A transumância é uma prática ancestral que moldou profundamente a identidade da Serra da Estrela. Durante gerações, os pastores conduziram os seus rebanhos entre os vales e os planaltos serranos, seguindo o ritmo das estações e em busca dos melhores pastos. Este movimento sazonal não era apenas uma estratégia de sobrevivência ou gestão de recursos — era uma verdadeira forma de vida, intrinsecamente ligada à cultura, à paisagem e às tradições das comunidades serranas.
Mais do que uma simples prática agropecuária, a transumância teve um papel determinante na preservação do ecossistema da serra. Ao permitir que os terrenos repousassem alternadamente, evitava-se a sobre-exploração dos recursos naturais e contribuía-se para o controlo da vegetação, reduzindo o risco de incêndios e promovendo a biodiversidade. Este equilíbrio sustentável entre o homem, os animais e a natureza foi essencial para a manutenção do modo de vida serrano e para a produção de bens de elevada qualidade, como o emblemático Queijo Serra da Estrela — cuja excelência depende do leite de ovelhas alimentadas em pastos limpos e nutritivos.
Contudo, a importância da transumância na Serra da Estrela ultrapassava as fronteiras locais. Um episódio particularmente revelador remonta ao final do século XV: foi D. Manuel I quem, inicialmente, concedeu ao Real Mosteiro de Santa Maria de Guadalupe, em Espanha, o direito de fazer pastar os seus rebanhos nas terras da serra. Mais tarde, já em meados do século XVII, esse privilégio foi renovado por D. Pedro II, demonstrando a continuidade e a relevância deste acordo ao longo de várias gerações.
Estava em causa a deslocação de cerca de quinze mil ovelhas espanholas para os férteis pastos da Serra da Estrela — um movimento que envolvia organização, regulamentação e supervisão régia. O documento de confirmação descreve com rigor os limites das zonas atribuídas, como se pode ler no texto original:
“A saber, comessava-se em longo de Loriga e dahi pera riba athé onde se mete o Ribeiro do Charco. E dahi hia carrar asima nas pernas das àrvores e pero Bexeril, agoas vertentes athé o torroeiro. E des hi per os covos d’alda, carrando na cabessa estrella. E dahi partia em termo de Covilham e assi em termo de Gouveia e de Manteigas.”
O privilégio concedido incluía ainda a isenção de portagens e taxas, bem como regras específicas para evitar conflitos com os criadores locais. O almoxarife da região confirmou, em resposta à coroa, que “nello não avia dúvida nem agravo algum”, excetuando os criadores que ali pastavam “per seus dinheiros”, o que, segundo o documento, não constituía prejuízo relevante, pois apenas implicava “aver menos renda” para a coroa.“
E quoanto era aos vezinhos e naturais da terra, estes eram contentes no que nisso mandávamos.
”A organização do espaço de pasto era meticulosa. Estava estipulado que “…os gados do dito mosteiro e dos moradores das ditas terras, pastem dentro dos termos e lemitaçoins aqui declarados. […] E que o contrário fizer, paguará as coimas ordenadas per os concelhos.
”Também se reconheciam os direitos de terceiros, como Dom Diogo da Silva, Conde de Portalegre, que, por ser senhor da vila de São Romão, tinha direito a “justa parte do montado” da serra. A ele caberia fazer “esmolla ao dito mosteiro” com uma fração das pastagens, “já demarcada”.
Finalmente, impunha-se um controlo rigoroso sobre a composição dos rebanhos:“E no contar das ditas quinze mil cabessas de guado, não poderão as meter nem humas ovelhas nem carneiros que sejam alheios salvante.”
Este episódio revela como a Serra da Estrela foi, desde sempre, um território de circulação, partilha e regulação minuciosa, onde as necessidades de subsistência e de equilíbrio ecológico se cruzavam com os interesses económicos e políticos de diferentes entidades, nacionais e estrangeiras.
Hoje, embora a prática da transumância tenha perdido expressão face às transformações do mundo rural, a sua memória resiste: nos caminhos dos pastores, nas festas e romarias que celebram os ciclos do ano, e na cultura viva das comunidades serranas. Preservar essa herança é garantir que a Serra da Estrela continue a ser não apenas uma paisagem, mas um lugar de história, saber e identidade coletiva.





