O Serviço de Urgência Básico (SUB) do Hospital Nossa Senhora da Assunção, em Seia, deu início ao projeto “A Urgência Além Portas”. A iniciativa, aprovada pelo Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde (ULS) da Guarda, visa estabelecer uma parceria estratégica com as Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI) do concelho para capacitar profissionais e racionalizar a utilização dos serviços de emergência.
A motivação central do projeto surgiu da observação diária das equipas de saúde: o elevado número de utentes provenientes de instituições que recorrem à urgência sem critérios clínicos de gravidade. Segundo os mentores do projeto, muitas destas situações poderiam ser resolvidas nas próprias instituições, que dispõem de recursos humanos e físicos para o efeito. “Atendendo que têm recursos humanos e físicos nas instituições, e havia muitas situações que podiam ser resolvidas a nível institucional. Temos que entender bem qual é o significado de um serviço de urgência. Muitas das vezes há muitos utentes que vêm das ERPI´s, sem justificação de verdadeiras urgências. O serviço de urgência é para situações urgentes ou mesmo emergentes, e não casos que podem ser resolvidos a nível institucional”, refere a enfermeira especialista Tânea Oliveira, um dos elementos mentores deste projeto.





O Médico Rafael Neves, assistente de MGF no serviço de urgência, e mentor do projeto, reforça a importância estratégica do projeto ao enquadrá-lo num desafio de saúde pública que afeta todo o país. Segundo o clínico, a iniciativa “vem ao encontro também do que existe no panorama nacional, a nível da questão das falsas urgências, que cada vez mais está em debate esse tema, e também aqui nós verificamos isso.”
Rafael Neves sublinha que a capacitação das instituições permitirá uma gestão muito mais eficiente dos meios disponíveis, evitando o desperdício de recursos que deveriam estar reservados para situações críticas. O médico destaca que a intervenção nas ERPI possibilitará identificar situações que podem ser tratadas sem deslocação hospitalar; diminuir a utilização desnecessária de ambulâncias e recursos do INEM e, também, poupar recursos humanos e materiais, garantindo que estes sejam canalizados para quem deles realmente necessita.
Para o responsável, o sucesso do projeto passa por esta mudança de paradigma, onde a eficácia do atendimento começa na origem, através de uma triagem e assistência inicial mais qualificada e capacitada dentro das próprias residências.
Formação prática e temas críticos
O projeto consiste em sessões de formação interativas, com duração aproximada de 1h45min a 2 horas, direcionadas a assistentes operacionais, enfermeiros, médicos e outros elementos das ERPI. O foco incide em quatro áreas críticas identificadas como as mais frequentes no recurso ao Serviço de Urgência Básico (SUB): Dispneia – sinais, sintomas e critérios de orientação para tratamento diferenciado; Alteração do Estado de Consciência – causas possíveis e abordagem inicial; Alterações Gastrointestinais – gestão de casos de obstipação, diarreia e vómitos e, ainda, Quedas – prevenção, fatores de risco e consequências.
No final de cada sessão, é fornecido um questionário de avaliação de conhecimentos e de satisfação, garantindo a eficácia da transmissão de informação.
Uma ponte de proximidade
Mais do que uma simples formação, o “A Urgência Além Portas” procura criar uma “ponte de ligação” e uma linguagem comum e simples entre o hospital e as instituições do concelho. “O objetivo é aumentar a segurança e o conforto dos utentes, evitando deslocações desnecessárias que podem, inclusive, expor os idosos a riscos adicionais, como infeções hospitalares. Nem sempre vir ao serviço de urgência é o melhor. As pessoas pensam que sim, mas muitas vezes não é, porque os doentes vêm até ao serviço de urgência e podem sair daqui com outra patologia adquirida nesse contacto”, salienta Rafael Neves.
Atualmente, a equipa do projeto é composta por 15 enfermeiros do Serviço de Urgência, pelo médico Dr. Rafael Neves, que coordena a iniciativa junto com a enfermeira Tânea Oliveira, ambos implementadores deste projeto, pioneiro na ULS Guarda e até mesmo a nível nacional.
Futuro e expansão
Com um parecer favorável da grande maioria das ERPI contactadas, o projeto já desperta interesse para lá das fronteiras do concelho. Devido ao perfil demográfico da região — marcado pelo envelhecimento e isolamento populacional — a equipa admite a possibilidade de expandir o modelo para concelhos vizinhos, como Gouveia e Oliveira do Hospital, desde que os resultados iniciais confirmem a eficácia da intervenção.
O projeto arrancou na passada quinta-feira, dia 14 de maio, na AHSC Pinhanços, já passou pela Fundação Dr. António Vieira em Folhadosa e vai percorrer as instituições aderentes tendo já a próximo agendamento dia 28 de maio na Residência Sénior Dona Emília.



