Tenho lido, com particular deleite, as mais variadas análises aos resultados destas presidenciais. Algumas são exercícios de ginástica argumentativa dignos de medalha olímpica. Há quem veja nestes números um “crescimento da esquerda” — presumo que estejam a usar uma lupa, ou talvez um microscópio eletrónico. O resultado total de toda a esquerda, totaliza cerca de 35% dos votos nesta primeira volta.
Outros, num registo mais dramático, apressam-se a decretar o fim do PSD, como se o resultado de Marques Mendes tivesse provocado um terramoto político de escala bíblica, com direito a pragas, trombetas e queda imediata das muralhas da sede nacional.
Comecemos então pela esquerda. Mas não por qualquer esquerda — pela esquerda à esquerda do PS, esse espaço ideológico onde a realidade raramente entra sem pedir desculpa.
O Bloco de Esquerda decidiu reciclar Catarina Martins, um dos seus pesos pesados — e quando digo “peso pesado” refiro-me mais ao tempo de antena acumulado do que à capacidade de tração eleitoral. O resultado foi edificante: 2,06%, ou 116 303 votos. Para termos um termo de comparação minimamente humilhante, em 2021 a candidata bloquista Marisa Matias tinha obtido 3,95% (164 741 votos) e, em 2016 — atenção a este pormenor delicioso — chegara aos 10,12%, com 469 582 votos. Ou seja, em menos de uma década, o Bloco conseguiu transformar uma força política de dois dígitos num partido de rodapé estatístico. Isto já não é apenas uma derrota estrondosa; é uma espécie de dieta eleitoral forçada, onde a cada eleição o partido perde mais uns quilos de votos, até ficar reduzido a um esqueleto ideológico a acenar bandeiras para si próprio.
O Partido Comunista Português também decidiu ir buscar uma das suas figuras mais reconhecíveis. António Filipe, homem sério, postura institucional, discurso articulado — admito sem dificuldade que há nele um certo estilo antigo com o qual até partilho alguma afinidade. O problema é que a afinidade termina exatamente aí. Tudo o que António Filipe defende no plano ideológico é, em 2026, indefensável para qualquer democrata que não esteja preso num calendário parado em 1974. O resultado foi tão previsível quanto pedagógico: 1,64%, ou 92 589 votos. Em 2021, João Ferreira ainda tinha conseguido 4,32% (180 518 votos). Em 2016, o PCP apresentou o praticamente desconhecido Edgar Silva e, mesmo assim, obteve 3,95% (183 009 votos). Ou seja, nem com figuras respeitáveis, o PCP conseguiu evitar a trajectória descendente.
E depois há o Livre. Ou melhor, houve. Porque o que se passou com o seu candidato, Jorge Pinto, já não cabe no domínio da má noite eleitoral — entra diretamente no território do constrangimento público. 0,68%, apenas 35 536 votos. Um resultado tão baixo que obriga o leitor a confirmar se não estará, por lapso, a ler a percentagem da abstenção numa freguesia remota. Para agravar a situação, Jorge Pinto ficou atrás de Manuel J. Vieira, personagem que dispensa apresentações políticas porque nunca as quis ter: candidato performativo, provocador profissional, mistura de happening artístico com exercício de liberdade absoluta. Manuel J. Vieira não faz campanhas, prometia “vinho canalizado em todas as casas”, um Ferrari para cada português, uma patinadora russa e dançarinos cubanos “para as raparigas”, tudo numa sátira escancarada à política — e, ainda assim, bateu o Livre. Isto não é apenas perder; é perder para alguém que transforma a candidatura num número de cabaré político. O resultado do Livre não é apenas mau, é aflitivo, é o ridículo do ridículo. Para se ter uma noção clara da ordem de grandeza do desastre, Jorge Pinto teve menos votos do que Vitorino Silva, o célebre Tino de Rans, que em 2021 obteve 2,94% e 122 774 votos — Tudo isto vindo de um partido que, nas últimas legislativas, tinha alcançado 4,07% e 257 273 votos. Ou seja, em poucos meses, o Livre passou de “nova esperança progressista” a nota de rodapé estatístico.
Chegados aqui, e para fechar a análise da esquerda, chegamos a António José Seguro. O grande vencedor da primeira volta. O homem que, durante meses, parecia não convencer nem o próprio Partido Socialista, acabou por convencer uma fatia considerável do eleitorado. Recorde-se que Augusto Santos Silva, destacado quadro do PS e ex-presidente da Assembleia da República, teve a delicadeza democrática de afirmar que Seguro “não cumpre os requisitos mínimos de uma candidatura” à Presidência da República. Seguro respondeu com classe: “Foi tão baixo que não merece resposta da minha parte.” Pouco tempo depois, Augusto Santos Silva declarou voto… em António José Seguro.
Uma demonstração notável de flexibilidade ideológica — ou, sendo mais rigorosos, de uma elasticidade de coluna vertebral digna de aulas de pilates político — que tão bem caracteriza certa fauna partidária.
E isto não é um pormenor. É absolutamente central para compreender o resultado de Seguro.
A esquerda, quando sente a direita mais forte, faz aquilo que sempre fez: une-se. Vem do tempo do célebre apoio de Álvaro Cunhal a Mário Soares, nas eleições em que Soares acabou por bater Freitas do Amaral; ou, mais recentemente, da engenhosa invenção da geringonça após a vitória de Passos Coelho, apenas para garantir que a direita não governava. Nada de novo, portanto.
O resultado de António José Seguro deve-se essencialmente ao voto útil de toda a esquerda, o que explica a implosão eleitoral do Livre, do PCP e do Bloco.
Os “costistas” tiveram de engolir em seco, dobrar a espinha e votar em Seguro — porque, convenhamos, se até Augusto Santos Silva votou… Ou seja, a esquerda fez aquilo que sabe fazer melhor quando se sente ameaçada: fechou fileiras em torno de um candidato. O resultado está à vista: 31,11% e 1 754 904 votos.
Foi também uma vitória pessoal — não há como o negar. Mérito de Seguro, que soube antecipar-se às conspirações de bastidores dos notáveis “costistas”, ainda entretidos a magicar, entre si, qual seria a solução mais conveniente para representar o PS. Seguro arriscou, jogou primeiro e ganhou o xadrez interno do partido — e, por arrasto, conquistou também uma fatia substancial do eleitorado.
Isto não é um pormenor. Porque, em contraste com a esquerda — que quando pressente perigo fecha fileiras com a disciplina de um batalhão — temos a direita, que continua a comportar-se como um saco de gatos fechado a pontapé. Cada um para seu lado, unhas de fora, sem mapa e sem farol.
Tenho para mim que o principal responsável por este estado de coisas tem nome próprio: Rui Rio. Foi ele quem conseguiu a proeza histórica de liderar o Partido Social Democrata enquanto explicava, com ar sério, que o PSD afinal não era de direita — era de centro-esquerda.
Estas declarações, somadas às suas ações enquanto líder, deixaram um eleitorado inteiro órfão, desorientado e a perguntar-se: então afinal eu voto em quê?
Mais uma vez, isto não é um pormenor para interpretar os resultados destas eleições — é uma das chaves.
Curiosamente — ou talvez com a previsibilidade de um relógio avariado — muitos dos chamados “rioístas”, entre os quais Adão Silva e Paulo Mota Pinto, apressaram-se a assinar um manifesto de apoio a Henrique Gouveia e Melo. A este desfile de fragmentação juntaram-se várias figuras em modo “reforma ativa”, como Ângelo Correia, António Capucho, António Carmona Rodrigues, David Justino, Fernando Negrão, Luís Valente de Oliveira e Miguel Cadilhe, bem como a constitucionalista Teresa Violante. Até Francisco Rodrigues dos Santos, o ex-líder do CDS e seu dedicado coveiro político, sentiu o impulso irreprimível de reaparecer em cena para declarar apoio ao Almirante.
Convém ainda sublinhar um pormenor delicioso: o próprio Rui Rio assumiu o papel de mandatário nacional desta candidatura. Quando um ex-líder do PSD se presta a apadrinhar, com solenidade institucional, uma candidatura que concorre contra o candidato do seu próprio partido, não estamos perante pluralismo interno nem saudável divergência — estamos perante a mais pura e cristalina auto-sabotagem política, feita à luz do dia e sem qualquer pudor.
Foi com este lastro que Marques Mendes avançou para estas eleições: uma base eleitoral já partida à nascença, dividida entre si próprio e Henrique Gouveia e Melo. E como se isso não bastasse, viu-se ainda obrigado a disputar os restos do eleitorado com João Cotrim Figueiredo e André Ventura, ambos a operar no mesmo espaço político à direita do PS. Um cenário que não augurava nada de bom — e ao qual voltaremos, porque merece atenção própria.
Enquanto a esquerda se unia em torno de António José Seguro e os seus candidatos mais à esquerda caíam alegremente na insignificância, à direita o voto foi sendo distribuído semana após semana por quatro candidatos, como quem reparte migalhas.
Nada disto serve para desculpar Marques Mendes. O seu resultado é mau porque a sua campanha foi má. Ficou demonstrado — mais uma vez — que presidentes não se fabricam em estúdios de televisão, mesmo quando estas os embalam ao colo durante anos.
Erro crasso, quando Marques Mendes optou por não se pronunciar sobre os problemas reais da governação — em particular na saúde — para não beliscar Luís Montenegro. Ao abdicar de uma posição clara, auto-excluiu-se do debate político relevante e colocou-se voluntariamente numa zona cinzenta de irrelevância, onde já não se é alternativa, mas também não se é autoridade. E ninguém quer hoje um Presidente da República que seja apenas um yes man, um corta-fitas ou um comentador institucional de gravata posta.
O resultado foi claro: não só não conseguiu captar os votos que o Almirante foi perdendo, como ainda viu parte significativa do seu eleitorado migrar para Cotrim. Os 11,30% de Marques Mendes, correspondentes a 637.394 votos, são uma derrota pesada. Mas, acima de tudo, são o reflexo de um PSD perdido, onde nem os seus próprios ex-líderes parecem acreditar nos candidatos naturais do partido, sem estratégia e incapaz de se afirmar como aquilo que lhe era exigido — sobretudo após as últimas legislativas —: o farol da direita democrática, o grande partido agregador do centro e do centro-direita.
Esse farol apagou-se. E, como já referi, apagou-se com a água do Rio — o tal, o Rui. O resultado é um eleitorado órfão e desorientado, que olha à direita à procura de rumo, de bússola ou, pelo menos, de um poste de iluminação pública… e encontra apenas nevoeiro cerrado, apitos desencontrados e um vazio político tão profundo quanto agonizante.
Acima de Marques Mendes ficou Henrique Gouveia e Melo, com 12,32% e 695 571 votos. O candidato que se queixou das sondagens… mas que só foi candidato por causa delas.
Durante meses foi pré-anunciado vencedor, tratado como inevitável, ungido pelos estúdios de televisão e embalado por comentadores em modo vidente. Chegou-se mesmo a dizer — com uma seriedade comovente — que poderia ganhar à primeira volta. Num país onde a imprensa se entretém com cenários imaginários e analistas de pacotilha, cada vez mais afastados do jornalismo e cada vez mais próximos do entretenimento político, Gouveia e Melo apresentou-se finalmente como candidato. E a partir desse exato momento começou a perder intenções de voto. Abriu a boca… e puf.
Quanto mais se deixava ver, mais desaparecia o mito. E quando decidiu deixar-se representar por figuras como Isaltino Morais, percebeu-se que algo tinha corrido muito mal no gabinete de estratégia — se é que existia um.
Num país que se diz cansado da corrupção endémica, Isaltino Morais é tudo menos um ativo eleitoral. Dá votos em Oeiras, talvez. No resto do país, só os tira. Não sei o que lhe passou pela cabeça, mas sei o que passou pela cabeça de muitos eleitores: não, obrigado.
Depois, mesmo rodeado de apoios vindos maioritariamente do centro-direita, decidiu piscar o olho ao centro-esquerda e declarou-se “do centro pragmático”. Seja lá o que isso for. Um conceito tão vago que podia servir tanto para um presidente da República como para um gestor de condomínio. Quando não há ideologia, regra geral também não há ideias. E foi precisamente isso que se foi descobrindo sobre Gouveia e Melo: muita pose, pouca substância, nenhum rumo claro.
No fim, o seu contributo político resumiu-se a uma coisa muito concreta: fragmentar ainda mais o eleitorado da direita. Não ganhou, não agregou e não construiu alternativa. Serviu apenas como peça de dispersão num tabuleiro já caótico.
Foi neste contexto que emergiu João Cotrim Figueiredo — o candidato amado pela comunicação social. Talvez mesmo o único político português com direito a um jornal quase inteiramente dedicado à idolatria sistemática de tudo o que mexe na Iniciativa Liberal — chamemos-lhe, sem rodeios, Observador. Mérito onde ele existe: num mundo cada vez mais mediado por cliques, algoritmos e likes, dominar as redes sociais é essencial, e nesse campo Cotrim revelou-se estrategicamente irrepreensível. Percebeu aquilo que durante anos apenas André Ventura e o Chega tinham compreendido: ali há eleitorado. E investiu sem complexos. O resultado foi claro: partindo de uns modestos 4–5%, foi crescendo semana após semana, captando voto jovem e colhendo, com notável eficácia, os frutos dos sucessivos tiros nos pés que Henrique Gouveia e Melo e Marques Mendes foram dando, dia após dia.
Nas últimas três semanas de campanha, esse eleitorado órfão da direita — abandonado pelo tal farol entretanto apagado — olhou em redor à procura de orientação. Tentou perceber o que afinal defendia Gouveia e Melo e saiu ainda mais confuso; olhou para Marques Mendes e ganhou insónias; não se querendo, para já, radicalizar votando Ventura, acabou por pousar os olhos em Cotrim, como quem escolhe a opção menos inquietante do menu.
Chegou aos 16%, com 902 571 votos — muito mais do que vale a Iniciativa Liberal e, arrisco dizer, muito mais do que vale o próprio Cotrim Figueiredo. Força das circunstâncias.
Uma figura confortável para televisão, bom falante, polida, nunca verdadeiramente confrontada sobre o que pensa para lá das generalidades. Um candidato ideal para quem quer votar sem grandes sobressaltos cognitivos.
Se os portugueses tivessem perfeita noção de que a Iniciativa Liberal — e Cotrim Figueiredo — são, em matérias como direitos civis, liberdades individuais, laicismo, liberalizações sociais e imigração, mais próximos da esquerda radical do que de vários sectores do Partido Socialista, talvez a empatia fosse menor. Mas como nas televisões passa quase exclusivamente a narrativa da liberalização económica, do “menos Estado” e da redução de impostos — o que os aproxima artificialmente da direita — o partido vai passando entre os pingos da chuva como uma espécie de modernidade ideológica light, sem grande escrutínio.
Cotrim teve, é certo, três dias particularmente difíceis de campanha na sequência do caso de assédio que veio a público já na reta final. Um caso que levanta mais perguntas do que respostas: relatos contraditórios, explicações lacónicas e uma gestão comunicacional que optou claramente pelo silêncio controlado. Sabe-se hoje que a situação não era totalmente desconhecida — circulava há algum tempo em meios jornalísticos e no próprio grupo parlamentar da Iniciativa Liberal, desde pelo menos 2023, sem que nunca tivesse merecido investigação aprofundada ou escrutínio público sério. A história cheira a esturro — não se sabe ainda se por excesso ou por defeito, mas cheira. E sejamos honestos: se um caso semelhante envolvesse André Ventura, os mesmos jornalistas hoje cautelosos já teriam levantado todas as pedras da calçada, escavado até ao subsolo e transmitido tudo em direto, mesmo que o alegado “escândalo” acabasse por se revelar vazio de conteúdo.
Ainda assim, não creio que este episódio tenha tido impacto significativo no resultado final de Cotrim. Os 16% explicam-se muito mais pelas campanhas desastrosas de Gouveia e Melo e de Marques Mendes do que por qualquer entusiasmo ideológico. Explicam-se por esse eleitorado órfão de direita que, ainda — e sublinho o ainda — não se quis assumir radical votando Ventura, e acabou por votar Cotrim.
Não chegou. Ficou-se pela primeira volta.
Chegamos, por fim, a André Ventura. Ficou em segundo quando queria ficar em primeiro. Um pequeno detalhe. Mas passou à segunda volta — e esse era o verdadeiro objetivo desta candidatura. Missão cumprida. O seu eleitorado esteve com ele do princípio ao fim, mesmo reconhecendo-lhe, curiosamente, mais aptidão para primeiro-ministro do que propriamente para Presidente da República. Ainda assim, cresceu em todo o lado. Ganhou a Madeira. Foi o candidato mais votado ou o segundo mais votado em 94% dos concelhos do país. Venceu em 80 municípios e, pela primeira vez, o Chega conquistou vitórias no Norte. Se isto não é motivo suficiente para Ventura abrir um espumante político, então não sei o que mais lhe faltaria.
Convém lembrar um pormenor delicioso: a candidatura de André Ventura a estas presidenciais nem sequer foi consensual dentro do seu próprio partido. Houve dúvidas, resistências, receios. Ventura arriscou. E, mais uma vez, ganhou. Não porque tenha ido buscar um eleitorado completamente novo nesta primeira volta — o tal eleitorado órfão dispersou-se entre Marques Mendes, João Cotrim Figueiredo e Henrique Gouveia e Melo — mas porque consolidou totalmente o seu. E isso, em política, vale ouro. (veja-se por exemplo o que o Livre não conseguiu fazer).
A passagem à segunda volta fará com que parte desse eleitorado órfão — que votou em Cotrim, Mendes ou Gouveia e Melo — acabe por votar em Ventura. E como costumo dizer: desde que André Ventura entrou pela primeira vez na Assembleia da República, só custou a primeira vez. O que os últimos anos nos mostram é simples: o Chega, depois de conquistar votos, consegue mantê-los.
Não acredito que André Ventura tenha qualquer hipótese real de vencer a segunda volta. Acredito, sim, que já atingiu o seu principal objetivo: consolidar-se — ele e o Chega — como o terceiro grande bloco do sistema político português.
Esta segunda volta pode, ainda assim, marcar um ponto de viragem. Pode ser o momento em que Ventura começa a captar eleitorado mais tradicional do CDS — muitos dos quais entretanto migraram para a Iniciativa Liberal — e também do PSD: aquele eleitorado que nunca se imaginou a votar Chega… até ser confrontado com a alternativa.
E qual é essa alternativa? Votar no candidato do Partido Socialista. Um candidato onde votarão socialistas, mas também estalinistas, leninistas, marxistas e toda a fauna ideológica que costuma acompanhar estas convergências táticas. Que alternativa resta, então, aos sociais-democratas, aos liberais e aos democratas-cristãos que não se revêm nisso?
É aqui que pode residir a grande vitória de André Ventura.
Não será suficiente para vencer estas presidenciais, mas pode revelar-se decisivo nas próximas legislativas, sobretudo com a governação do país a evoluir como tem evoluído. A construção dessa narrativa começou logo na noite da primeira volta, quando Ventura se apresentou como “o candidato da direita e de Portugal”.
Agora, imagine-se o cenário: figuras da direita democrática, sociais-democratas, liberais e democratas-cristãos a anunciarem, com ar solene, que vão votar em António José Seguro. Foi exatamente isso que aconteceu — pasme-se — nos minutos imediatamente seguintes ao anúncio dos resultados da primeira volta. Tudo feito sem grande ponderação sobre as consequências que a publicitação apressada desses apoios pode vir a ter no futuro do país.
Para Ventura, isto é um presente embrulhado — ouro sobre azul. É tudo o que precisa para alimentar a sua narrativa.
Nas próximas legislativas, ser-lhe-á extremamente fácil repetir aquilo que sempre disse — agora com ainda mais convicção: são todos iguais. Tão iguais que, quando chega a hora decisiva, acabam todos a votar na esquerda.
E isso, goste-se ou não, é politicamente explosivo.





