É certo e sabido que quando existem vários protagonistas num acontecimento, sobretudo tratando-se de um acontecimento controverso, cada protagonista conta a história da maneira que mais lhe interessa ou com uma narrativa que lhe é mais conveniente, de modo a defender as razões da sua posição nesse acontecimento. Assim acontece com as histórias da História que aprendemos na escola, com as quais formatamos as nossas opiniões e linhas de pensamento.
No entanto, com o tempo e à medida que vamos recolhendo mais informação, de fontes mais diversificadas, e a nossa curiosidade e poder de análise objetiva se vai afinando, podemos alterar a nossa visão sobre determinados factos, anteriormente tomados como definitivamente esclarecidos e que não admitiam objeções.
Aconteceu comigo em situações diferentes, tendo alterado a minha visão sobre as cruzadas e, mais recentemente, sobre a presença e influência dos muçulmanos na península ibérica.
Sobre as cruzadas, sobre as quais apenas conhecia a visão do “nosso” lado, do lado ocidental, tida como a parte boa, mudou radicalmente a partir do momento em que li, há cerca de trinta anos, o livro “As Cruzadas vistas pelos Árabes”, do escritor libanês Amin Maalouf. As versões entre os invasores e os invadidos não coincidem, parecendo mesmo relatarem acontecimentos diferentes, nenhuma delas estará correta mas, uma coisa é certa, a versão que nos contaram está longe das boas intenções das expedições militares e das boas práticas cristãs.
Sobre os muçulmanos, após uma recente visita à Andaluzia, mais concretamente às cidades de Córdova e Granada, sobre domínio mouro dos séculos VIII ao XV, é impossível ficar indiferente às marcas da dimensão da sua presença (uma mesquita para 40.000 crentes, em Córdova) e ao rico legado arquitetónico (complexo palaciano Alhambra, em Granada), de características diferentes mas que supera, em minha opinião, em beleza e em pormenor estético, o legado deixado pelos romanos na península.
Mas um outro pormenor não passa despercebido. A forte presença, na rua, comércio, hotéis, restaurantes e locais públicos, de população de origem muçulmana, alguma de longa data, talvez por sentirem o chamamento do passado e outra, tal como em Portugal, com origem na imigração, muito especialmente do norte de África.
Mas há um outro pormenor que apenas se conhece contactando com quem vive em Granada. Tem sido costume comemorar festivamente o dia 2 de Fevereiro de 1492, data em que o último rei muçulmano de Granada, Boabdil, entregou as chaves dos palácios de Alhambra, que deixou intactos, aos monarcas espanhóis Fernando de Aragão e Isabel de Castela, simbolizando a rendição da cidade. Acabou, assim, o último reino muçulmano da Espanha e, com a queda de Granada, encerrou a Reconquista, um longo período de conflitos entre cristãos e muçulmanos na Península Ibérica.
Acontece que tem sido cada vez mais controversa a comemoração anual desta data, dado que a população muçulmana, cada vez mais expressiva, é contrária a esta comemoração, havendo mesmo quem antecipe o seu cancelamento para breve e ainda, numa atitude provocante, antecipe uma “reconquista” em sentido inverso.
É certo que a realidade, em qualquer região de Portugal, é bem diferente daquela que acabo de relatar, mas não deixam de ser sinais bem diferentes daqueles que vínhamos vivenciando e há movimentos que, por serem naturais, são imparáveis pela força.
Gostaria que passado um mês desde que publiquei o último Editorial, que os vários conflitos entre países e entre os homens já tivessem acabado. Mas não! Esses conflitos, além de não terem melhorado, cada vez estão mais acesos. Todos andamos preocupados com o conflito entre a Ucrânia e Rússia e, agora, rebentou outro entre o Irão e Israel. Se o primeiro é terrível o segundo não é menor.
Com tudo isto, o mundo anda todo às aranhas. Fazem-se reuniões, promovem-se e fazem-se encontros e mais encontros e não se chega a lado nenhum, já que todos estão na expetativa que os americanos entrem na guerra. Ai de nós, porque uma guerra a nível mundial seria inevitável.
Embora estes focos de guerra se desenvolvam por Nações longe de Portugal, não quer dizer, que eles não cheguem até nós. Fazemos votos para que isso não venha a acontecer, até, porque, bem basta os 14 anos de guerra no Ultramar, não tendo havido nenhuma potencia que nos tenha ajudado. Por isso, esta guerra não é nossa e não temos obrigação de ter que enviar homens para defender os políticos e as Nações que não se entendem.
Estamos a cerca de dois meses para que Portugal entre em Eleições para as autarquias. Aqui é nosso dever votar, porque o que está em causa é escolher um presidente que governe e saiba governar. Nós, senenses, há quatro anos votámos no Dr. Luciano Ribeiro e não estamos arrependidos, porque tem sabido e tem cumprido, com sabedoria e talento, o papel que prometeu aos eleitores.
Todos nós gostaríamos que qualquer Presidente nos alindasse a nossa rua ou bairro. Ora isso não pode ser tudo feito de um momento para o outro. O que se tem de analisar é que muitas coisas foram feitas durante este tempo de mandato, por isso é que, conscientemente, voto na candidatura do Dr. Luciano. Os outros candidatos, sinceramente não conhecemos nada do seu curriculum ou qualquer obra que tenham feito. No entanto, daremos sempre espaço quando dispusermos de informações e de quaisquer elementos.
Contamos, também, com os presidentes de juntas que vão trazendo para cada uma das suas terras o melhor que cada população deve ter para viver.
Israel, Gaza, Ucrânia, Rússia, Europa, Irão, Putin, Trump ou Benjamin Netanyahu? Mentira – Inveja – Destruição – Tragédia!
Podemos dar as voltas que quisermos, arranjar as desculpas que entendermos, argumentar como melhor nos aprouver ou tentar ludibriar a nossa própria inteligência. Tudo isso não conseguirá iludir a verdadeira razão, a clareza de ideias e o realismo do nosso pensamento: o Mundo está louco e as Nações colocaram à frente dos seus destinos políticos que na sua esmagadora maioria, são incompetentes, irresponsáveis, acéfalos, ditadores e facínoras da pior espécie. Com este tipo de gente, infelizmente, o mundo caminha, a passos largos para o seu fim. Com que legitimidade moral, esta “tralha”, invade, assalta, rouba e mata?
É verdade que nós estamos integrados num conjunto de países que constituem o bloco europeu. Não temos quaisquer dúvidas de que apesar de sermos pequeninos e a nossa voz, por isso mesmo, não se poder fazer ouvir com a intensidade de som que seria desejável, temos conseguido melhorias assinaláveis que, doutro modo, não seria possível. Temos de concordar com os que afirmam que a Europa não tem força para impor o que quer seja e tem cometido o erro de escolher responsáveis, na sua maioria, sem classe, sem visão e sem força, para a liderança. Estamos num beco com uma saída, cada vez mais estreita, entregues à loucura de um Putin que age sem respeito por nada nem ninguém, de um Trump que mais parece um comediante afirmando uma coisa e o seu contrário nem sabendo bem como foi possível a América o ter escolhido para liderar tão grande nação; de um tirano que, à frente de Israel sempre escolheu as armas como seu aliado e de um líder iraniano que, tal como os seus companheiros, vive obcecado pela ideia de submeter toda a população do globo a uma doutrina sanguinária que é a dele. Vivemos, de facto, tempos de incerteza, medo, ansiedade e pânico em que o respeito, a dignidade, a justiça, a generosidade, a solidariedade e o amor foram apagados do manual de procedimentos quotidianos. Até quando ficaremos sujeitos a toda esta “tralha”? E o que será que nos poderá acontecer?
Que o Papa Francisco bata ao coração de todos eles se é que ainda têm coração e os acorde para as realidades e sentimentos que devem nortear as comunidades, as pessoas e os países que formam a Casa Comum. Resta-nos ter confiança, fé e esperança no futuro.
Em 2004, o cinema europeu presenteou-nos com Les Choristes (Os Coristas), um filme francês que rapidamente conquistou o mundo, não pela grandiosidade de efeitos especiais, mas pela delicadeza de uma história que nos recorda o poder transformador da música. Situado num internato para rapazes problemáticos nos anos 40, o filme acompanha Clément Mathieu, um professor de música que decide formar um coro com os seus alunos como forma de os educar, unir e dar-lhes uma nova visão do mundo.
Entre as músicas mais marcantes da banda sonora, destaca-se Caresse sur l’Océan — uma composição delicada, melódica, quase etérea, que evoca a beleza e a paz do oceano. Cantar ou ouvir esta música é, para muitos, uma experiência emocional. Mas mais do que isso, ela representa a ideia central do filme: a música pode ser um refúgio, uma forma de expressão e, acima de tudo, uma via para o crescimento humano.
Aqui na Sociedade Musical Estrela da Beira, identificamo-nos profundamente com essa mensagem. Embora os nossos jovens músicos não venham de um internato severo, partilham entre si o contacto com uma arte que os educa, os disciplina e os une. Em cada ensaio, há mais do que um trabalho técnico. Há escuta, respeito mútuo, perseverança e descoberta. A música, tal como em Les Choristes, torna-se uma ferramenta poderosa de desenvolvimento pessoal.
Ao longo dos anos, temos visto muitos jovens que entram na banda com timidez ou insegurança, mas que, com o tempo e o apoio da comunidade musical, florescem como pessoas e como músicos. Formar parte de um grupo onde cada instrumento conta e cada silêncio é respeitado é, no fundo, uma escola de vida. A música ensina a esperar, a ouvir, a contribuir — e isso são lições que se transportam para todos os aspetos da vida.
Tal como Clément Mathieu acreditava nos seus alunos quando ninguém mais o fazia, também os nossos maestros e professores acreditam nos jovens que chegam à nossa escola de música. O talento pode vir com o tempo; o mais importante é a dedicação e o gosto por aprender.
Convidamos quem ainda não viu Les Choristes a fazê-lo — é uma lição sobre o impacto duradouro que a arte pode ter na vida de uma criança. E convidamos também a comunidade a continuar a apoiar a Sociedade Musical Estrela da Beira, uma banda onde se pratica diariamente essa mesma crença: que a música não serve apenas para entreter, mas para tocar, educar e transformar.
Próximos serviços da banda: 12 julho: Audições da Escola de Música da SMEB; 18 julho: Marchas Populares (A. R. C. Vodrense) – Vodra; 20 julho: Santo Aleixo – Vodra; 27 julho: Concerto – Grupo Desportivo Recreativo Santa Marinha (GDRSM) – Santa Marinha.
Abre esta quinta-feira, 17 de julho, pelas 17h07, um novo espaço comercial em São Romão que promete dar que falar entre os apreciadores de vinho e não só.
O “The 767 Wine Bar”, localizado na Rua de Santo António, número 7, aposta numa oferta de vinhos de qualidade num ambiente descontraído e acolhedor.
Apresentando-se como um espaço “onde o Dão ganha nova vida”, o “The 767 Wine Bar” pretende ser um ponto de encontro para quem valoriza os produtos locais e a boa companhia. “Cada garrafa conta uma história, cada copo é uma viagem ao coração da Serra”, lê-se na nota de divulgação da empresa nas redes sociais.
A abertura oficial está marcada para o final da tarde, e todos são convidados a brindar a este novo capítulo na vida comercial da vila. Um projeto que alia tradição e modernidade, e que o Jornal de Santa Marinha se orgulha de divulgar, por contribuir para o dinamismo económico e social da região.
A Autoridade de Gestão do Programa Regional do Centro (Centro 2030) e as entidades líderes das Estratégias de Eficiência Coletiva da Náutica do Centro de Portugal, da Explore: iNature & Center Geoparks 2030 e da Valorização dos Territórios Termais formalizaram ontem, dia 14 de julho, em Gouveia, a assinatura dos Planos de Ação do Programa de Valorização Económica de Recursos Endógenos (PROVERE). Estes Planos de Ação visam promover a cooperação e a inovação em cada uma destas áreas estratégicas, através da implementação de projetos que valorizem os recursos endógenos, fortaleçam a identidade regional e contribuam para o desenvolvimento sustentável dos territórios e comunidades envolvidas.
Isabel Damasceno, presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, I.P. (CCDR Centro) explica que «com estes três planos de ação, conclui-se a aprovação dos nove planos de ação para Valorização Económica de Recursos Endógenos da Região Centro, que totalizam um apoio dos fundos europeus de 19,5 milhões de euros. Estes nove planos de ação, que mobilizam parcerias entre instituições públicas, associações, empresas e entidades do sistema científico e tecnológico, pretendem aproveitar as potencialidades territoriais, dinamizando a atividade económica e reforçando a atratividade dos territórios».
A estratégia “Náutica do Centro de Portugal”, que terá um apoio do Programa Centro 2030 de 1,5 milhões de euros, constitui-se como um conjunto estruturado de iniciativas com vista à implementação de uma estratégia inovadora para valorizar e promover as Estações Náuticas do Centro de Portugal, como base para o turismo sustentável, ao estruturar e qualificar a oferta de serviços náuticos, criar destinos náuticos certificados e competitivos a nível nacional e internacional, incentivar o empreendedorismo e o investimento privado ligado ao setor náutico e potenciar a prática desportiva e o contacto com a natureza.
A estratégia “Explore: iNature & Center Geoparks 2030”, que terá um apoio do Programa Centro 2030 de 2,25 milhões de euros, mobiliza tematicamente o património natural para a valorização da Região Centro enquanto destino de natureza, saúde e bem-estar, no contexto dos territórios de grande valor para a conservação da biodiversidade, no âmbito da Rede Nacional das Áreas Protegidas, da Rede Natura 2000 e dos Geoparques aspirantes e já classificados pela UNESCO. Esta estratégia pretende estruturar um modelo sustentável de turismo de natureza, valorizando o património geológico e ambiental através de trilhos, centros interpretativos, capacitação local, experiências científicas e novas plataformas digitais de promoção. O projeto integra a marca iNature e aposta na criação de pacotes turísticos inovadores.
A estratégia da Valorização dos Territórios Termais, que terá um apoio do Programa Centro de 1,5 milhões de euros, reúne 25 territórios termais numa estratégia coletiva voltada para a valorização das águas minerais naturais. O objetivo é promover a inovação, sustentabilidade e competitividade do ecossistema termal, posicionando a Região Centro como uma referência nacional e internacional no termalismo, através do reforço da atratividade turística, da criação de produtos turísticos associados ao bem-estar e à saúde, bem como o aumento da estadia média dos visitantes. Visa também a criação de rotas termais e incentivo à investigação na área.
No próximo dia 2 de agosto, pelas 17 horas, vai ser apresentado, publicamente, na Sala dos Bombeiros Voluntários de Loriga, o livro “Das Jurisdições Senhoriais Medievais em ‘Terras de Sena’, aos Forais Novos de Loriga, Sandomil e Alvôco da Serra”, da autoria de José A. da Silva Amaro.
Segundo o autor, “esta é uma obra densa e rigorosa que resgata a memória institucional, jurídica e política da região demarcada pela “Terras de Sena”, traçando a evolução das jurisdições senhoriais desde os tempos visigóticos até às reformas manuelinas do século XVI.”
O livro percorre um extenso arco cronológico, iniciando-se nas disputas fronteiriças entre Coimbra e Egitânia durante a época visigótica, passando pelos impactos do Califado Almóada e pela retoma cristã com a Reconquista Leonesa, para depois centrar-se no papel estratégico da cidade de Seia, recuperada por D. Fernando I, ‘o Magno’, em 1055. Neste contexto, ganha relevo o estudo do Foral de Seia de 1136, cuja análise minuciosa abrange os aspetos económicos, militares, judiciais e processuais da governação local, oferecendo um retrato vivo da sociedade e das práticas jurídicas no dealbar da nacionalidade.
A obra detém-se na importância do Condado Portucalense e da ação política de D. Afonso Henriques nas “Terras de Sena”, destacando as transformações introduzidas pelas linhagens nobres, em especial os ‘de Trava’, bem como a imposição de autoridade através das inquirições régias e da organização do espaço sob domínio senhorial. Com base nas Inquirições Gerais de 1258 e nos Numeramentos do século XV, o autor examina os mecanismos de contenção do poder feudal e das ordens religiosas, identificando as estratégias régias de verificação tributária, redefinição de fronteiras e afirmação jurisdicional.
No centro da narrativa está a análise comparada dos Forais Novos manuelinos outorgados a Loriga, Sandomil e Alvôco da Serra, com especial atenção às suas cláusulas cíveis, fiscais e penais. O livro evidencia as diferenças e similitudes entre os regimes aplicáveis a cada concelho, refletindo a persistência de costumes locais e a tentativa da Coroa em consolidar uma linguagem jurídica uniforme. Para compreender o contexto da sua promulgação, o autor investiga a influência das linhagens nobres na região, em particular a família Machado, que desde o século XIV deteve as jurisdições senhoriais das três localidades, acumulando prerrogativas significativas na Casa Real da Beira.
A obra conclui com uma reflexão sobre o impacto das reformas liberais do século XIX e a consequente extinção dos forais, encerrando um ciclo histórico que perdurou por séculos no interior montanhoso do reino.
José A. da Silva Amaro nasceu em Lisboa, em 1964, e possui raízes familiares em Loriga. É licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, com pós-graduações em Direito da Proteção de Dados da União Europeia, pelo Centro de Investigação de Direito Privado, e em Direito dos Valores Mobiliários e Mercados Financeiros. Desenvolve uma carreira internacional como consultor jurídico nas áreas do Direito da União Europeia, da cibersegurança e das infraestruturas críticas, com atuação em projetos apoiados pela União Europeia e pelas Nações Unidas. É autor de múltiplos artigos e publicações em revistas internacionais de referência e tem dedicado parte significativa da sua investigação à História do Direito Português, com especial interesse pela interseção entre as esferas jurídica, institucional e identitária.
A obra agora publicada inscreve-se na continuidade de um percurso dedicado à valorização da memória local e do património jurídico da Beira Interior, sendo antecedida pelas publicações “Onde Dormem as Bétulas” e “511 Anos do Foral Manuelino de Loriga”, ambas lançadas em 2025.
Este evento tem o apoio da Junta de Freguesia de Loriga e dos Bombeiros Voluntários de Loriga.
O Município de Seia promove, no próximo dia 2 de agosto, mais uma edição do Passeio Expedicionário à Serra da Estrela, com o mote “Vamos aos Cântaros”. A iniciativa convida os participantes a percorrer alguns dos locais emblemáticos cartografados na histórica Expedição Científica à Serra da Estrela de 1881, organizada pela Sociedade de Geografia de Lisboa.
Com início na Torre, o percurso pedonal desenvolve-se ao longo de 8 quilómetros no planalto superior da Serra da Estrela, numa caminhada interpretada que conta com o acompanhamento da historiadora Helena Gonçalves Pinto, autora da obra “Uma Viagem ao Cume do Conhecimento – A Expedição Científica à Serra da Estrela em 1881”, publicada em 2022 pela autarquia senense.
A atividade é organizada pelo Município de Seia e interpretada pelos técnicos do CISE – Centro de Interpretação da Serra da Estrela e pela referida investigadora. O percurso inclui a passagem por diversos pontos de elevado valor natural e histórico, como o Covão das Quelhas, Covão de Alva, Covão da Estrela, Covão da Azenha, Covão do Boi e os imponentes Cântaros.
Durante o passeio, serão evidenciados episódios, curiosidades e pormenores sobre a expedição pioneira realizada há 143 anos, a qual permitiu revelar e documentar, de forma inédita, as múltiplas dimensões da Serra da Estrela — geográfica, climática, orográfica, antropológica, etnográfica, arqueológica e médica.
Resultado de um esforço coletivo de reputados investigadores e académicos, a expedição de 1881 representou um marco na história da ciência em Portugal, produzindo um legado notável de conhecimento sobre a Serra da Estrela, que ainda hoje continua a inspirar novas gerações de estudiosos e apaixonados por este território único.
A participação carece de inscrição prévia através da plataforma www.visitseia.pt.
“A nossa vida está aqui e, se Deus quiser, será aqui que ela terminará. Só se acontecer algo realmente inesperado é que poderemos considerar deixar os Estados Unidos. Rezo para que isso nunca aconteça.”
Francisco Ambrósio, natural de Seia, e a sua esposa Olga, com raízes em África e criada nos Estados Unidos, conheceram-se no liceu de Seia. De referir que Olga veio para Paranhos da Beira com 12 anos, após o regresso dos seus pais, também eles emigrantes, dos EUA.
O plano de emigrar para os Estados Unidos foi sugerido por Olga, e este passo marcou um ponto de viragem nas suas vidas. Casaram-se em Paranhos da Beira em agosto de 1982 e partiram para os Estados Unidos em dezembro de 1984.
Em New Jersey (Nova Jérsia), Olga rapidamente conseguiu trabalho num banco em Nova Iorque, num dos edifícios que viriam a ser destruídos no 11 de setembro. Após um tempo, decidiram formar família, e Olga dedicou-se à criação das duas filhas, nascidas nos EUA. Francisco continuou a trabalhar numa empresa onde os seus esforços foram reconhecidos, permitindo-lhe crescer profissionalmente e pessoalmente durante trinta e três anos, até ao fecho da empresa devido ao falecimento do proprietário.
Atualmente, Francisco trabalha como consultor, ajudando os seus clientes que atuam no setor do fabrico de produtos de joalharia, a expandir os seus mercados, e Olga está reformada. As suas filhas casaram e já têm os seus próprios filhos, consolidando a família que Francisco e Olga construíram nos Estados Unidos. Apesar de guardarem boas recordações de Seia, da sua cultura e gastronomia, o casal não planeia regressar a Portugal, pois o afastamento da família que construiu seria demasiado difícil. “Não digo que nunca o farei, mas voltar significaria deixar para trás, mais uma vez, a família que eu e a minha esposa construímos com muito empenho. Esse afastamento seria demasiado difícil para nós”, salienta Francisco.
A história de Francisco e Olga é um testemunho de uma vida feliz e realizada nos Estados Unidos, construída com empenho e amor familiar.
ENTREVISTA
Jornal de Santa Marinha (JSM): O que o levou a emigrar e qual o país que escolheu?
Francisco Ambrósio (FA): Num artigo anterior deste jornal, o conterrâneo emigrante António João Ferrão usou uma expressão que achei interessante: ele considera-se um “senense de gema”.
No meu caso, considero-me cem por cento senense, embora tenha nascido em Gouveia. Diria que sou um senense — não de gema — mas, sem dúvida, senense. Os meus pais, já falecidos, eram naturais do concelho de Gouveia, e foram pessoas de quem me orgulho imensamente. O meu pai, o senhor Manuel Ambrósio — também conhecido por “senhor Manuel dos Seguros”, por vender seguros em part-time — foi, além de um excelente pai, um funcionário dedicado da Hidroelétrica de Seia, que mais tarde veio a ser a EDP. A minha mãe, Emília Ambrósio, foi igualmente um pilar na nossa vida. Juntos tiveram dois filhos: eu e o meu irmão mais velho, o engenheiro Eduardo Ambrósio — esse sim, um senense de gema.
Francisco, em baixo, à direita.
Um dos laços que mantenho com Seia é a minha dedicação ao hóquei em patins, através da União Desportiva de Seia, que me deixou muitas boas recordações. Outro elo importante foi o facto de ter conhecido aí aquela que viria a ser a minha esposa, Olga Mendes, na altura residente em Paranhos da Beira. Sem a Olga, possivelmente eu hoje não teria história para contar enquanto emigrante.
JSM: E o que o levou a emigrar?
FA: Muito simplesmente: a Olga, na altura ainda minha namorada.
Durante a juventude, a minha ideia de emigração resumia-se a trocar Portugal por outro país, com o objetivo de ganhar muito dinheiro, num determinado número de anos e, depois, regressar para viver uma “vida de rei” — como se dizia na altura. No entanto, essa perspetiva nunca me atraiu. Não que não desejasse algum conforto financeiro, mas a verdade é que nunca encontrei grande valor no sacrifício necessário para o alcançar. A ideia de abandonar o país, por esse motive, parecia-me vazia de sentido, sobretudo do ponto de vista patriótico. Emigração não fazia parte dos meus planos.
Foi por volta dos meus 17 anos que a Olga mudou a minha forma de pensar — e, consequentemente, o rumo da minha vida. Nascida em África e criada nos Estados Unidos, ela veio para Paranhos da Beira por volta dos 12 anos, quando os pais — emigrantes nos EUA — regressaram a Portugal, depois de o pai ter sido diagnosticado com uma doença terminal. Conhecemo-nos no liceu de Seia e, depois de algum tempo de namoro, fez-me uma pergunta que me deixou perplexo: “Quais são os teus planos para o futuro?”
Planos? Nem sabia bem o que isso queria dizer. Provavelmente até fui procurar no dicionário…
Um pouco envergonhado, respondi-lhe que não tinha grandes planos e a Olga sugeriu que considerássemos construir uma vida nos Estados Unidos. Segundo ela, o país oferecia oportunidades para ambos e, especialmente, para mim, pois achava que a minha personalidade se encaixava num ambiente de oportunidades — caso estas me fossem apresentadas. Mais tarde vim a reconhecer que ela tinha razão, sobretudo na parte do “caso me fossem apresentadas”.
Curiosamente, a Olga nunca me falou em ser “rico” nem em ganhar “muito dinheiro”. Falava, apenas, em “oportunidades”. O dinheiro, para nós, surgiu como consequência — nunca como objetivo principal.
Francisco e Olga com os pais da Olga
Francisco e Olga, com os pais de Francisco
Essa conversa foi, sem dúvida, um ponto de viragem na minha vida, ou melhor, na nossa vida. Decidimos casar — o casamento teve lugar em Paranhos da Beira, em agosto de 1982 — e, a partir daí, as nossas visões individuais fundiram-se numa visão conjunta.
Francisco, Olga, irmão de Francisco, o Eng. Eduardo Ambrósio, e sua esposa, Arlete, de Paranhos da Beira
Passámos, então, a sonhar livremente com esse futuro comum, sem limitações, num período que foi, sem dúvida, dos mais entusiasmantes das nossas vidas. O que se passou entre essa fase e a chegada aos Estados Unidos daria outra história, mas, resumindo, acabámos por emigrar em dezembro de 1984.
JSM: Já tinha amigos ou familiares nos Estados Unidos?
FA: Da minha parte, não conhecia ninguém nos Estados Unidos. Não tinha lá familiares nem amigos. A minha esposa, sim — já tinha dois irmãos no país e algumas amizades de longa data da família.
Foram eles que nos deram as primeiras orientações e nos ajudaram a dar os passos iniciais. O acolhimento foi caloroso e o apoio essencial, sobretudo nos primeiros tempos. Ajudaram-nos com conselhos práticos e até na procura de trabalho. Se não fosse essa rede de apoio, a adaptação teria sido muito mais difícil.
JSM: Foi difícil a sua adaptação?
FA: Apesar de me ter deparado logo com uma grande diferença cultural, nunca senti verdadeiras dificuldades de adaptação. Creio que isso se deve, em grande parte, à companhia e ao apoio da minha esposa, que sempre me transmitiu segurança e afastou o receio do desconhecido. Aquilo que para muitos poderia ser um motivo de ansiedade, para mim tornou-se antes uma fonte de curiosidade.
Recordo com nitidez uma experiência marcante: no segundo dia após a nossa chegada aos Estados Unidos, o irmão da minha esposa levou-nos a um centro comercial. Fiquei impressionado com a diversidade que encontrei — diferentes raças, línguas, gastronomias, costumes — tudo coexistia num ambiente de aparente harmonia. Isso fez-me pensar que só um país verdadeiramente especial conseguiria acolher tamanha diversidade de forma tão natural.
Com o passar do tempo, apercebi-me de que essa convivência harmoniosa pode, infelizmente, ser distorcida por interesses políticos. Há quem procure explorar tensões ou criar divisões, por vezes levantando acusações infundadas de racismo quando, na verdade, o que se vive no dia-a-dia é, muitas vezes, o oposto — um convívio pacífico entre pessoas de diferentes origens. Essa manipulação é profundamente infeliz, pois perturba, intencionalmente, uma ordem natural de respeito e convivência, com o objetivo de atingir fins políticos à custa do bem-estar de comunidades que, sem essas interferências, viveriam em plena harmonia.
JSM: O que mais lhe custou?
FA: O que mais me custou foi confrontar-me com a realidade de que estava a entrar numa nova fase da vida — uma transição em que percebi, com clareza, que chegara o momento de agir. Não se tratou propriamente de dor, mas antes de uma tomada de consciência: era tempo de assumir responsabilidades, de me afastar, em certo sentido, de um passado em que nunca tinha sentido verdadeiramente esse peso.
Senti que, se Deus me estava a conduzir por aquele caminho, o mais sensato seria acolher essa oportunidade com gratidão e sentido de compromisso.
Foi também nesse momento que compreendi que esta mudança trazia consigo um custo: o afastamento físico da família que deixámos em Portugal — especialmente dos meus pais. Essa separação, ainda que necessária, teve um peso emocional significativo.
JSM: E o que mais falta lhe faz?
FA: É neste ponto que o emigrante tem de fazer escolhas — decidir o que deixa para trás e o que leva consigo. E é também nesse processo que nos apercebemos, com maior clareza, do que realmente nos faz falta.
No meu caso, deixei para trás o contacto direto com a família, os amigos, a terra onde cresci… essa presença física que marca e que, de certa forma, molda quem somos.
Mas o que guardei — e continuo a guardar — são os valores essenciais: a família e a fé.
A fé, em particular, tem um papel enorme nestas alturas. Felizmente, os meus pais, sobretudo a minha mãe, transmitiram-me muito sobre o valor da fé. E, para meu consolo, a fé sempre foi, e continua a ser, também uma grande qualidade da minha esposa. Diz-se que, onde há fé, nada falta — e posso dizer, com sinceridade, que nunca senti, nem sinto, a falta de nada essencial.
JSM: A língua foi um grande obstáculo ou conseguiu, facilmente, aprender?
FA: Para a minha esposa, a língua nunca representou qualquer dificuldade — falava e escrevia inglês fluentemente. No meu caso, foi um verdadeiro obstáculo. Apesar de ter aprendido o básico de inglês na escola, não conseguia comunicar de forma eficaz: nem compreender o que me diziam, nem expressar-me de forma útil.
Contudo, como nos instalámos numa comunidade portuguesa, raramente sentia necessidade de falar inglês. Isso teve vantagens, claro, mas também um lado negativo — atrasou bastante o meu processo de aprendizagem da língua.
Foi apenas quando comecei a trabalhar num ambiente onde quase ninguém falava português que fui, finalmente, forçado a aprender. Nessa fase, o inglês que tinha aprendido na escola revelou-se uma ajuda preciosa.
JSM: Em que estado residem?
FA: Sempre residimos no estado de Nova Jérsia (New Jersey).
JSM: Há uma grande comunidade portuguesa na zona onde reside? Trabalham em que áreas?
FA: Existe uma grande comunidade portuguesa no estado. A diferença face ao tempo em que chegámos é que, atualmente, a comunidade está mais dispersa. As novas gerações, por frequentarem escolas americanas, deixaram de depender tanto da língua portuguesa, o que lhes permitiu mudar-se para outras localidades em busca de novas oportunidades.
Quando chegámos, a maior parte dos portugueses estava concentrada na área da construção civil. Hoje, encontram-se portugueses em todos os níveis da sociedade nos Estados Unidos. A comunidade portuguesa é muito bem vista e respeitada no país.
JSM: Os Estados Unidos ainda continuam a ser “a terra das oportunidades”?
FA: Não, mas isso não significa, de forma alguma, que deixaram de o ser. Infelizmente, a disponibilidade de oportunidades atraiu a atenção de políticos de esquerda, que encaram os benefícios dessas oportunidades como uma grande vantagem da ideologia capitalista. Como consequência, o país ficou dividido. O que quero dizer é que o espírito de oportunidade continua profundamente enraizado na cultura americana, o que está em causa é se essas oportunidades voltam a florescer. Assim, se eu estiver certo, se as condições políticas mudarem de repente, é muito provável que as oportunidades voltem a surgir.
JSM: Com a eleição do novo presidente Trump, nota que o país e as pessoas estão a adaptar-se às inúmeras medidas que têm vindo a ser impostas?
FA:O que eu vejo é que a vitória do Donald Trump trouxe um grande alívio ao país. Antes, havia muita desordem, falta de respeito pela sociedade, desrespeito pelas leis e uma grande incompetência e falsidade por parte dos políticos Democratas. Há pessoas que confiam plenamente no Trump, outras que o veem só como alguém que combate o absurdo, e há quem o odeie, mesmo que seja só por gostar de odiar alguém. Ainda não se sabe se Trump vai ser bem-sucedido ou não como presidente. Mas, por agora, parece ser a melhor esperança para evitar que o país caia numa situação ainda pior.
JSM: Como está a economia, o emprego, a saúde, a educação e o mercado de trabalho neste país?
FA: O que referi anteriormente, sobre o clima político, aplica-se também a esta questão. A política que antes assentava em acordos entre os partidos, onde as decisões favoreciam o partido maioritário, deu lugar a uma política de oposição permanente, em que o que um partido faz, o outro procura desfazer. Por isso, acredito que o país está num impasse, que se reflete na economia em geral.
Contudo, enquanto nação, mantém-se o desejo de progresso, paz e estabilidade, apenas faltando a liderança adequada para o concretizar.
Por isso, a economia, o emprego, a saúde, a educação e o mercado de trabalho estão muito aquém do potencial que este país tem.
JSM: Quando emigrou começou logo a trabalhar? O que fazia?
FA: Antes de chegar, os amigos disseram-me que, provavelmente, iria trabalhar na construção civil, pois a maioria dos empregos disponíveis era nessa área. Apesar de estar preparado para isso, acabei por conseguir dois trabalhos: um como ajudante de soldador e outro, em part-time, na demolição de edifícios em Manhattan, Nova Iorque.
Entretanto, a minha esposa coseguiu um emprego, por intermédio de uma amiga da família, num escritório de uma fábrica de joalharia.
Quanto à nossa formação académica, ambos tínhamos concluído o 12.º ano em Portugal. Além disso, eu frequentei, quase na totalidade, à noite, um curso de eletromecânica e, com o incentivo da minha esposa, fiz, também, um curso rápido de desenho arquitetónico. Embora um deles não tenha sido terminado e o outro fosse básico, estes cursos foram importantes para o início da minha carreira nos Estados Unidos. O curso de desenho arquitetónico permitiu-me ainda trabalhar, em Portugal, na empresa Manuel Rodrigues Gouveia, onde tive o prazer de conhecer o engenheiro Gouveia e o seu pai — uma experiência que guardo com muito apreço. Este trabalho terminou quando obtivemos o visto para emigrar.
A formação académica não teve influência direta na procura dos primeiros empregos, porque a prioridade era aceitar o que estivesse disponível para garantir estabilidade financeira. Depois de conseguirmos isso, fazíamos ajustes tendo em conta a nossa formação, caso esta não estivesse a ser aproveitada. Ou seja, a formação servia como um valor acrescentado para evoluir, mais do que para iniciar a carreira — e isso acabou por acontecer naturalmente, tal como as oportunidades surgiam.
Entretanto, nos EUA, o patrão da minha esposa perguntou-lhe o que eu fazia em Portugal. Quando soube, mostrou interesse, chamou-me para uma entrevista e acabou por me contratar como mecânico ferramenteiro (tool-maker).
Foi cerca de um ano após a nossa chegada que tudo começou a tomar um rumo mais previsível. A minha esposa conseguiu trabalho num banco em Nova Iorque, curiosamente num dos edifícios que, mais tarde, foram destruídos no atentado de 11 de setembro. Depois disso, decidimos começar uma família. Ela interrompeu a sua promissora carreira para criar as nossas duas filhas, nascidas conforme os nossos planos. Eu continuei a trabalhar noutra empresa, onde os responsáveis reconheceram em mim uma vontade de crescer, tanto a nível pessoal como para a empresa. Com o apoio deles, continuei a minha formação e trabalhei lá durante trinta e três anos, até ao falecimento do dono, quando a empresa fechou.
Esta história confirma o que a minha esposa tinha previsto anos antes: alguém nos Estados Unidos iria reconhecer algo em mim e dar-me oportunidades — uma “profecia” que se concretizou, sem dúvida.
Durante essas três décadas, adquiri muita experiência técnica em engenharia mecânica, incluindo conhecimentos em CAD/CAM, automação e robótica. Após o encerramento da empresa, passei a trabalhar como consultor, tendo clientes nos EUA e também fora do país, hoje maioritariamente fora dos EUA. A minha esposa está reformada, depois de ter regressado ao trabalho por mais doze anos, desta vez como codificadora de faturação médica.
JSM: Por que razão mudou de profissão? O que faz atualmente?
FA: Na verdade, não mudei de profissão, mas comecei a exercer a minha profissão de uma forma diferente — deixei de ser empregado e passei a consultor.
Por questões de confidencialidade acordadas com os meus clientes no estrangeiro, não posso revelar muitos detalhes. No entanto, de forma simples, o meu trabalho consiste em ajudar os meus clientes, que atuam no setor do fabrico de produtos de joalharia, a expandir os seus mercados em áreas onde tenho experiência e eles não. A consultoria que faço abrange tanto aspetos técnicos como administrativos.
JSM: Costuma vir com frequência a Seia?
FA: Deixei de ir a Portugal desde que os meus pais faleceram, há cerca de cinco anos. Não foi por falta de vontade de visitar, mas sim por falta de tempo e porque a vida familiar nos EUA é bastante ocupada — com as nossas filhas, genros, netos e a nossa própria vida pessoal.
Uma família feliz. Os gatos e um cão não quiseram ficar na foto
JSM: Vai conseguindo acompanhar, com regularidade, o que se vai passando na sua terra natal? De que forma?
FA: Consigo acompanhar com alguma regularidade, sobretudo através da comunicação que mantenho com o meu irmão. Ele, como já referi, é um verdadeiro Senense e preocupa-se em manter-me informado sobre o que se passa por lá. Prova disso é que me ofereceu uma assinatura deste jornal, um gesto que considero muito simpático e que revela o seu enorme interesse em divulgar as notícias da nossa terra natal.
JSM: Como caracteriza o concelho de Seia? Sente saudades da sua terra?
FA: O concelho de Seia destaca-se pela beleza da Serra da Estrela e pela sua rica gastronomia, entre outras qualidades. Mas, para além de tudo isso, o concelho representa as minhas raízes.
Tenho muito orgulho de ser Senense e isso permite-me contar às nossas filhas e netos as histórias da minha terra natal e da nossa família. Quando vou a um supermercado daqui, compro sempre, com muito orgulho, um queijinho de Seia e umas chouriças da Serra.
JSM: Está nos seus planos o regresso a Portugal e mais concretamente a Seia?
FA: Não está nos meus planos regressar a Portugal, pelo menos para já. Não digo que nunca o farei, mas voltar significaria deixar para trás, mais uma vez, a família que eu e a minha esposa construímos com muito empenho. Esse afastamento seria demasiado difícil para nós.
A nossa vida está aqui, e se Deus quiser, será aqui que ela terminará. Só se acontecer algo realmente inesperado é que poderemos considerar deixar os Estados Unidos. Rezo para que isso nunca aconteça.
JSM: Uma mensagem para todos os emigrantes e, principalmente, para os senenses…
FA: Geralmente, os emigrantes partem com o objetivo de conquistar certas vantagens para si próprios. Emigrar para alcançar uma estabilidade financeira confortável e, depois, regressar à terra natal é um exemplo disso.
Adeus, um abraço para todos os emigrantes e Senenses
No entanto, parece que muitos emigrantes esquecem a influência cultural e económica que exercem nos países que os acolhem, sobretudo no que toca à adaptação e assimilação.
O que quero dizer, usando os Estados Unidos como exemplo, é o seguinte: os EUA são um país que se desenvolveu com base num sistema político capitalista. Ao mesmo tempo, a maioria dos emigrantes que chegam vem de países com tendências governamentais socialistas. É fácil observar que muitos emigrantes usufruem com gosto dos benefícios do capitalismo, mas votam nos EUA como se estivessem nos seus países de origem — países esses que tiveram de abandonar precisamente porque não acolhiam o sistema capitalista.
Comparo isto a visitar um belo jardim de rosas, cortar as flores para apreciar o seu perfume e levá-las para casa, mas deixar o jardim depenado para quem vier depois.
Não quero dizer que os emigrantes devam votar contra os seus princípios apenas por gratidão ao país que os acolheu, mas querer tudo para si sem dar algo em troca é um pouco egoísta. Acredito que os emigrantes poderiam fazer mais para influenciar positivamente o ambiente que deixam para as gerações futuras.
A minha mensagem para todos os emigrantes é: tenham consciência de que as vossas ações no país que vos acolhe têm um grande impacto no legado que deixam para os que vêm depois.
Olhando para trás, posso concluir que a minha vida tem sido bastante agradável e emocionante, e atribuo isso, em grande parte, ao facto de ter emigrado. Não sei o que teria sido se não tivesse emigrado, mas isso já pouco importa, pois a vida segue o seu curso e é como é. De uma forma ou de outra, vivo uma vida feliz com a minha esposa e a nossa família.
Vivemos perto da água, o que nos dá muitas oportunidades para passarmos tempo juntos como família, a apreciar o nascer e o pôr do sol vistos do nosso barco. Todos levamos uma vida ocupada, mas feliz. É comum ouvir emigrantes dizerem que vivem uma “vida de emigrante”.
Tenho agora 65 anos, trabalho muito, mas adoro cada minuto do meu trabalho, o que é uma sorte, pois a flexibilidade que ele me oferece permite alternar facilmente entre uma vida profissional ativa e um estilo de vida mais tranquilo, próprio de reformado, no qual tenho o prazer de desfrutar momentos agradáveis com a minha esposa e o resto da família.
Para concluir, tenho muitíssimas graças a dar a Deus pela posição em que me encontro, e o mais interessante é que tudo isto começou num lugar tão característico e lindo — Seia.
Entre os dias 4 e 9 de agosto, o Ocupar a Velga regressa a Valezim, no concelho de Seia, com uma breve passagem na vizinha freguesia de Sazes da Beira.
Inspirada nos tempos de transição que estamos a viver, esta edição – que já é a quarta – acolhe espetáculos de circo, dança, teatro e música, bem como escultura, oficinas, sessões de cinema e leitura. A arte é mote para imaginar, pensar, libertar e faz-se em espaço público, juntando nomes de referência nacional a nomes que têm feito a diferença local.
O OCUPAR A VELGA é um projeto da Produção d’Fusão, financiado pela Direção-Geral das Artes, BPI | Fundação “La Caixa”, Câmara Municipal de Seia, Junta de Freguesia de Valezim e Junta de Freguesia de Sazes da Beira.