As eleições legislativas de 18 de maio de 2025 desenharam um cenário político surpreendente, mas ainda incompleto. A contagem dos votos da comunidade emigrante, ainda por apurar, pode reposicionar o Chega, que disputa o segundo lugar em representação parlamentar. Por ora, o partido consolidou-se como a terceira força política nacional, empatado com o Partido Socialista (PS) em deputados (58), apesar de ter apenas 50 mil votos a menos. Com 22,56% dos votos — cerca de 1,3 milhões de eleitores —, o Chega aproxima-se do PS, que obteve 23,38%. Estes números, pendentes da contagem final, não são apenas estatísticas: são um alerta político que exige uma reflexão profunda sobre o estado da nossa democracia.
Portugal é um país que resistiu ao autoritarismo e reafirmou os seus valores democráticos a 25 de novembro de 1975 — o momento em que a democracia representativa foi firmemente escolhida, perante a ameaça da radicalização de uma ditadura de esquerda e da instabilidade política constante. Foi aí que se consolidaram os pilares do regime pluralista que conhecemos hoje. E, no entanto, meio século depois, cresce no Parlamento uma força que rejeita os consensos fundamentais do regime democrático e alimenta-se do ressentimento, da polarização e da indignação crua.
Mas não basta apontar o dedo ao eleitorado ou ao próprio partido Chega. A sua ascensão é sintoma de algo mais vasto e desconfortável. Vivemos tempos de desilusão profunda com a política tradicional. Décadas de promessas não cumpridas, uma perceção de impunidade nas elites políticas e económicas, serviços públicos à beira da rutura, uma geração encurralada entre salários baixos e custos de vida incomportáveis — tudo isto criou terreno fértil para quem aparece a dizer que “vai varrer tudo”.
O Chega não ganhou votos com ideias. Ganhou com emoções: medo, raiva, frustração. Não apresentou um programa económico sólido, nem listas completas de candidatos. Apresentou ressentimento. E isso bastou. Não porque o eleitor português seja “ignorante” — mas porque está exausto. E a exaustão é um dos estados mais perigosos para qualquer democracia.
Rotular os eleitores do Chega como desinformados, racistas ou irresponsáveis é uma simplificação perigosa. Muitos deles votavam anteriormente noutros partidos, sobretudo no PS, que perdeu terreno para o Chega nestas e nas eleições anteriores. Ignorar esta transferência de votos é fechar os olhos à realidade: o descontentamento não nasce do nada.
A questão da imigração também teve um peso silencioso, mas determinante nestas eleições. Portugal enfrenta uma necessidade real de atrair mão de obra para sustentar a sua economia e o sistema de segurança social, mas as políticas de imigração adotadas pelo anterior governo do PS pecaram pela falta de planeamento e controlo. A facilidade com que se atribui a nacionalidade — transformando um dos passaportes mais importantes do mundo num bem de acesso surpreendentemente simples — contribuiu para uma pressão social significativa. Em pouco tempo, assistimos a um aumento expressivo da população residente sem que houvesse qualquer reforço proporcional na capacidade dos hospitais e centros de saúde (só quem não usa o SNS não percebe isto), escolas ou no mercado habitacional. O argumento de que estes fluxos são fundamentais para sustentar a Segurança Social perde força quando se constata que apenas cerca de um quarto dos novos imigrantes está efetivamente empregada e contribui para o equilíbrio da segurança social. A falta de visão estratégica e de medidas de integração sustentada não só alimentou o descontentamento generalizado, como criou um terreno fértil para o discurso populista que ganhou força nestas eleições.
Parte do problema reside, de facto, numa fragilidade crónica da literacia política e mediática. O sistema escolar não está a preparar cidadãos capazes de analisar criticamente discursos populistas; antes, forma adultos com limitações no raciocínio e no pensamento crítico, alimentados por currículos e métodos de ensino desatualizados e pouco adaptados aos desafios do mundo contemporâneo. Enquanto isso, as redes sociais amplificam slogans e desinformação a uma velocidade que a verdade factual nem sempre consegue acompanhar. E a comunicação social — que deveriam ser o pilar da racionalidade no debate público — tornou-se, muitas vezes, parte ativa do problema.
Nos últimos anos, assistimos a uma campanha mediática alinhada que apelida sistematicamente o Chega de “partido de extrema-direita” – muitas vezes sem clarificar o que isso significa, nem contextualizar ideologicamente a acusação. Para quem não reconhece no Chega os traços históricos do fascismo ou do autoritarismo clássico, a etiqueta soa a exagero ou a manipulação.
A cobertura jornalística transformou-se, em muitos casos, num espetáculo. Debates vazios entre candidatos com 30 minutos de duração são imediatamente seguidos por painéis de “comentadores” durante horas, compostos por figuras com filiações partidárias evidentes, pouco ou nenhum trabalho de investigação política, e muitas vezes sem qualquer contraditório real. O espaço da análise deu lugar ao entretenimento; a informação deu lugar à opinião. E o eleitor, saturado, descrente, encontra consolo no discurso direto e emocional.
Neste contexto, Luís Montenegro reiterou, com firmeza, que “não é não” no que toca a entendimentos com o Chega. Mas esta posição tem um preço democrático: ao rejeitar qualquer acordo e afirmar que os eleitores do Chega não merecem ser ouvidos, que o seu voto não conta e que a representação parlamentar deve ser reservada apenas a alguns, põe em causa o princípio básico da democracia representativa — a legitimidade de todos os votos e a inclusão de todas as vozes eleitas. Mais de 1,3 milhões de portugueses escolheram o Chega, e negar-lhes a representatividade significa criar cidadãos de segunda categoria, um sinal preocupante para a saúde da nossa democracia.
Essa linha vermelha, se mantida, será um baluarte de integridade democrática — mas será também um desafio para a coesão política e social. Num Parlamento fragmentado, sem maioria absoluta, será crucial que as forças políticas encontrem formas de garantir estabilidade sem ceder a extremismos que minem a democracia, mas também sem excluir uma parte expressiva do eleitorado.
O Partido Socialista, por seu lado, enfrenta a responsabilidade de se reconstruir rapidamente, não só em termos de propostas concretas e coerência política, mas também na reconquista da confiança dos portugueses. A resposta ao populismo não pode ser apenas moral ou institucional. Tem de ser política. O sistema tem de provar que funciona. Que sabe ouvir. Que sabe corrigir. Que serve.
Portugal não está à beira do abismo. Mas está a atravessar um momento de inflexão. Ou enfrentamos a crise da confiança democrática com coragem e lucidez — ou veremos, em breve, o que antes era impensável tornar-se normal.
E quando isso acontecer, já não bastará dizer que fomos apanhados de surpresa. O 25 de Novembro ensinou-nos que a democracia não se defende com ingenuidade — defende-se com firmeza, vigilância e ação cívica permanente.





