Liderança, precisa-se!

Um esforço de abstração permite-nos estabelecer uma comparação entre a atualidade e os tempos da guerra fria, e, se quisermos recuar no tempo e na História, o tempo da 2ª guerra mundial e, até, o tempo contemporâneo da queda do muro de Berlim e do desmembramento da “União Soviética”. Esse esforço de abstração permitirá encontrar uma característica comum aos diversos “tempos” que antecederam a atualidade e que parece estar ausente, hoje, do palco mundial.

Efetivamente, o que parece não existir hoje e existiu nos tempos que referi são – ou foram – as lideranças. Para o bem e para o mal, nos tempos da “guerra fria” existiam lideranças fortes que condicionavam e determinavam os destinos do mundo e de países, lideranças que procuravam “vender” ideologias ou formas de vida para conquistar o apoio de populações inteiras. Para o bem e para o mal, essas lideranças conseguiram encontrar equilíbrios que permitiram que o Mundo fosse evoluindo numa lógica que, também devido a lideranças fortes – na Polónia com Lech Walesa e na URSS com Mikhail Gorbatchov – acabou contrariada originando o desmembramento da União Soviética e a queda do Muro de Berlim. Mesmo a 2º grande guerra mundial foi consequência de uma liderança forte, um espírito inconformado que conseguiu liderar um processo de aglutinação coletiva e dirigi-lo para a guerra.

Os grandes saltos da humanidade enquanto comunidade sociocultural e política são, afinal, resultado da intervenção de lideranças fortes, ativas e resilientes. E os tempos atuais comparam no grande contraste face ao passado, mais e menos recente. É que, atualmente, não se descortinam lideranças, vivendo o Mundo um circunstancialismo estranho, com a “demissão” de importantes atores – caso da China, que prefere manter um neutralismo relativo face aos desvarios de Trump e Netanyau e apoia a Rússia por contraposição aos americanos. A diplomacia económica da China pode ser insuficiente se o ocidente ficar estrangulado com a continuação dos conflitos no Médio Oriente e as consequências que isso traz para as economias de todo o ocidente e não só.

Da União Europeia não se pode esperar nenhum processo de liderança porque continuará “atrelada” à América de Trump e Macron e Sánchez não parecem conseguir liderar processos capazes de aglutinar. Putin até parecia ir no bom caminho, quando se entendia com Merkel, e, entretanto, ia construindo uma teoria contra os americanos e a própria União Europeia, centrada na defesa do multilateralismo.

A invasão da Ucrânia e a suposta intromissão em eleições americanas deitou por terra as teorias de Putin uma vez que o que Putin contestava acabou por se concretizar com toda a plenitude em Trump: uma única superpotência a fazer o que bem lhe apetece em qualquer parte do Mundo! E Putin ao confinar a sua intervenção militar e política a um país vizinho demonstrou incapacidade ou desinteresse em influir no Mundo, de resto tal como Trump, cujo espírito aparentemente justiceiro apenas se limita a exibir força sem consistência argumentativa e com inconsequência de atitudes. Veja-se a Venezuela e o Irão, onde não fundamenta devidamente as intervenções e não tem um comportamento consequente.

O Mundo precisa de lideranças fortes, determinadas e sem reações, apenas, pontualmente temperamentais como de Lula da Silva, mas com uma ideia mobilizadora para o Mundo e para as relações entre os seus povos.

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