:::: por Santiago Borges Ferreira – 15 anos ::::
Setembro é, por excelência, o mês de regresso às aulas. As férias terminam e as rotinas voltam de novo ao normal.
Mas algo não termina. Sabem o quê? A falta de acesso à educação. Porque, enquanto aqui fazemos da nossa preocupação mais vital escolher a cor e a marca dos cadernos, lá longe, em realidades que nos são desconhecidas, há um pai e uma mãe que gostariam de dar acesso à educação aos seus filhos, mas não conseguem.
Aqui reclamamos da falta de professores – que sim, é de facto uma realidade preocupante – mas, mesmo assim, temos quem ensine as nossas crianças.
Reclamamos – e digo-o como aluno – de acordar cedo, de estudar, de “aturar” os professores, mas, mesmo assim, ao final do dia, temos a oportunidade de estudar gratuitamente.
Vamos aos dados: segundo a UNESCO, a taxa de analfabetismo no Sudão do Sul ronda cerca de 65% a 70% da população, ou até mais. E entende-se por isto a população com mais de 15 anos. Por sua vez, a Índia, um país que ao longo dos últimos tempos tem feito muitos progressos a nível económico e tecnológico, ainda se situa atualmente numa taxa de população analfabeta que ronda os 26%, segundo uma pesquisa realizada pelo U.S. Career Institute.
E por que é que isto acontece? Ora, haveria por certo muitas respostas, mas vou focar-me apenas em uma: o analfabetismo generalizado, como é o caso do Sudão do Sul que acima citei. Lá são entraves ao alfabetismo (oposto de analfabetismo), por exemplo: a falta de recursos, pois muitas escolas carecem de eletricidade, água potável e, sobretudo, professores qualificados; a gravidez precoce nas meninas e mulheres; a priorização do género masculino; e os conflitos armados (como já se viu no Sudão do Sul), o que criou “gerações perdidas” que, durante anos a fio, não colocaram os pés numa sala de aula.
Curiosamente, e em contraste com tudo o que disse acima, os últimos dados dos Censos mostram que a taxa de analfabetismo do país em que nos encontramos, ou seja, Portugal, é de 3,01%, mas com a diferença de que este número se refere a pessoas idosas que já estão reformadas. É, por isso, possível afirmar que, nos dias de hoje, a população ativa em Portugal é totalmente alfabetizada.
Antes de prosseguir, creio ser importante esclarecer que peguei em exemplos como os do Sudão do Sul e da Índia por serem os números que mais chamam à vista, mas também poderia referir países como o Afeganistão. É importante esclarecer igualmente que a falta de escolaridade não se verifica só no continente africano, como muitas vezes tendemos a pensar, mas estende-se também à Ásia Ocidental que, segundo a UNESCO, é mesmo o segundo continente com mais analfabetos, ficando apenas atrás do continente Africano.
Fica aqui a seguinte reflexão, que se traduz com certa precisão no ditado popular: “Reclamamos de barriga cheia”.
Enquanto houver uma criança ou um adulto no mundo sem escolaridade, não podemos nem devemos hastear em praça pública a ideia de que está tudo bem. Não está.
A educação é um direito que a Declaração Universal dos Direitos Humanos consagra no seu Artigo 26.º, passo a citar: “Todo o ser humano tem direito à educação. A educação deve ser gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar é obrigatória.” Claro que estamos muito longe de que isto seja uma realidade, mas não podemos baixar os braços; o que aqui disse tem de nos interpelar de alguma maneira.
Para concluir, somos tão “gente como a gente” quanto uma criança que, muitas vezes desde o berço, tem como destino certo o analfabetismo. Merecemos o mesmo, temos os mesmos direitos, a diferença está em que ela não tem este verdadeiro “luxo” que é a educação, infelizmente.
Tenhamos presente, antes de abrir a boca para reclamar, estas realidades de que aqui falo.
A todos e todas os que já iniciaram ou se preparam para voltar às aulas e à rotina, desejo um bom ano letivo.



