gravada nos livros, nos jornais e no espaço público de Seia, cidade que tanto amou e ajudou a promover.
*in Sérgio Reis

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