Oliveira Marques, um dos historiadores que mais estudou e escreveu sobre a vida e a obra de Afonso Costa, afirmou que ele foi “porventura, entre 1910 e 1930, o mais querido e o mais odiado dos Portugueses”.
Para se ter uma ideia da dimensão destes sentimentos para com Afonso Costa, um seu grande admirador, José Carneiro, um industrial nortenho, tinha em casa uma estátua em prata em tamanho natural, e um dos seus mais ferozes críticos, Homem Christo, considerado o maior panfletário português do século XX, chegou a ameaçá-lo de lhe dar um dia “uma cacetada”.
Mas, quer se queira quer não, este político senense é uma figura incontornável, sendo impossível escrever a história de Portugal dos períodos do fim da monarquia e início da república sem lhe fazer referência.
Também por isso, esteve bem o executivo da câmara municipal na recuperação do edifício da antiga escola primária e na sua reconversão naquele espaço temático cultural e, ainda melhor, no reposicionamento da estátua de Afonso Costa, erigida em 1981, numa cerimónia participada e sentida, durante o mandato de Jorge Correia, que proferiu um discurso cuja leitura recomendo, pela sua genuinidade e para memória do momento vivido.
Para muitos o CIRAC e a homenagem a Afonso Costa começa e acaba no dia da festa e nas fotografias do dia, onde aparecem como figurantes, mas é bom recordar e registar o caminho percorrido até aqui.
Recuemos 8 anos, a 2017, e mais propriamente a junho. Estamos em ano de eleições autárquicas, a CMS anuncia a criação do CIRAC e formaliza conversações para a cedência do espólio de um admirador de Afonso Costa.
Foi preciso esperar 4 anos para que essas conversações fossem conclusivas e para que em outubro de 2021, novamente ano de eleições locais, o então presidente da câmara, já eleito um novo executivo, promovesse uma visita ao local, num momento algo insólito, e durante o qual previa a abertura do CIRAC em maio do ano seguinte, no 85º aniversário da morte de Afonso Costa.
Filipe Camelo enganou-se, ou enganaram-no, pois foi necessário aguardar outros 4 anos, ou por novas eleições locais, para que, finalmente, se procedesse à abertura oficial do CIRAC, no passado dia 25 de março, a pretexto de comemorar um episódio menor, face à notável e preenchida vida de Afonso Costa e face ainda a outros episódios bem mais marcantes como, por exemplo e a verificar-se durante o corrente ano, o facto de se comemorar o centenário da sua presidência da delegação portuguesa na Sociedade das Nações, o embrião da ONU, instituição que viria a abandonar por ter sido demitido na sequência do golpe militar de 28 de maio de 1926.
Afonso Costa, querido e odiado em vida, exilado na vida e na morte, entre aqueles que o idolatraram e os que o perseguiram, ficam aqueles que dele se aproveitaram, na sua terra.
AFONSO COSTA RECORDADO DE 4 EM 4 ANOS. COINCIDÊNCIAS






