Há sinais subtis de que uma sociedade se começa a afastar de si própria. Um deles, talvez dos mais silenciosos, é a erosão da pontualidade. Aquilo que durante séculos foi expressão de respeito, de consciência e de carácter tornou-se hoje quase um detalhe dispensável. Perdeu-se o foco, perdeu-se o pudor de falhar a hora combinada, como se o tempo, esse bem finito e irreversível, fosse terreno elástico ao serviço da conveniência individual.
A antiga regra do “quarto de hora académico”, criada num contexto em que a distância física e a imprevisibilidade justificavam certa margem, foi transformada num salvo-conduto universal. De exceção passou a hábito, de tolerância passou a desculpa. E o mais desconcertante é que este costume, envolto em aparente benevolência, acaba por premiar quem chega tarde e penalizar quem cumpre. O esforço silencioso de quem organiza o seu dia, de quem calcula caminhos e distâncias, de quem simplesmente respeita, fica soterrado sob a complacência generalizada para com os atrasos.
Chegámos ao ponto em que até o teatro, esse lugar onde o tempo tem uma respiração própria e onde o início de um espetáculo é um instante quase litúrgico, já hesita em fechar as portas à hora marcada. Interrompe-se a penumbra, suspende-se a concentração dos que chegaram dentro do horário prometido, como se a ficção pudesse ser pausada ao sabor da desatenção de cada um. É um gesto pequeno, mas que revela muito, porque a prioridade deixou de estar na comunidade que cumpre para se centrar no indivíduo que tarda.
No fundo, falamos de respeito. Não o respeito protocolar, cheio de fórmulas, mas o respeito essencial, aquele que reconhece no outro um igual, com tempo, com vida, com limites. Ser pontual é dizer sem palavras que o tempo do outro tem valor. Quando este princípio se dissolve, dissolve-se também uma parte da responsabilidade que sustenta a convivência humana.
Recuperar a pontualidade não é um exercício de nostalgia. É um ato de maturidade cívica. É reafirmar que a consideração ainda importa, que a palavra dada ainda tem peso, e que o mundo se torna mais habitável quando cada um entende que o tempo dos outros não é um recurso descartável. É isso que está em causa: não minutos, mas a própria noção de respeito.





