Barragem de Girabolhos: um erro ambiental com consequências irreversíveis

Numa altura em que se fala tanto em barragens e em particular na mega barragem de Girabolhos, Seia, Guarda, é preciso esclarecer as pessoas e não omitir as graves consequências.

PORQUE SE CONTINUA A SACRIFICAR O INTERIOR RURAL EM BENEFÍCIO DO LITORAL URBANO?

Não são conjecturas, mas estudos e análises feitas por cientistas e organizações ambientais.A construção da barragem de Girabolhos, no rio Mondego, é um projeto antigo que nunca avançou por uma razão essencial, o seu impacto ambiental, social, climático e sanitário é profundamente destrutivo. Não se trata apenas de opções políticas ou entraves técnicos, mas do conhecimento científico acumulado ao longo de décadas, que demonstra que os custos desta obra superam largamente quaisquer benefícios.

Destruição de um ecossistema único.

A criação de uma mega albufeira implica a inundação irreversível de habitats naturais, a fragmentação de corredores ecológicos e a interrupção do regime natural do rio Mondego. Espécies animais e vegetais adaptadas a este ecossistema fluvial poderão desaparecer localmente, algumas de forma definitiva. A migração de peixes é bloqueada, a biodiversidade reduz-se drasticamente e o equilíbrio ecológico entra em colapso.

Qualidade da água, saúde pública e novas doenças.

A transformação de um rio vivo em água estagnada favorece a proliferação de algas tóxicas, bactérias e parasitas, degradando a qualidade da água. Estes fenómenos estão associados ao aumento de doenças dermatológicas, gastrointestinais e respiratórias, afetando pessoas, animais domésticos, gado e fauna selvagem. O risco de contaminação dos aquíferos aumenta e os custos de tratamento da água recaem sobre todos.

Alterações climáticas locais e impacto na Serra da Estrela.

Grandes barragens alteram o microclima regional. A substituição de solos naturais por extensas massas de água modifica a humidade, a temperatura e os padrões de precipitação. Numa região sensível como a Serra da Estrela, estas alterações podem reduzir a frequência e intensidade da queda de neve, afetar nascentes, solos agrícolas, ecossistemas de montanha e comprometer o equilíbrio hidrológico de toda a serra.

Anos de obras, poluição e degradação da vida das populações.

A construção da barragem implicaria anos ou mesmo décadas de obras pesadas, com desflorestação, explosões, poeiras tóxicas, ruído constante, vibrações e tráfego intenso de maquinaria pesada. Tudo isto compromete gravemente a saúde física e mental das populações locais, afasta o turismo sustentável e destrói a tranquilidade e identidade das aldeias afetadas.

Desvantagens graves frequentemente omitidas.

Emissões de gases com efeito de estufa: grandes albufeiras libertam metano devido à decomposição da matéria orgânica submersa.

Retenção de sedimentos: os sedimentos ficam presos na barragem, empobrecendo os solos a jusante, aumentando a erosão e reduzindo a vida útil da própria infraestrutura.

Risco sísmico induzido: grandes massas de água podem aumentar a pressão geológica e desencadear micro-sismos.

Perda de terras agrícolas férteis e de soberania alimentar local.

Falsa segurança hídrica: em contexto de secas prolongadas, barragens tornam-se menos eficazes.
Custos económicos ocultos: manutenção, dragagens, indemnizações, tratamentos de água e recuperação ambiental acabam por recair sobre os contribuintes.

Quem realmente beneficia desta barragem?

É fundamental esclarecer um facto que raramente é assumido de forma transparente: a população local não será a principal beneficiária da barragem de Girabolhos. Os impactos recaem sobre as populações de Seia, Gouveia e concelhos envolventes, mas os benefícios destinam-se sobretudo à área de Coimbra e a outras zonas a jusante, nomeadamente para abastecimento urbano, controlo de cheias e interesses económicos externos.

Vantagens alegadas vs. realidade.

Este é um modelo profundamente injusto, em que o interior sacrifica os seus recursos naturais para sustentar centros urbanos. As populações locais ficam com a destruição do território, a degradação ambiental e os riscos para a saúde, em troca de promessas vagas de desenvolvimento que, historicamente, raramente se concretizam.

Os defensores da barragem apontam produção de energia, regadio e controlo de cheias. No entanto, estes benefícios são limitados, incertos e temporários, especialmente num contexto de alterações climáticas. Existem alternativas já usadas noutros países: energias renováveis de baixo impacto, gestão eficiente da água, redução de perdas, retenção natural da água e reabilitação de rios — sem destruir ecossistemas inteiros.

Hipocrisia ambiental e cegueira coletiva.

É moralmente incoerente lamentar incêndios florestais, animais mortos e matas ardidas, enquanto se apoia uma obra que pode causar uma destruição ainda maior — apenas mais lenta e silenciosa. Não existem dois pesos e duas medidas quando a destruição é irreversível. Tudo não pode valer em nome do benefício imediato, esquecendo que os recursos naturais têm limites — tal como a própria incapacidade de compreender algo tão básico.

Estudo de Impacto Ambiental: informar para decidir

A lei exige Estudos de Impacto Ambiental rigorosos exatamente para evitar decisões cegas e irreversíveis. Informar as populações é um dever democrático. Ignorar a ciência é hipotecar o futuro em troca de ganhos imediatos.

Fontes:

iere.org

Jornal de Negócios

Notícias de Coimbra

Internacional Drivers

Sites de informação ambiental e científica.

Zero

rios livres

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