Ano Novo, Velhos Problemas, Novas Oportunidades

Deste lado do mundo, em Macau, a semana foi de festa. Celebrámos o Ano Novo Chinês — e, segundo o calendário lunar, entrámos no Ano do Cavalo, símbolo de movimento e avanço. Conceitos que, como veremos, nem sempre chegam à Serra da Estrela.

O Ano Novo Chinês segue outra coreografia: três dias de feriados oficiais e um conjunto de rituais que quase parecem uma engenharia da sorte. Em Macau, o 1.º, 2.º e 3.º dias do Ano Novo Lunar são mesmo feriados obrigatórios.

O primeiro dia é, tipicamente, o “dia da origem”: família, cumprimentos, comida simbólica, gestos de renovação e aquela ideia transversal de “começar bem” — porque, por aqui, acredita-se que o começo do ano é um contrato com o resto do calendário. O segundo dia costuma ser o “dia das visitas” (família alargada, sogros, amigos, vizinhos), e o terceiro dia já tem um travo mais pragmático: há quem o trate como o dia de respirar, organizar, preparar o regresso ao trabalho — e, claro, continuar a perseguir a sorte como se ela cedesse à insistência.

E depois há o lado logístico que a Europa raramente imagina: o Ano Novo Chinês é o maior movimento migratório anual do planeta, a famosa Chunyun. Durante semanas, centenas de milhões deslocam-se em simultâneo, pressionando comboios, aeroportos e estradas. Imaginem um país com 1,4 mil milhões de habitantes quase inteiro em viagem, todos a querer chegar ao seu destino no mesmo dia.

E é aqui que faço a ponte — com respeito, mas também com ironia. Porque a vida precisa das duas coisas. Li, mais uma vez, que os acessos à Torre estavam encerrados por causa da neve — uma tradição invernal que me acompanha desde a infância. Neva na Serra, fecha-se a estrada. E todos os anos nos explicam, com ar sério, que a Serra da Estrela tem “características próprias”, como se a neve fosse um fenómeno exclusivo nosso.

Não sou especialista em meteorologia, nem em engenharia rodoviária, nem em gestão de montanha. Mas há algo que se repete com precisão suíça: a única estância de ski do mundo que parece surpreendida quando neva. Se na Suíça fechassem estradas cada vez que nevasse, metade da economia alpina estaria à espera da primavera. Em quase todo o planeta, a neve é o ponto de partida do ski. Na Serra da Estrela, é o motivo para fechar.

Há anos que sabemos que a Torre atrai visitantes. Há anos que sabemos que o turismo de inverno é uma oportunidade. E, no entanto, quando o inverno decide cumprir o seu papel, a resposta continua a ser… “voltem no verão”.

Não peço milagres nórdicos. Peço apenas que se trate a neve como aquilo que ela é na Serra: um recurso — não um incidente. Há montanhas mais altas, mais frias e mais agrestes que mantêm acessos operacionais com planeamento e gestão adequada.
A Serra não tem culpa. A Serra faz o que sempre fez. Quem insiste em fingir surpresa… somos nós.
E, já que falamos em marca, falemos da maior: o Queijo Serra da Estrela e a Feira do Queijo de Seia, que voltou a encher o Mercado Municipal de “sabores e saberes”. O queijo é o nosso embaixador silencioso: não inaugura rotundas nem faz promessas eleitorais. Mas, quando é verdadeiro, ganha qualquer discussão à mesa.

Contudo, uma reportagem recente recordou aquilo que muitos sabem e poucos admitem: nem tudo o que ostenta o nome “Serra da Estrela” honra verdadeiramente essa origem. Há menos pastores, menos rebanhos, menos leite — e a certificação, por si só, nem sempre basta para travar abusos. E num mercado exigente, confiança é tudo.

Se a marca Queijo Serra da Estrela é reconhecida, se tem procura, se é economicamente viável — e pode ser altamente lucrativa — então é tempo de pensar maior. Não para industrializar. Mas para profissionalizar e valorizar o artesanal.
É preciso aumentar rebanhos, criar condições dignas para quem vive da pastorícia e tornar a profissão atrativa para novas gerações. Valorizar o pastor não é romantizá-lo — é garantir rendimento, estabilidade e futuro.

Seia tem de assumir uma estratégia clara: “Origem + Experiência”. A Feira é excelente, mas deve ser o ponto alto de um plano anual que inclua roteiros gastronómicos, visitas a queijarias, experiências ligadas ao pão, ao cardo, à ordenha e à cura, parcerias com restauração e hotelaria e uma presença digital capaz de vender não apenas o produto, mas o território. O nosso território.

Porque, no fim, é simples: o queijo é tradição — mas é também economia. E numa terra que quer ter futuro, não faz sentido tratar uma atividade rentável como folclore sazonal.

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