Todos os anos, por volta desta altura, entre junho e setembro, somos bombardeados, à hora do almoço e do jantar, pelos noticiários nacionais com imagens das chamas que, de norte a sul do país, assolam populações inteiras. São imagens de pessoas desesperadas, a tentar salvar as suas vidas ou, por vezes, o pouco que ainda lhes resta, mas também da Proteção Civil e das corporações de bombeiros, exaustas pelo esforço no teatro de combate a este flagelo, e dos agentes de segurança pública, que tentam manter os ânimos o menos exaltados possível. A todos eles deixo o meu abraço solidário pelas perdas sofridas, mas também o meu agradecimento e reconhecimento pelos esforços, coragem e dedicação.
No meio desta azáfama, temos, também, ano após ano, os microfones dos vários canais mediático nacionais a cobrir os acontecimentos, seja em direto, seja em peças jornalísticas gravadas. Registam a angústia e o sofrimento de quem vê a vida consumida num rastilho e entrevistam pessoas que tentam salvar as suas propriedades ou que prestam auxílio no terreno, mas, no fim, podemos concluir que, muitas vezes, os órgãos de comunicação social mais atrapalham do que ajudam. Pior ainda, acabam por alimentar o desejo mórbido de muitos pirómanos à solta.
Sem deixar cair por terra o direito à informação, essencial, aliás, para a população, creio que é necessário continuar a expor e sensibilizar para carências ou até mesmo falhas nos sistemas de combate. Manter as pessoas atualizadas e, principalmente, evitar que estas se desloquem às áreas afetadas é fundamental. Tal é diferente de transformar toda esta desgraça num espetáculo mediático, com vasto tempo dedicado, em peças nos telejornais e reportagens. Além de dificultar o trabalho de quem está no terreno, por se colocarem em locais impróprios ou porque acabam por precisar eles próprios de ser socorridos, em nada contribuem para o combate ou prevenção dos incêndios a não ser com sensacionalismo.
Chegados ao cerne da questão, foquemo-nos então na prevenção.
Não teriam os órgãos de comunicação social maior preponderância se começassem a dar mais tempo de antena, nos meses de abril e maio, a entrevistas, vídeos e informações com foco em medidas de prevenção e redução do risco de incêndios? Não digo que ocupem 50% a 60% dos seus programas com esse conteúdo (como acontece nos momentos de desgraça), mas talvez 20% a 30% fosse um bom começo.
Poderia esta medida ter impacto real e ajudar a reduzir o número de incêndios? A comunicação social não é, evidentemente, um meio de combate nem um fator de propagação, mas pode ser um agente de prevenção.





