Antes de sermos independentes, alguém teve de nos ensinar que o mundo é um lugar suficientemente seguro para existir. É isso que também devemos transmitir às crianças para que se tornem autónomas, seguras e confiantes.
Quem vive rodeado de crianças (ou quem trabalha com elas) vive muitas vezes focado em educar crianças autónomas, confiantes, capazes de resolver problemas e de tolerar a frustração. Mas, no meio de toda esta preparação, poucas são as pessoas que se questionam: “Estarei a fazer o que está ao meu alcance para que esta criança cresça emocionalmente segura?”
A resposta está na relação. Ninguém cresce sozinho.
Talvez um dos maiores erros da sociedade seja acreditar que a independência e a autonomia se constroem com base no afastamento. Na verdade, é exatamente o contrário. A verdadeira autonomia nasce da segurança das relações.
O ser humano nasce profundamente dependente e o cérebro de uma criança organiza-se na relação com o outro. Aquilo a que chamamos segurança emocional é uma experiência partilhada: uma experiência repetida de cuidado, compreensão e reciprocidade.
O desenvolvimento emocional não acontece de forma isolada; cresce na relação. Ainda assim, continuamos a ouvir frases como “tem de aprender sozinho” e a fingir que não precisamos uns dos outros, como se a dependência fosse um erro de desenvolvimento.
Criar vínculos não exige perfeição, mas sim presença, consistência e disponibilidade emocional. E é responsabilidade de todos nós transmitir esta mensagem.
Quando uma sociedade desvaloriza o cuidado, não afeta apenas os adultos, mas também a forma como as crianças crescem e se sentem no mundo.
Talvez seja tempo de repensarmos o tempo que passamos com os outros e o tempo que damos aos outros. Talvez estejamos demasiado preocupados em ensinar competências e pouco preocupados em preservar um dos pilares mais fundamentais do bem-estar humano: as relações.



