O castro de São Romão constitui o mais importante local arqueológico do concelho de Seia e um dos mais relevantes testemunhos do passado antigo da nossa região. Implantado num cabeço dominante, com amplo controlo visual sobre a paisagem envolvente, este povoado fortificado revela uma escolha estratégica do ponto de vista defensivo e uma relação profunda entre as comunidades que o habitaram e o território que ocuparam. Do alto do castro, o espaço organiza-se e domina-se, tal como acontecia há mais de dois mil anos.
Os estudos arqueológicos realizados ao longo das últimas décadas demonstram que este local conheceu uma ocupação prolongada, iniciada na Idade do Ferro e prolongada pela época romana, acompanhando os processos de transformação cultural do interior da Lusitânia. As escavações e campanhas arqueológicas conduzidas por José Carlos Senna-Martinez, Amílcar Guerra e Carlos Fabião confirmaram a importância excecional do sítio, tanto pela sua dimensão como pela qualidade dos materiais identificados. Cerâmicas, blocos aparelhados, elementos arquitetónicos e inscrições revelam um povoado estruturado e central na rede de povoamento regional.
Entre os achados mais significativos destaca-se uma epígrafe romana de enorme valor histórico, estudada por Amílcar Guerra, que constitui um documento essencial para compreender a romanização deste território. A inscrição revela a integração das elites locais no mundo romano sem apagar a sua identidade, oferecendo um raro testemunho direto dessa transição histórica. Para além desta epígrafe, o castro forneceu outros elementos arqueológicos de grande relevância, alguns dos quais permanecem hoje na sede da freguesia de São Romão, permitindo à comunidade manter um contacto direto com a sua herança milenar.
Como resultado das escavações arqueológicas, vários materiais foram deslocados para Lisboa para estudo científico e conservação, prática fundamental para o conhecimento atual do sítio. No entanto, o seu regresso progressivo, seja físico, seja através de exposições, projetos educativos ou núcleos interpretativos locais, representa uma oportunidade decisiva para reforçar a ligação entre a comunidade e o seu património. Não se trata de devolver objetos, trata-se de devolver memória, pertença e continuidade histórica a um território que deles é herdeiro. Estes testemunhos, quando regressam, ganham novo sentido, tornando-se instrumentos de conhecimento e identidade coletiva.
Mas o castro de São Romão não é apenas memória: é também um espaço de perguntas em aberto. Haverá ainda muito por descobrir naquele cabeço? A dimensão do povoado e a complexidade das suas estruturas defensivas sugerem que o subsolo poderá guardar novas respostas, convidando a futuras campanhas arqueológicas e a novos olhares sobre o passado.
A valorização do castro de São Romão e dos seus achados é uma responsabilidade coletiva. Reconhecer, proteger e divulgar este património é garantir que a história permanece viva e partilhada. Em São Romão, a memória está inscrita na paisagem e nas pedras, e continua a interpelar-nos sobre quem fomos e quem queremos ser.





