É certo e sabido que quando existem vários protagonistas num acontecimento, sobretudo tratando-se de um acontecimento controverso, cada protagonista conta a história da maneira que mais lhe interessa ou com uma narrativa que lhe é mais conveniente, de modo a defender as razões da sua posição nesse acontecimento.
Assim acontece com as histórias da História que aprendemos na escola, com as quais formatamos as nossas opiniões e linhas de pensamento.
No entanto, com o tempo e à medida que vamos recolhendo mais informação, de fontes mais diversificadas, e a nossa curiosidade e poder de análise objetiva se vai afinando, podemos alterar a nossa visão sobre determinados factos, anteriormente tomados como definitivamente esclarecidos e que não admitiam objeções.
Aconteceu comigo em situações diferentes, tendo alterado a minha visão sobre as cruzadas e, mais recentemente, sobre a presença e influência dos muçulmanos na península ibérica.
Sobre as cruzadas, sobre as quais apenas conhecia a visão do “nosso” lado, do lado ocidental, tida como a parte boa, mudou radicalmente a partir do momento em que li, há cerca de trinta anos, o livro “As Cruzadas vistas pelos Árabes”, do escritor libanês Amin Maalouf. As versões entre os invasores e os invadidos não coincidem, parecendo mesmo relatarem acontecimentos diferentes, nenhuma delas estará correta mas, uma coisa é certa, a versão que nos contaram está longe das boas intenções das expedições militares e das boas práticas cristãs.
Sobre os muçulmanos, após uma recente visita à Andaluzia, mais concretamente às cidades de Córdova e Granada, sobre domínio mouro dos séculos VIII ao XV, é impossível ficar indiferente às marcas da dimensão da sua presença (uma mesquita para 40.000 crentes, em Córdova) e ao rico legado arquitetónico (complexo palaciano Alhambra, em Granada), de características diferentes mas que supera, em minha opinião, em beleza e em pormenor estético, o legado deixado pelos romanos na península.
Mas um outro pormenor não passa despercebido. A forte presença, na rua, comércio, hotéis, restaurantes e locais públicos, de população de origem muçulmana, alguma de longa data, talvez por sentirem o chamamento do passado e outra, tal como em Portugal, com origem na imigração, muito especialmente do norte de África.
Mas há um outro pormenor que apenas se conhece contactando com quem vive em Granada. Tem sido costume comemorar festivamente o dia 2 de Fevereiro de 1492, data em que o último rei muçulmano de Granada, Boabdil, entregou as chaves dos palácios de Alhambra, que deixou intactos, aos monarcas espanhóis Fernando de Aragão e Isabel de Castela, simbolizando a rendição da cidade. Acabou, assim, o último reino muçulmano da Espanha e, com a queda de Granada, encerrou a Reconquista, um longo período de conflitos entre cristãos e muçulmanos na Península Ibérica.
Acontece que tem sido cada vez mais controversa a comemoração anual desta data, dado que a população muçulmana, cada vez mais expressiva, é contrária a esta comemoração, havendo mesmo quem antecipe o seu cancelamento para breve e ainda, numa atitude provocante, antecipe uma “reconquista” em sentido inverso.
É certo que a realidade, em qualquer região de Portugal, é bem diferente daquela que acabo de relatar, mas não deixam de ser sinais bem diferentes daqueles que vínhamos vivenciando e há movimentos que, por serem naturais, são imparáveis pela força.
A RECONQUISTA





