Entre 1810 e 1811, a 3.ª Invasão Francesa atravessou violentamente os atuais concelhos de Seia e Gouveia, deixando um rasto de destruição. As tropas de Napoleão, comandadas por Massena, cruzaram a região rumo a Lisboa, saqueando aldeias, incendiando casas, profanando igrejas e matando civis. A memória desses dias sombrios foi preservada nas cartas enviadas por párocos locais às autoridades em 1811, e será agora publicada num livro que será brevemente lançado.
Estas cartas descrevem com detalhe o sofrimento das populações. Em Seia, cinco pessoas foram assassinadas. Em Santiago, outras cinco. Em São Romão, 58 casas foram reduzidas a cinzas. Os relatos falam ainda de gado roubado, celeiros vazios e do desespero das populações obrigadas a fugir para a serra, deixando para trás tudo o que tinham. A fome e a doença agravaram a tragédia. A febre tifoide, propagada pela miséria e pelas condições de higiene precárias, matou muitos mais do que as baionetas francesas.
O livro revela também que nem só os invasores foram responsáveis pelas atrocidades. Há denúncias de abusos cometidos por soldados aliados — britânicos e portugueses — que, contrariando ordens superiores, participaram em saques e intimidações. A política de terra queimada, embora eficaz do ponto de vista militar, mergulhou as populações numa crise alimentar sem precedentes.
Mais do que um simples episódio da Guerra Peninsular, a passagem das tropas por Seia e Gouveia foi uma tragédia humana. O testemunho direto dos párocos é um retrato cru da guerra longe do campo de batalha. Este livro, ao dar voz às vítimas esquecidas, presta um tributo à resiliência de comunidades que resistiram com coragem à brutalidade da História.





