O Natal tem uma estranha capacidade de nos medir a distância. Não em quilómetros, nem em horas de voo, mas na falta que sentimos das pequenas coisas que nos definem. E quando se está longe da terra, longe dos amigos e da família, essa régua estica-se até doer.
Por estes dias, em Macau, o Natal existe — mas é outro. Há luzes espalhadas pelas ruas, árvores artificiais em centros comerciais e montras cuidadosamente decoradas. Falta, no entanto, aquilo que não se compra nem se importa: o espírito. Aquele que só existe nas terras pequenas, nas gentes que se conhecem pelo nome e pela história partilhada.
Entre os portugueses que por aqui vivem, muitos aproveitam esta altura para dar um salto ao sol da Tailândia. Praia, calor, mar azul. Um destino de sonho para quem vem de fora. Para quem está longe, acaba por ser, muitas vezes, um refúgio da saudade. Mas, por mais paradisíaco que seja o cenário, trocava-o num segundo por mais um dia 24 de dezembro nas ruas de Seia.
Falta-me um pouco de tudo. Falta-me o cheiro a canela, o bolo-rei na mesa, o bacalhau, o cabrito, a roupa velha, as filhoses, os sonhos, as rabanadas. Falta-me o convívio com a família e com aqueles amigos que só conseguimos rever nesta altura do ano, como se o Natal tivesse o poder raro de nos juntar outra vez.
Faltam-me os sorrisos ao rever caras que fizeram parte da nossa infância, que cresceram connosco, que nos viram crescer. Falta-me o frio da serra e, este ano, mais ainda, pois até a neve caiu em Seia como por magia, dando um brilho especial a esta quadra.
Falta-me o reboliço das compras de última hora, feitas não por obrigação, mas por vontade de proporcionar uma consoada cheia de alegria aos mais pequenos. Falta-me a mesa cheia, o barulho de toda a gente a falar ao mesmo tempo, a lareira acesa, o caos organizado das prendas a serem abertas, a excitação dos mais novos, a paciência fingida dos mais velhos.
Falta-me o subir, como antigamente, até à velhinha igreja para a Missa do Galo, com um frio de cortar à faca, mas lá íamos nós, felizes e contentes.
Aqui, há sol e mar. Lá, há tudo o resto. E tudo o resto pesa mais.
O Natal longe da terra serve, acima de tudo, para nos lembrar de onde somos. Serve para confirmar que podemos viver noutro lugar, construir vida noutro ponto do mundo, mas há raízes que não se cortam. Apenas se esticam.
Quero, por isso, deixar uma palavra de Boas Festas a todos os meus conterrâneos de Seia. Aos que aí estão, aos que partiram e aos que, como eu, vivem esta quadra com o coração dividido.
Que 2026 sorria às nossas gentes de forma mais generosa do que os últimos anos. Que tragédias como os incêndios não se voltem a repetir. Que o nosso concelho seja revitalizado, que atraia mais jovens, que recupere uma alegria que há demasiado tempo parece adormecida.
Porque Seia merece mais. E as suas gentes também.
Boas Festas.





