Num tempo em que tanto se debate o impacto dos ecrãs na vida dos mais jovens, e em que os seus efeitos negativos são cada vez mais evidentes, torna-se difícil compreender o progressivo afastamento, ou mesmo o quase desaparecimento, do desporto escolar.
Aquilo que durante décadas representou uma das principais portas de entrada para a prática desportiva, para o desenvolvimento do espírito de equipa e para a construção de um verdadeiro sentido de pertença, há muito que caminha para um silencioso desligar da tomada, sem alarme nem debate público, mas com consequências reais e profundas.
O desporto escolar nunca foi apenas competição. Era descoberta. Era o primeiro contacto com diferentes modalidades, a oportunidade de experimentar, falhar, evoluir e encontrar um lugar dentro de um grupo. Era, acima de tudo, um espaço inclusivo, onde cada criança podia explorar as suas capacidades, descobrir motivações e criar hábitos saudáveis para a vida. Era também um complemento essencial ao ensino formal, ajudando a formar cidadãos mais disciplinados, resilientes e cooperantes.
No concelho de Seia, contudo, vive um realidade muito limitada. No concelho onde outrora existia uma oferta diversificada, com modalidades como futebol, basquetebol, voleibol e ginástica, capaz de responder a diferentes interesses e talentos, resta hoje praticamente uma única opção: o voleibol. Esta realidade mantém-se há décadas e resulta de sucessivas pressões exercidas junto das várias escolas para concentrarem o desporto escolar numa só modalidade.
Não está em causa o mérito do voleibol, nem o trabalho relevante que tem sido desenvolvido a nível local, com resultados e atletas de qualidade reconhecida. O problema é estrutural. Quando se promove quase exclusivamente uma modalidade, condiciona-se a liberdade de escolha, limita-se a descoberta de outras aptidões e empobrece-se o ecossistema desportivo local, regional e nacional.
O risco de fomentar apenas uma modalidade nas escolas não é teórico, é bem real e já se observa em contextos próximos. Num concelho vizinho, recentemente, um clube de basquetebol candidatou-se a uma iniciativa da Federação Portuguesa de Basquetebol, o programa “Basquetebol 3×3 nas escolas”. No âmbito dessa ação, foram enviados materiais desportivos e merchandising para as escolas locais, com o objetivo de incentivar a prática e dar a conhecer a modalidade.
A resposta foi surpreendente e preocupante: o material acabou por ser devolvido, com a indicação das escolas de que não havia interesse. E porquê? Porque nesse território a pressão instalada aponta para a prática exclusiva de outra modalidade, neste caso o andebol. Este tipo de situação levanta uma questão essencial: qual é, afinal, a missão da escola no contexto do desporto? A escola não deve ser um prolongamento de interesses externos, nem um instrumento de captação de atletas para o clube A ou B. A sua função é muito mais ampla e nobre. Cabe-lhe fomentar a prática desportiva de forma abrangente, plural e inclusiva, apresentando aos alunos diferentes modalidades, permitindo-lhes experimentar, escolher e desenvolver-se de acordo com os seus interesses e capacidades.
Quando essa diversidade desaparece, perde-se muito mais do que opções desportivas. Perdem-se oportunidades de inclusão, perde-se potencial humano, perdem-se caminhos que poderiam fazer a diferença na vida de muitos jovens. E quando não há espaço para todos, muitos acabam inevitavelmente por ficar de fora. A consequência é um afastamento progressivo da prática desportiva, precisamente numa fase da vida em que esta é essencial para o desenvolvimento físico, emocional e social.
Recuperar e valorizar o desporto escolar é, por isso, mais do que uma questão desportiva. É uma questão educativa, social e até de saúde pública. É garantir que as escolas continuam a ser espaços de descoberta, de crescimento e de igualdade de oportunidades. Porque cada modalidade que desaparece representa uma porta que se fecha. E essas portas fazem hoje mais falta do que nunca.



