Nas últimas semanas instalou-se em Portugal um curioso ritual cívico: figuras do espaço dito “não-socialista” — liberais, sociais-democratas e democratas-cristãos de currículo respeitável — sentiram um súbito impulso de anunciar publicamente o seu voto em António José Seguro. Não se trata apenas de votar. Trata-se de proclamar. De assinar cartas abertas com a convicção de quem acredita estar a prestar um serviço à pátria — e, já agora, a educar o eleitorado.
Perante tão elevada pedagogia democrática, sinto-me tentado a fazer um apelo bem mais simples e, curiosamente, mais democrático: votem como entenderem. Sem certificados de virtude. Sem selos morais. Sem tutelas.
Porque a democracia não é um jantar de gala onde se avalia quem usa os talheres certos. O voto é individual, livre e intransmissível. Quando se tenta condicionar o seu sentido por vergonha, medo ou chantagem moral, não se fortalece a democracia — subverte-se.
O argumento usado por muitos subscritores destas cartas é revelador: quem não vota em Seguro e vota em André Ventura é antidemocrata. Como se a democracia deixasse de existir precisamente no único momento em que se manifesta de forma inequívoca: na urna. Aparentemente, o voto só é democrático quando coincide com o voto certo. Quando diverge, passa a ser patologia.
Confesso que, sendo eu um social-democrata com algum sangue democrata-cristão, observo com perplexidade esta corrida vertiginosa às cartas abertas de apoio a um candidato socialista. Não questiono o direito de ninguém votar em Seguro. Cada um terá as suas razões. Questiono apenas a necessidade de publicitar o voto como se estivéssemos num intervalo televisivo a vender lixívia: “Eu voto Seguro. Branco mais branco não há.”
A analogia não é inocente. A publicidade funciona pela repetição e pela normalização. E é exactamente isso que aqui se tenta fazer: transformar uma opção política numa obrigação social.
Convém, contudo, não esquecer um pequeno detalhe frequentemente omitido: António José Seguro é socialista. Um socialista de pedigree. Militante desde sempre, moldado por uma cultura política muito específica. Mais socialista do que isto só se tivesse nascido no Largo do Rato, embalado entre congressos, moções e discursos de encerramento, com o cartão de militante passado antes da certidão de nascimento.
Ainda assim, por artes mágicas — quiçá por imposição de uma carta aberta ou duas — surge agora convertido em representante do “campo não-socialista”. A política portuguesa tem destas maravilhas: um homem pode passar a vida inteira a ser socialista e, de repente, acordar transversal. Curioso. Revelador.
Façamos então um exercício simples de futurologia. Imaginemos uma crise política no governo da AD. Um bloqueio orçamental, uma moção de censura. O que fará o Presidente Seguro? Fará o que fizeram os presidentes socialistas antes dele: não forçará soluções artificiais, não inventará blocos centrais e dissolverá o Parlamento sem grande hesitação.
E então será delicioso assistir ao momento seguinte: os mesmos subscritores das cartas abertas a Seguro a apelarem ao voto na AD ou na IL, depois de o governo ter caído por decisão do Presidente que ajudaram a legitimar. Não será difícil imaginar André Ventura a exibir essas cartas como quem agita recibos antigos em horário nobre, esfregando-as na cara dos seus autores: “Foram vocês.” Cada carta será prova material do crime político, lida e dramatizada entre gargalhadas cúmplices do seu eleitorado.
É por isso que me espanta a falta de ponderação — e a precipitação quase adolescente — de figuras que se dizem da Iniciativa Liberal, do PSD e do CDS. Política também é memória. E alguns parecem acreditar que ela se apaga com uma carta aberta.
Termino como comecei: votem. Votem em consciência. Mas não se deixem convencer de que o vosso voto precisa de validação externa. O voto pertence-vos. Só a vocês.
Tudo o resto é ruído. Travestido de virtude.





