Publicidadespot_imgspot_img

Loriga recordou a tragédia de 1927 na apresentação do livro “O Inverno do Tifo”

Salão Paroquial encheu-se para uma sessão que reuniu historiadores, médicos, representantes institucionais e população em torno da memória da epidemia que marcou a história da vila.

O Salão Paroquial de Loriga registou uma expressiva afluência de público para a apresentação da obra O Inverno do Tifo – Loriga 1927, da autoria do jurista e investigador J. da Silva Amaro, num encontro que constituiu simultaneamente uma evocação histórica, uma reflexão científica e um tributo às vítimas da epidemia de tifo exantemático que assolou a vila durante o inverno de 1927.

A sessão reuniu diversas personalidades ligadas à história, à medicina, à cultura e às instituições locais, refletindo a relevância que o tema continua a assumir quase um século depois dos acontecimentos.

O painel foi composto pela historiadora Lúcia Moura, pelo médico da vila, António Nolasco, pelo engenheiro Eduardo Ambrósio, da Associação de Arte e Imagem de Seia, pelo historiador Moura Brito, pelo Presidente da Junta de Freguesia de Loriga, Luís Costa, pelo Presidente do Conselho de Administração da Fundação Cardoso de Moura, Rodrigo Amaro, pela Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Seia, Teresa Pereira, encerrando a sessão com a intervenção do autor.

Nas palavras de abertura foi destacada a importância da preservação da memória histórica de Loriga e do papel que a investigação desempenha na compreensão dos acontecimentos que marcaram profundamente a identidade da comunidade.

Um dos momentos mais relevantes da sessão foi a intervenção do médico António Nolasco, que conduziu a assistência numa viagem ao conhecimento médico da época. Explicou a natureza do tifo exantemático, a sua forma de propagação, as enormes limitações dos cuidados de saúde existentes na década de 1920 e o elevado número de vítimas provocado por uma doença que, antes do aparecimento dos antibióticos e de melhores condições sanitárias, representava uma das mais graves ameaças para as populações.

A dimensão humana da epidemia foi depois aprofundada pelas intervenções dos historiadores, Lúcia Moura e Moura Brito, que analisaram os seus efeitos para além da vertente clínica. Foram recordadas as dificuldades sociais vividas pelas famílias, o impacto económico sobre uma comunidade fortemente dependente da indústria e do comércio, as medidas administrativas adotadas para tentar conter o surto e o contexto político e institucional de Portugal na década de 1920. A epidemia foi, assim, apresentada não apenas como um acontecimento sanitário, mas como um fenómeno que alterou profundamente a vida quotidiana de Loriga.

Na sua intervenção, Eduardo Ambrósio destacou a qualidade da investigação e da construção literária da obra, considerando que esta constitui um contributo relevante para a preservação da memória histórica do concelho e da região. Dirigindo-se aos representantes institucionais presentes, lançou igualmente o desafio para que o livro mereça uma divulgação mais ampla, defendendo que o seu valor histórico e cultural justifica um maior reconhecimento público. Entre as propostas apresentadas, salientou mesmo a pertinência de ser ponderada uma edição especial da obra, de forma a reforçar a sua divulgação e a perpetuar a memória dos acontecimentos que marcaram Loriga em 1927.

Na intervenção da Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Seia, Teresa Pereira, foi sublinhada a importância de iniciativas culturais desta natureza para a valorização da história e da identidade do concelho. A responsável destacou que a cultura constitui um dos pilares da projeção do município e reafirmou o compromisso da Câmara Municipal em apoiar eventos que promovam o património histórico e cultural local. Manifestou ainda disponibilidade para colaborar na divulgação da obra e da memória da epidemia de 1927, incentivando a realização de apresentações, encontros e outras iniciativas em escolas, bibliotecas e espaços culturais do concelho, contribuindo para aproximar as novas gerações deste importante episódio da história regional.

Na sua intervenção, J. da Silva Amaro explicou o percurso de investigação que deu origem ao livro, desenvolvido ao longo de vários anos através da consulta de documentação histórica, imprensa da época, arquivos e testemunhos que permitiram reconstruir um dos episódios mais dramáticos da história local.

O autor salientou que a publicação surge num momento particularmente simbólico, antecedendo o centenário da epidemia, que será assinalado em 2027.

Mais do que recordar um episódio trágico, afirmou, o objetivo da obra é impedir que a memória coletiva se desvaneça com o passar das gerações.

“As comunidades vivem da sua memória. Quando esquecem o seu passado, perdem uma parte daquilo que são. Este livro pretende preservar a memória daqueles que sofreram, daqueles que combateram a doença e daqueles que, muitas vezes de forma silenciosa, permitiram que Loriga sobrevivesse a um dos períodos mais difíceis da sua história.”

Ao longo da apresentação foi igualmente destacado que o livro combina duas dimensões complementares. A primeira assenta numa investigação histórica rigorosa, sustentada em documentação e fontes primárias. A segunda desenvolve uma narrativa histórica que cruza personagens reais com personagens ficcionadas, procurando aproximar o leitor da realidade humana vivida durante aqueles meses de sofrimento, medo e esperança.

Após o encerramento da sessão, seguiu-se um prolongado momento de convívio, durante o qual o autor autografou exemplares da obra e conversou com os leitores, num ambiente marcado pela proximidade e pelo interesse suscitado pelo tema.

Com O Inverno do Tifo – Loriga 1927, J. da Silva Amaro acrescenta mais um importante contributo para a historiografia local, recuperando um episódio que marcou profundamente a comunidade loriguense e oferecendo às gerações presentes e futuras um testemunho rigoroso sobre uma das páginas mais dramáticas da sua história.

A proximidade do centenário da epidemia confere à publicação um significado ainda mais especial, transformando esta obra não apenas num livro de história, mas também num exercício de memória coletiva e de homenagem a todos aqueles que viveram os difíceis meses do inverno de 1927. As intervenções dos vários participantes convergiram, aliás, numa ideia comum: preservar a memória do passado é um dever para com as gerações futuras, e a cultura desempenha um papel essencial na construção dessa consciência coletiva.

» Onde comprar o Jornal de Santa Marinha «

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

A partir de hoje e até domingo, Lourosa, no concelho de Oliveira do Hospital recebe Feira Moçárabe de Lourosa. Uma viagem ao século X...

Lourosa, no concelho de Oliveira do Hospital, volta a ser palco de mais uma edição da Feira Moçárabe - um evento único no país...

Gouveia – Prisão preventiva por furto de cobre

O Comando Territorial da Guarda, através do Núcleo de Investigação Criminal (NIC) do Destacamento Territorial de Gouveia, deteve, no dia 5 de agosto, seis...

Aguincho vai estar em festa nos dias 14 e 15 de agosto

A localidade de Aguincho (Seia) prepara-se para receber mais uma edição da sua tradicional celebração anual. Organizada pela Associação Cultural, Recreativa e Social do...

Seia assinala a 12 de agosto o Dia Mundial da Juventude com apresentação do Plano Municipal da Juventude e programa de animação. Fernando Alvim...

Iniciativa convida os jovens a participar, dar a sua opinião e celebrar o Dia Mundial da Juventude antes do arranque das Festas do Concelho....

Cinema ao ar livre, com curtas-metragens do Sabugueiro, em plena serra da Estrela

“Curtas do Sabugueiro” é o nome da sessão de cinema ao ar livre, que vai decorrer no próximo dia 16 de agosto (domingo) à...

Região Centro acolhe três etapas da 87.ª da Volta a Portugal em Bicicleta, entre a costa atlântica e a Serra da Estrela. A 4.ª...

O Centro de Portugal volta a ter um papel de destaque na maior competição do ciclismo nacional. A 87.ª Volta a Portugal em Bicicleta...

Pedro Beja Neves apresenta “Uma Descoberta” no Posto de Turismo de Seia. JSM entrevistou o autor da exposição de pintura (vídeo)

A mostra, patente durante todo o mês de agosto com entrada livre, reúne obras inspiradas na paisagem e no abstracionismo subtil do economista e...

Curral do Negro em Gouveia apresenta novo site para descobrir a Serra da Estrela ao ritmo da natureza

Situado a cerca de 1.000 metros de altitude, entre árvores centenárias e vistas abertas sobre o Vale do Mondego, o Parque de Campismo do...