Finalmente, após mais um ano fora, regresso à minha terra, às minhas gentes, à minha casa. Seia. Infelizmente, ano após ano, o cenário repete-se. Faço a viagem entre Lisboa e Seia de carro, atento às notícias, porque os fogos que assolam a minha região podem sempre condicionar o meu trajeto.
Chego a Seia num dos dias das festas da cidade. Canceladas à última da hora, porque o fogo não permitia ter disponíveis todos os meios de segurança necessários. Prejuízos, mais uma vez, para os que mais necessitam e que investiram nestas festas para ter um retorno que não têm durante o resto do ano.
Um país que se diz europeu, moderno e digital… mas que continua a arder como uma fogueira de São João sem fim.
Ano após ano, a mesma lenga-lenga das televisões. É governo, é oposição (vão trocando de lugar), são jornalistas, pseudo-especialistas, chefes disto e diretores daquilo. É televisão cheia de homens de colete a dar entrevistas, e os coitados dos bombeiros, muitas vezes suportados pela população anónima, velhos e novos, a darem a vida — literalmente a vida — para salvar aquilo que é nosso.
Há sempre um repórter com ar compungido, um especialista de colete fluorescente e meia dúzia de políticos prontos a largar frases de plástico: “É preciso rever a estratégia”, “Nunca mais pode acontecer”. Ou outros, revoltados hoje porque a cor política no governo é diferente da sua, quando em anos anteriores pareciam cordeirinhos a abanar a cabeça ao seu chefe, a fumegarem em directo nas TVs sobre a culpa do governo — como se as autarquias não tivessem a sua quota de responsabilidade. Mas a isso já lá vamos.
Frases repetidas vezes sem conta, anos a fio, até ao ponto de já serem ignoradas de forma inconsciente pelas gentes do interior. Tornaram-se ruído de fundo, como quem muda de canal para fugir à publicidade.
Mas nada disto importa para a máquina mediática. O que interessa é o reality show: planos aéreos, lágrimas em close-up e comentários miseráveis de quem, sentado num estúdio lisboeta, acha por bem diagnosticar “problemas de saúde mental” às gentes do interior. Saúde mental? Dito por Sofia Rodrigues, jornalista na CNN. Peço a mais sincera desculpa ao leitor, mas apenas me apetece soltar um sincero: Ide-vos…
No interior não há histeria: há sobrevivência. Há velhos que ainda sabem usar as mãos para abrir valas de contenção, idosas com um ramo de giestas na mão a calcorrear os montes tentando proteger o pouco que têm, miúdos que aprendem cedo a diferença entre fumo branco e fumo negro, e famílias que perdem tudo sem nunca terem tido quase nada.
Mas o país oficial prefere a narrativa do espetáculo. Até porque, depois de apagadas as chamas, apagam-se também as câmaras. E nós? Nós ficamos cá. Com cinzas, com ruína, com promessas que se transformam em pó antes mesmo da primeira chuva.
E não nos enganemos: este abandono é político. É estrutural. É o resultado de décadas em que o interior só serve para duas coisas: votos baratos em época de eleições e cenários de tragédia em agosto. O resto do ano, somos invisíveis.
Vim de Lisboa pela A1 e, ao virar à direita para o IP3, lá estava ele: esse monumento à irresponsabilidade nacional. Uma estrada assassina, que já não se vê em país nenhum do mundo dito civilizado. Há mais de 40 anos que governos prometem novas e melhores vias de acesso a Seia e à nossa Serra. Tudo na mesma. A mesma curva cega, o mesmo asfalto gasto, a mesma espera pelo próximo acidente — infelizmente, muitas vezes mortal.
Promessas e mais promessas. E umas obras na Linha da Beira Alta que, supostamente, iriam durar 9 meses e já levam mais de 3 anos — sem fim à vista. Modernização, chamam-lhe. Parece mais mumificação.
O interior. Esse, o eterno esquecido.
Passada a silly season, ninguém quer saber se o próximo fogo já começou a ser preparado pelo mato abandonado, pelo despovoamento, pelas bermas de estrada: umas da responsabilidade das Estradas de Portugal, outras das autarquias, outras talvez dos Parques Naturais. Todas iguais, todas por limpar. Como se o Sr. Fogo, educado e cordato, passasse primeiro no balcão certo a perguntar: “com licença, posso arder aqui?”
E depois temos a famosa lei que obriga os privados a limpar os seus terrenos. Até até 30 de abril, não se esqueçam que as coimas são altas e um estado dessas nunca se esquece. Uma maravilha legislativa desenhada a régua e esquadro num escritório com vista para uma das grandes avenidas de Lisboa. Como se num interior desertificado, onde os poucos que restam mal têm dinheiro para comer e, na maioria já idosos, houvesse força ou milhares de euros disponíveis para pagar máquinas e empresas de limpeza.
Enquanto houver terra para arder, haverá televisão para transmitir. É a silly season portuguesa: a nós ardem-se-nos as entranhas, eles fazem share e vendem publicidade.
Um dia já não restará nada para arder. Só então perceberão que as cinzas não dão audiências.
O problema não é o fogo do verão. É o fogo lento do abandono, que nos consome todos os dias e que nenhum helicóptero apaga.






